Os pobres no centro
Quem teve a oportunidade de acompanhar os vários comentários sobre o Papa Francisco na altura da sua morte e funeral rapidamente se apercebeu como a centralidade dos pobres no seu ministério e nos inúmeros sinais do seu percurso era uma nota dominante.
Para o Papa Francisco, a opção pelos pobres «é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica» (EG 198). Não formula princípios, mas exprime cuidado e preocupação com os últimos: «… qualquer comunidade ou igreja que pretenda subsistir tranquila, sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o perigo da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos». (EG 207).
Ele vinha do «fim do mundo» e a sua trajetória pastoral estava marcada pela teologia da libertação na vertente assumida pela Igreja da América Latina chamada teologia do povo. Na teologia do povo não entrava a análise marxista como forma de leitura da realidade, mas sim o Evangelho. Assim se entende como no seu magistério são marcantes as referências evangélicas que fundamentam a sua ação de uma Igreja hospital de campanha, de uma Igreja samaritana, capaz de se debruçar sobre as feridas da humanidade. Com notável clarividência o Papa Francisco deu corpo ao sonho de uma igreja outra que transparece no chamado Pacto das Catacumbas ou esquema XIV. (Não se deve esquecer que ao tempo do Concílio Vaticano II o Papa Francisco estava a fazer a sua formação na Comunidade dos Jesuítas).
Por ser pouco conhecido, deixo uma pequena nota sobre o chamado Pacto das Catacumbas, pois foi uma semente que começa a dar os seus frutos: Um conjunto de bispos (cerca de cinquenta), que escolheu como nome Igreja dos Pobres, foi-se reunindo durante o Vaticano II para levar por diante a expressão do Papa João XXIII que, dois meses antes do Concilio. Proclamava que a Igreja deve manifestar a sua predileção pelos pobres tornando-se a «Igreja dos Pobres». Era preocupação deste grupo de bispos que houvesse uma declaração dessa opção nos textos do Concílio o que não aconteceu. Apenas no início do documento GS ficou essa intuição: «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo» (GS 1).
Se essa visão não ficou explícita nos documentos conciliares ficou devidamente patente no Documento das Catacumbas também chamado Esquema XIV. Era o sonho dessa Igreja marcada pela opção preferencial pelos pobres. O Documento foi assinado no dia 16 de novembro de 1963 (o Concílio seria encerrado em 8 de dezembro de 1963).
A título de exemplo apresento alguns elementos desse Documento em que o conjunto dos bispos que o subscreveram se comprometia:
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Viveremos segundo o modo ordinário da nossa população no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção, e a tudo o que se segue….
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Renunciamos para sempre à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes) nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos (Cf Mt 6, 19-21; Lc 12, 33s)
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Não possuiremos nem imóveis nem móveis, nem conta em banco, etc. em nosso próprio nome; e se for preciso possuir poremos tudo em nome da Diocese, ou de obras sociais ou caritativas. Cf Mt 6, 19-21); Lc 12.33s.
Com estes 3 pontos dos doze do Documento, gostaria de sublinhar que o Papa Francisco viveu o seu tempo pastoral com o sonho destes pioneiros. E o convite que fez aos participantes da Assembleia Sinodal em 2024 para uma peregrinação às Catacumbas de Santa Domitília, e aí fazer a proclamação deste texto, é a certeza de que ele orientou a sua forma de ver a presença na Igreja a 레플리카 시계 partir dessa opção.
Idalino Simões






