Fé com os pés no chão
Daniela Sofia Neto
Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra
A fé é muitas vezes associada ao transcendente, mas não precisa de o ser. A fé pode realmente ser vivida com os pés plantados no chão — e talvez seja mesmo isto que se pretende — numa tentativa de conectar o campo espiritual à vida concreta. Afirmar que é necessário viver a fé com os “pés no chão” relembra-nos da importância de uma espiritualidade que não se esgota no foro íntimo, mas que se combina com a forma como se trabalha, como se cuida e como se vive em sociedade. Talvez este seja um desafio para pensar. Será que a fé pode ser vivida de uma forma mais próxima, mais concreta e mais enraizada no chão que pisamos todos os dias?
Ora, a nossa vida parece mais organizada do que nunca e essa organização advém de sistemas que não vemos, mas que interagem a cada nanossegundo connosco. Por exemplo, os algoritmos “decidem” o que aparece no nosso ecrã, que vozes ganham destaque e a que comportamentos nos quer incitar. São eles também que moldam os nossos ritmos, as prioridades e até as emoções. De facto, não têm a capacidade de substituir a ação humana, mas se repararmos bem, orientam-na e fazem-no de forma tão silenciosa que nem sequer damos conta. O sistema decide por nós, orienta o nosso olhar. Sugere o que vale a pena e até o que pode ser ignorado. Não obstante, estes sistemas não são neutros e, por este motivo, produzem visões do mundo e reforçam desigualdades. Ao transformar todas as relações em dados, o risco não é apenas o da tecnologia em si, mas a forma como ela está a redefinir todos os valores impregnados nas relações. Ao mesmo tempo, criam a sensação de estarmos em permanente urgência, de resposta imediata, mas também perante uma atenção tão fragmentada. Aos poucos, vamos perdendo a capacidade de escutar, de esperar, de discernir…
Parece-se premente, desde já, a menção ao Plano Pastoral da Diocese de Coimbra para o Triénio 2025-2028, porque incide na espiritualidade e não é de somenos referir a versatilidade de entendimentos e de esferas da nossa vida que podem ser movidas por ela. Por outro lado, é um Plano que reflete sobre os desafios da atualidade e que se apresenta como uma resposta ao imediatismo virtual e à superficialidade com que vivemos.
A espiritualidade cristã é incómoda. Não oferece soluções técnicas, nem se apresenta por via dos algoritmos, que pré-seleccionam o que “consumimos” com base nos conteúdos que vamos deixando likes e aqueles que vamos passando à frente. Não é que a fé seja naturalmente difícil, mas hoje somos confrontados com um ambiente que não facilita a interioridade nem o silencio.
Talvez por isso o tempo do Advento soe hoje quase fora de lugar. Chegamos a Novembro a ansiar o Natal e, por isso, ainda antes de começar o Advento já temos os espaços decorados com arvores de Natal, as músicas alusivas já soam pelas cidades e o frenesim das publicidades já está instalado, acelerando-nos para a festa mesmo antes de ela começar. Não obstante, o Advento propõe precisamente o contrário: esperar. É o tempo de espera. Não aquela espera passiva, de quem cruza os braços à beira da frustração, mas uma espera que nos incita a sermos vigilantes e a estar atentos. Uma espera de quem resiste à pressa. Com ânimo, com fervor.
Viver a fé nos nossos dias é um exercício de coragem e de resistência. É escolher discernir sobre o que vale a pena, mesmo quando somos constantemente orientados para o efémero e para o imediato. Ensina-nos a esperar, a escutar. A espera proposta para este tempo litúrgica é pedagoga porque é um convite a desacelerar a pressa e a estar vigilantes. A fé com os pés no chão é um chamamento a uma vida espiritual com significado e com presença e o advento pode realmente ser um momento de redescoberta à arte de esperar, de resistir à pressa e de caminhar por entre portas abertas, conscientes de que os nossos passos, mesmo os mais pequeninos, nos podem aproximar de uma vida mais plena e de esperança.






