As Nações Desunidas

As Nações Desunidas

José Santos Cabral

No dia 26 de Junho de 1945, finda uma guerra mundial que provocou 60 milhões de mortos e uma devastação global, as nações uniram-se e afirmaram a sua vontade de construir um mundo melhor, não permitindo que a força e a ambição do poder constituíssem o critério do destino dos povos. Nessa altura os povos das Nações Unidas afirmaram que decidiam “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra, que por duas vezes, no espaço da nossa vida, trouxe sofrimentos indizíveis à humanidade, e a reafirmar a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres, assim como das nações grandes e pequenas, e a estabelecer condições sob as quais a justiça e o respeito às obrigações decorrentes de tratados e de outras fontes do direito internacional possam ser mantidos, e a promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade ampla”. 

  Perante tal afirmação de vontade e compromisso nasceu a esperança de que a Humanidade tivesse adquirido a sabedoria necessária para construir um Mundo em que a paz e a justiça se assumissem como a trave mestra do relacionamento entre as nações. As Nações Unidas eram o paradigma dessa aspiração e convocavam  um sonho em que a solidariedade entre povos seria possível. 

Infelizmente a esperança gerada por aquela vontade colectiva de construir uma sociedade global mais justa e solidária, em que a força da lei se sobrepusesse à lei da força, extinguiu-se Nos tempos que correm a lei que impera é a do mais forte avaliada pela dimensão dos exércitos, pela força destrutiva das ogivas nucleares ou pela tecnologia bélica. O mundo fragmentou-se em blocos, interesses, algoritmos e ressentimentos e as Nações estão agora Desunidas

O Direito Internacional e o respeito pelas regras de convivência entre as nações desapareceu perante os nossos olhos. O mesmo está a ser corroído lentamente esboroando-se perante as sucessivas violações da soberania dos países mais fracos; perante cada resolução dos organismo internacionais que são mero papel de enfeite; perante cada crime de guerra que os tribunais internacionais  não conseguem perseguir. O mesmo Direito Internacional existe, mas deixou de ter qualquer força perante um mundo multipolar em que impera a geopolítica da força das grandes potências. A politica internacional regressou a uma lógica de esferas de influência e de equilíbrios instáveis onde a paz é uma mera pausa entre crises. A soberania, princípio fundador da ordem internacional, tornou-se condicional sendo respeitada apenas quando é conveniente. A legalidade torna-se uma mera palavra de retórica perante o massacre de civis inocentes, a destruição e a pilhagem de recursos naturais.

Num relance tomámos consciência de que este nosso planeta que habitamos já não é um lugar seguro e que vamos legar aos nossos filhos um mundo pior do que aquele que herdámos

As consequências são telúricas. A instabilidade tornou-se estrutural, os conflitos prolongam-se, as crises humanitárias banalizam-se. Os mais vulneráveis — Estados pequenos, populações civis, refugiados — pagam sempre o preço mais alto. Sem regras eficazes, o mundo tornou-se menos previsível e mais perigoso, 

Perante a conduta de lideres sem coragem ou autoridade moral , impõe-se uma pergunta incómoda: onde termina a responsabilidade dos governantes e onde começa a nossa? Aqui, a esperança assume um novo significado. Esperança não é esperar que alguém resolva por nós; é recusar a ideia de que estamos dispensados de agir.

O papel de cada um pode e deve ter significado . Começa no voto informado, continua na vigilância cívica, cresce na exigência de transparência. A esperança está em defender princípios mesmo quando não nos favorecem; está também em ser solidário para com o Outro; está na recusa da indiferença perante a injustiça. Como afirmava Francisco "Esperança não é uma palavra vazia, nem um nosso vago desejo de que as coisas corram bem: a esperança é uma certeza, porque se baseia na fidelidade de Deus às suas promessas”.

 A História avança porque alguém, em algum lugar, decidiu não desistir. 

 

 

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