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Faleceu hoje, 28 de Junho de 2018, junto da família em Alcobaça depois de prolongada doença, o Cónego Anibal Pimentel Castelhano. O Cónego Aníbal Pimentel Castelhano, natural do Seixo, concelho de Mira, nasceu a 09-12-1943, filho de Aníbal Marques Castelhano e de Rosa a Costa Pimentel e irmão gémeo de Manuel. Entrou no seminário da Figueira da Foz a 11-10-1954 e depois de ter concluido o Curso no Seminário Maior de Coimbra foi ordenado Presbítero a 11-08-1968, por D. Francisco Rendeiro na Igreja Paroquial de Seixo de Mira. Desde a primeira hora que se dedicou à Pastoral Familiar, quer na assistencia às Equipas de Nossa Senhora, quer ao Movimento dos Casais de Santa Maria e ainda, em Leiria, apoiou o CPM, durante 9 anos. Os seus muitos encargos foram exercidos com muitas qualidades humanas, mas sobretudo com verdadeiro espirito de fé e entrega à igreja em obdiência ao seu Bispo. Generosidade, alegria, dedicação, serão qualidade que os seus colegas, paroquianos e alunos guardarão com saudade do Cónego Aníbal. O seu funeral realizar-se-à amanha (29 de Junho), com missa celebrada na Sé Catedral de Coimbra presidida pelo Senhor D. Virgílio Antunes, pelas 11h30, seguindo depois para o Seixo-Mira onde haverá nova celebração de corpo presente presidida pelo Sr. Vigário Geral da Diocese pelas 17h, seguindo-se a tumulação no cemitério local. Paz à sua alma! 
SOLENIDADE DO NASCIMENTO DE SÃO JOÃO BATISTA HOMILIA DA MISSA DAS ORDENAÇÕES SÉ NOVA – 2018.06.24   Caríssimos irmãos e irmãs! Esta festa das ordenações na solenidade do nascimento de São João Batista traz um novo alento do Espírito de Deus à nossa Igreja Diocesana de Coimbra. Ajuda-nos a tomar consciência de que a fé vem de Deus, a Igreja é de Deus e a obra de levar a salvação até aos confins da terra também pertence a Deus. Alegra-nos a certeza de que, em todos os tempos e lugares, o Senhor suscita pessoas e meios adequados para a realização da missão confiada à Igreja. Suscitou o pequeno resto de um povo de Israel destroçado, para restaurar as tribos de Jacob e reconduzir os sobreviventes de Israel à sua pátria e ao seu Deus; suscitou-lhes um rei segundo o seu coração e disponível para fazer sempre a sua vontade – dele havia de nascer Jesus, o Salvador; de uma família sem esperança de descendência, suscitou João Batista, o profeta que anuncia a presença de Jesus no meio do seu povo, o grande sinal de que Deus é misericordioso. À luz da fé que foi derramada nos nossos corações, alegra-nos, por isso, a certeza de que Deus pode e quer restaurar o povo que nós somos e reconduzir a Igreja e a humanidade às fontes da salvação e da vida. À luz da fé cristã, na Igreja de Cristo não há lugar para pessimismos nem para otimismos, que são fruto da confiança ou da desconfiança nas capacidades humanas, mas há sempre lugar para a confiança em Deus e para a esperança na realização da sua magnífica obra. A vocação de todos os batizados a seguir Cristo, e as vocações específicas geradas pelo Espírito Santo na Igreja, constituem a resposta dos fiéis ao chamamento divino, que não cessa de nos oferecer motivos para a esperança. Uma Igreja, povo de Deus, que segue Jesus como o seu Mestre e Senhor, enriquecida por todas as vocações, alimentada pela Palavra e pela Eucaristia, conduzida pelo Espírito Santo, é constituída por Deus como verdadeira luz das nações e está disponível para levar a sua salvação até aos confins da terra. Esta Igreja Diocesana que nós somos reconhece as suas debilidades, mas vê sobretudo as suas imensas potencialidades, sempre que, como Igreja carismática, caminha confiada na presença do Espírito que lhe foi dado. Por sua vez, quando a Igreja se torna frouxa na fé e no amor, fechada sobre si mesma, mais humana que divina, sem espiritualidade assente na Palavra e na Eucaristia, quando não vive do Espírito, ela deixa de ser luz para as nações e perde a única força que lhe pertence, a do testemunho por meio da fé, do amor e do serviço que quer prestar a toda a humanidade. Ao ouvir a narração dos acontecimentos que envolvem o nascimento de João Batista, avivamos a fé na realização dos desígnios e Deus em nosso favor. Acreditamos que Ele nos oferece a possibilidade de ver nascer vida nova nas nossas comunidades porventura envelhecidas na fé, acreditamos que nos dará todas as vocações necessárias para que sejamos uma Igreja evangelizada e evangelizadora, acreditamos que as comunidades se podem organizar de forma humanamente adequada e espiritualmente iluminada para comunicarem a alegria de estar com Cristo e de viverem na comunhão de fé, de esperança e de amor com Deus e com os irmãos. Caríssimos irmãos e irmãs! Qualquer vocação cristã encontra a sua razão de ser e o seu sentido no contexto da Igreja, Povo de Deus, na qual o Espírito Santo concede a abundância dos seus dons em ordem ao bem de todos. A vocação sendo um dom pessoal, tem sempre como horizonte a vida da comunidade cristã e o bem de toda a humanidade que Deus quer salvar por meio de Jesus Cristo, o Único Salvador. A própria vida que recebemos do Criador já traz em si mesma a marca do dom que se recebe para se dar. De forma mais visível, a vocação ao ministério ordenado realiza a atitude central que há de animar todo o batizado: como Cristo e em união sacramental com Cristo, ser para Deus e ser para os outros. Assumir uma vocação cristã é, por isso, fruto de uma forma de assumir a vida à luz da fé, que põe o chamado numa tensão generosa e decidida de dar a vida para que outros tenham a vida em abundância. Não admira, portanto, que a fé em Jesus Cristo esteja no centro de qualquer resposta vocacional dentro da Igreja. Não admira também que a chamada crise de vocações sacerdotais tenha na sua origem uma imensa crise de fé que atingiu as nossas comunidades eclesiais. O caminho para o crescimento vocacional passa sempre por um potenciar todos os dinamismos de enraizamento e aprofundamento de uma fé sólida, responsável, consequente. Temos diante de nós, enquanto Igreja Diocesana, a grande missão de proporcionar às comunidades, às famílias e, de modo particular, às crianças e aos jovens percursos de descoberta da fé e caminhos de encontro com Deus. Somente esta experiência sentida poderá ajudar os jovens a interrogarem-se seriamente acerca do seu caminho de vida em Igreja. Salvo as exceções que o Espírito quiser suscitar, as vocações sacerdotais só podem surgir em contexto de vivência da fé como uma realidade determinante do todo que é a pessoa e do estilo de vida que se sente impelida a seguir. Peço, por isso, a toda a comunidade diocesana, que em toda a sua ação pastoral, em todos os seus dinamismos litúrgicos, catequéticos e espirituais, tenha sempre presente uma intencionalidade vocacional. A catequese infantil, a pastoral juvenil e universitária, a pastoral familiar, hão de investir seriamente os seus recursos na oferta de percursos de fé, sempre com uma intencionalidade vocacional. A chamada pastoral das vocações a nível diocesano, encarregar-se-á de acompanhar os jovens em ordem ao discernimento da vocação específica de cada um, de modo que todos aqueles que Deus chamar encontrem a ajuda eclesial e espiritual para perseverarem com coragem e alegria nesse caminho. Caríssimos amigos que hoje recebeis a graça do sacramento da Ordem no grau do Diaconado ou do presbiterado! Em nome desta assembleia cristã e de todo o Povo de Deus, convido-vos a acolher com humildade o dom de Deus que hoje vos é concedido. Agradecei ao Senhor no íntimo do vosso coração porque olhou para vós com misericórdia e amor, a ponto de vos chamar a participar da sua missão de levar ao mundo o Evangelho da salvação e de celebrar unidos a Ele e em sua memória os mistérios da fé. A Igreja alegra-se com o vosso sim generoso e confiante. Espera que sejais pastores segundo o coração de Deus e que exerçais o ministério como um verdadeiro serviço. Tende consciência de que sois portadores de um tesouro, mas em vasos de barro, para que sempre ponhais o Senhor no centro do vosso serviço e nunca penseis em vós como senhores de coisa alguma. Todos esperamos que leveis o Evangelho nos lábios e no coração, na certeza de que a conversão pastoral tem de estar sempre precedida pela conversão pessoal ao Senhor que vos convida a uma feliz história de amizade e serviço. A conversão a Cristo e à sua Igreja há de levar-vos a acolher, por uma lado, e a ir ao encontro, por outro, de cada pessoa e de cada comunidade como aqueles por quem Jesus ofereceu a sua vida ao Pai. O Povo de Deus espera que sejais pastores apaixonados, cujo coração se comove de amor e de misericórdia por cada pessoa, justa ou pecadora, de todas as condições, mas com uma predileção especial, tal como Jesus, o vosso mestre, pelos mais pobres e pelos que vivem nas periferias da humanidade, da fé ou da própria Igreja. Amai a Cristo e amai a sua Igreja, a Igreja presente neste lugar e neste tempo; amai a humanidade com as suas grandezas e misérias; levai a boa nova da esperança aos desanimados e o conforto aos que sofrem. Que nunca sejais meros administradores do sagrado, nem simples gestores da Igreja, mas sinais vivos da fé e condutores do povo Santo de Deus. Recordai-vos sempre que o pastor dá a vida pelo seu rebanho e tudo está disposto a fazer para que encontre pastos verdejantes e águas cristalinas. Que sempre e em tudo possais trabalhar na comunhão da Igreja e que nunca cedais à tentação de romper com a unidade da Igreja, para que, segundo a oração de Jesus ao Pai, todos sejamos um só rebanho sob a condução do Único Pastor. Deixai-vos conduzir pela mão da Virgem Santa Maria, a quem confiamos o vosso ministério e a vossa vida. Coimbra, 24 de junho de 2018 Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra  
XI DOMINGO DO TEMPO COMUM B PEDRÓGÃO GRANDE – I ANIVERSÁRIO DOS INCÊNDIOS   Caríssimos irmãos e irmãs! Os acontecimentos de há um ano atrás estão bem gravados na memória de todo o povo português. A intensidade com que vivemos aqueles dias e a grandeza das emoções sentidas não permitem nem podem permitir que se esqueçam as pessoas que sofrem na sua própria carne a dor da separação de familiares, vizinhos ou desconhecidos, a perda dos seus bens mais preciosos ou a beleza da paisagem envolvente das suas casas e das suas vidas. O mais surpreendente em tudo isto é que não morreu a esperança nestes homens e mulheres que viram a destruição à sua frente. Sentiram a morte tocar a sua família, experimentaram a noite bem escura e, de novo, se defrontaram com as questões mais duras, para as quais é difícil encontrar respostas portadoras de uma paz completa. A proximidade e solidariedade dos outros, pessoas e instituições – no fundo, de todo um país - deram uma excelente ajuda, mas decisiva foi a força da fé em Deus, que estrutura e anima por dentro, que toca o lugar mais recôndito em que se decidem as motivações para continuar o caminho mesmo no meio das maiores razões para desistir. Agradecemos, por isso, o testemunho de verdadeira fortaleza interior que têm dado a uma sociedade débil nas suas convicções e nas suas motivações; agradecemos a grandeza do espírito de serviço, a atenção aos outros, a coragem para enfrentar as situações difíceis e o gosto de viver. A tragédia ensinou-nos muito sobre o que há a fazer em matérias como o urbanismo, o ordenamento do território, a florestação, os meios de defesa e combate, as comunicações, a fim de prevenirmos adequadamente situações futuras; ensinou-nos mais ainda o valor da pessoa humana em todas as situações, particularmente nas necessidades, o valor da solidariedade humana e material, o valor da proximidade expressa em gestos bem sentidos, visíveis e palpáveis, o valor dos abraços que podem não acrescentar um cêntimo à conta bancária, mas aquecem a alma e confortam abundantemente o coração. Se a tragédia e as suas vítimas ficarão naturalmente inscritas na memória coletiva do nosso país, não podemos permitir que a grandeza de alma do povo português residente no território nacional ou ausente noutras paragens do mundo, seja omitida pelas mesmas páginas ou deixe de ser assinalada entre os nossos feitos gloriosos. Dificilmente poderia encontrar-se maior sintonia de coração e melhor comunhão na solidariedade e no amor ao próximo, como se edificou à volta desta causa. Ninguém ficou de fora, todos nos comovemos com os nossos irmãos e irmãs caídos à beira do caminho e incarnámos, por isso, a parábola do bom Samaritano, uma das mais belas páginas do Evangelho. Se há sentimentos e valores que são universais e que devem ser assinalados, esta união de pessoas, de corações e de vontades, é, sem dúvida um deles, que tornou mais rico o povo que nós somos. A celebração do aniversário que normalmente é marcado pelo tom da alegria e da festa, tem, neste caso, o sabor da dor, da tristeza e da saudade. Felizmente, tem também a força da esperança, bem alicerçada, própria de quem, a partir da fé sente que está nas mãos de Deus e em tom orante consegue repetir: “quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 8). Neste sentido, a Missa que estamos a celebrar, e na qual pedimos a Deus o eterno descanso dos defuntos e a consolação dos viventes, acolhe também a ação de graças por tudo o que de bom podemos construir enquanto comunidade humana. Elevemos, por isso, este hino de louvor ao Senhor, nosso Deus, e proclamemos a bondade e a fidelidade do Altíssimo, porque aprofundámos os laços da nossa humanidade, porque nos unimos mais enquanto portugueses e porque se manifestaram as raízes da nossa identidade de terra de cristãos. A liturgia oferecia-nos hoje, por meio da sugestiva linguagem das parábolas, algumas perspetivas quanto ao modo como havemos de ajudar a construir o futuro das pessoas e das comunidades. Fazendo uso de referências a elementos do mundo vegetal, como o ramo novo retirado dos ramos mais altos de um cedro frondoso, a semente lançada à terra, que produz a planta, a espiga e o trigo maduro, e ainda o grão de mostarda que, sendo a mais pequena de todas as sementes, cresce e dá origem à maior de todas as plantas da horta, anuncia a força da vida que há de crescer e dar bom fruto. As referências bíblicas às árvores, aos jardins, aos lugares verdejantes e às águas cristalinas, surgem sempre para falar de vida abundante, com qualidade e com esperança de futuro. Contrastam com as referências ao deserto, terra inóspita, sem plantas e sem água, que prenuncia morte da vida e morte da esperança. Diante da paisagem humana destroçada pelos incêndios e diante das cinzas a que ficou reduzida a nossa floresta, reaviva-se a urgência de cuidar da vida das pessoas e de cuidar do planeta bom e belo que o Criador nos deu como casa comum. Todos sentimos o dever de trabalhar em favor de uma ecologia integral que respeite as legítimas aspirações das populações destas regiões interiores, que respeite o meio ambiente, que promova uma economia sustentável, que lhes possibilite o acesso a bens e serviços essenciais, a fim de encontrarem em pé de igualdade com os outros cidadãos as condições adequadas para uma vida feliz. A parábola da pequena semente lançada à terra que dá origem a uma planta e acaba por dar bons frutos, fala-nos da importância dos pequenos gestos, que parecendo insignificantes, acabam por determinar muito daquilo que são os valores dominantes nas nossas comunidades humanas e nas nossas instituições. Estamos diante do grande desígnio e da enorme missão de nos formarmos como pessoas conscientes, livres e responsáveis e de cooperarmos uns com os outros na tarefa de construir uma humanidade digna da sua condição. Num mundo marcado por tantas apreensões e por densas nuvens quanto ao futuro, todos sentimos o dever de lançar à terra as boas sementes da verdade e do amor, os fundamentos de uma sociedade com um futuro de verdadeira justiça e de paz. A nós, caríssimos irmãos e irmãs, enquanto povo de Deus agraciado com o dom da fé, cabe-nos participar ativamente nesta nobre missão de contribuir, à nossa maneira e com as nossas convicções, para a edificação de uma humanidade mais feliz e mais santa. Para além de nos envolvermos totalmente em todas as ações de solidariedade e caridade, procuraremos levar às comunidades a Palavra de Deus por meio das ações de evangelização e de aprofundamento da espiritualidade cristã, os melhores tesouros que Deus pôs nas nossas mãos. O Senhor chama-nos a ser colaboradores da alegria e da esperança, fazendo germinar e frutificar as sementes do Reino de Deus depositadas no coração de cada pessoa criada à Sua imagem e semelhança. A proposta de Jesus, sendo tremendamente difícil de concretizar, nunca pode ser para nós uma utopia, mas constituirá um desafio e um estímulo, que nos deixará sempre inquietos e desassossegados. Peçamos-lhe a graça de assumir com verdade e com responsabilidade o dom que pôs nas nossas mãos em favor de toda a humanidade. Que a Virgem Santa Maria, Senhora das Dores e também Senhora da Alegria, nos ajude a seguir confiantes por entre as luzes e sombras do caminho, mas sempre animados pela santa esperança.   Pedrógão Grande, 2018.06.17 Virgílio do Nascimento Antunes Bispo de Coimbra  
SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS 2018 ASSEMBLEIA DIOCESANA DO CLERO PAMPILHOSA DA SERRA   Caríssimos irmãos! A Solenidade do Sagrado Coração de Jesus constitui um verdadeiro programa de vida para todo o cristão porque traz de novo à nossa meditação as fundamentais atitudes de Jesus, o Mestre que queremos seguir. Mais ainda, é um programa de vida para todo o ministro ordenado, para aquele que, pelo sacramento da Ordem, se deve configurar de forma mais visível e radical com o sacerdote e profeta de Deus, com Aquele que em todos os momentos da sua vida pública e de modo especial na paixão e na morte segue a vontade do Pai. O programa de Jesus é o programa do coração, porque é o programa do amor de Deus, muito mais do que o da letra da Lei. Animado pelo Espírito Santo, o coração de Jesus revela como é o Deus em quem acreditamos e que temos a missão de dar a conhecer à humanidade, como  o Deus Amor. Nas presentes circunstâncias em que nos encontramos, não temos outra via de progresso na fé e de evangelização do mundo, senão a via do coração, como bem intuíram os grandes santos da atualidade e como nos indica, de forma tão eloquente, o ensino do Papa Francisco. O caminho do ministério que recebemos tem de ser o caminho da conversão do coração ao amor de Deus, que nos impele a proclamá-lo com palavras e com obras, ou seja, com um estilo de vida verdadeiramente cristão, no sentido de incarnação do estilo de vida de Jesus, crítico da escravizadora e fria letra da Lei, mas defensor da força da Lei do amor, que liberta pelo poder do Espírito.   As metáforas bíblicas do coração e das entranhas, presentes na linguagem desta Solenidade, ajudam-nos a interiorizar os caminhos da conversão a que somos chamados. A Profecia de Oseias oferecia-nos a imagem das entranhas, sede dos sentimentos mais nobres e puros, sede da misericórdia, enquanto comoção de Deus, que ama com amor eterno e divino todos e cada um dos seus filhos, a totalidade do seu povo. Fala-nos, por outro lado, do coração, que estremece de compaixão, pois conhece a situação de cada pessoa e de todo o povo, perdidos nas teias da morte no meio de um deserto hostil, vazio, sem água nem alimento que possa sustentar a vida. A voz de Deus que, do Egito chama o seu filho, ilustra bem o Deus que conhece o que se passa com o seu povo, que se comove com misericórdia, que estremece de compaixão e que toma a única decisão divina: “não cederei ao ardor da  minha ira, nem voltarei a destruir Efraim, porque Eu sou Deus e não homem”. O seu povo nunca se teria posto a caminho para O seguir, se não tivesse tido a possibilidade de O conhecer com o coração e de se deixar comover com Ele nas suas entranhas. A nós, é-nos oferecida uma possibilidade de conversão que vai muito para além de uma formalidade, de uma convenção, de um conjunto de ideias religiosas ou morais, de uma identidade cultural ou de qualquer outra ideia que defendamos. A conversão autêntica leva-nos à comunhão com Deus, a ponto de podermos chegar a um conhecimento transformador de tudo o que somos - a metáfora do coração -, a ponto de nos comovermos com a sua misericórdia – a metáfora das entranhas. Não raro empenhamo-nos seriamente na mudança de comportamentos, de atitudes externas, no desejo de nos adequarmos às normas, aos métodos de trabalho, às estruturas organizativas... e empenhamo-nos menos seriamente na mudança do coração e das entranhas. Podemos tornar-nos perfeccionistas, impecáveis na ação, cumpridores exemplares de todas as obrigações, e, porventura, sem um coração capaz de conhecer a verdadeira identidade de Deus ou sem umas entranhas capazes de se comoverem com o seu amor, indelevelmente inscrito na nossa alma.   A dramática cena do Evangelho que escutámos, segundo a qual o soldado,  vendo Jesus já morto, lhe trespassou o lado com uma lança e logo saiu sangue e água, revela-nos como é sublime o amor misericordioso de Deus, que dá tudo o que é e o que tem de mais precioso, o seu corpo e o que o constitui, o sangue e a água. Segundo a tradição da Igreja, do lado aberto de Jesus nasce a Igreja, que continua a conduzir a humanidade às fontes da salvação, a Jesus Cristo, o salvador do mundo. Esta cena oferece-nos, por isso, a outra dimensão da conversão do coração e das entranhas, a conversão à Igreja, enquanto Corpo vivo de Cristo, que nos oferece constantemente a torrente que nos vivifica e nos conduz ao mistério da comunhão com Ele. Neste sentido, conversão à Igreja é muito mais do que uma questão funcional, não tem simplesmente como objetivo o bom funcionamento de uma instituição; não é uma estratégia adequada para obter sucesso pessoal ou comunitário. A conversão à Igreja é adesão a um mistério de comunhão de Deus connosco, de comunhão de todos nós com Deus e de comunhão entre nós, o seu povo amado. Caríssimos irmãos, a conversão à Igreja há de levar-nos à identificação com ela enquanto Corpo de Cristo, a sentir com ela, a amar com ela, a estremecer de amor e de misericórdia com ela por todos e cada um dos seus filhos, a dar a vida por ela, à imagem de Jesus, de cujo lado trespassado por uma lança, saiu sangue e água.   Serão muitas as consequências que havemos de retirar para a nossa caminhada de cristãos e de ministros ordenados: ao nível do que somos, do que fazemos e das motivações que nos animam. Como proposta, sugiro apenas algumas linhas de inspiração para nossa meditação, que poderemos aceitar com humildade, tendo em conta o desejo ardente que nos foi dado, em ordem a progredirmos espiritualmente, pastoralmente e eclesialmente. Que oração fazemos e como a fazemos quando nos recolhemos na meditação e contemplação da Palavra de Deus? Como celebramos a liturgia e que convicções temos sempre que nos aproximamos da assembleia reunida para a Eucaristia ou para os outros sacramentos? Que motivações temos diante da missão de evangelizar ou quando propomos a catequese às crianças, aos jovens ou aos adultos? O que entendemos por comunidade cristã, quando programamos ações orientadas para a sua edificação e crescimento? O que queremos dizer quando falamos de unidade na fé, na esperança e no amor, ou quando nos referimos à comunhão como distintivo fundamental da nossa condição de membros de Cristo? Que presbitério estamos dispostos a edificar e que tipo de laços estamos a construir na relação uns com os outros e com os demais membros do Povo de Deus? Como entendemos os desafios presentes no Plano Pastoral Diocesano, que nos orienta para o dinamismo da sinodalidade, para a promoção da corresponsabilidade de todos, para a unidade e comunhão na fé e na ação pastoral? Que lugar e que sentido damos aos objetivos delineados no Plano Pastoral: a espiritualidade, a evangelização, a organização?   Caríssimos irmãos! Embora datada, a expressão Sagrado Coração de Jesus ajuda-nos a intuir um programa para o futuro dos cristãos e da Igreja, um programa de vida para cada um de nós leigos, consagrados ou ministros ordenados: bispo, presbíteros e diáconos. Deixo, como conclusão, duas expressões de outros tantos teólogos Conciliares, Rahner e Ratzinger, que nos apontam para caminhos proféticos a percorrer, respetivamente:“o cristão do futuro ou será místico ou não será cristão”; e ainda: a Igreja do futuro “será uma Igreja mais espiritual”. Que a contemplação do Sagrado Coração de Jesus nos ajude a progredir neste caminho de conversão à fé em Cristo, pois nela, como ouvimos na Carta aos Efésios, “podemos aproximar-nos de Deus com toda a confiança”. Coimbra, 08 de junho de 2018Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra
Gravação audio da Homilia do Senhor D. Virgílio Antunes, Bispo de Coimbra, na celebração de Benção das Pastas dos Finalistas da Universidade de Coimbra, na Igreja da Sé Nova - Catedral de Coimbra. 3 de Junho de 2018