AS LÁGRIMAS DO PAPA
8 de dezembro de 2022… Como era habitual nesse dia dedicado à Imaculada Conceição, o Papa Francisco deslocou-se à Praça de Espanha para, diante da Imagem de Maria Imaculada, saudar Nossa Senhora e pedir pelo Povo Romano. Aguardava-o uma pequena multidão. Muitos estavam desde as 5 horas, pois durante a pandemia o Papa não deixou de cumprir a tradição, fazendo-o ao amanhecer. Depois da oferta do ramo de flores, inicia a oração. Não esquece, na sua oração, a Ucrânia: Virgem Imaculada, hoje eu gostaria de trazer-te as súplicas das crianças, dos idosos, dos pais e mães, dos jovens daquela terra martirizada”… Com a voz embargada pelos soluços, o Papa, em silêncio, imóvel, curvado e apoiando os braços na cadeira, não sustem as lágrimas... Quando pôde, continuou: “Em vez disso, mais uma vez devo trazer-vos as súplicas das crianças, dos idosos, dos pais e mães, dos jovens daquela terra martirizada, que tanto sofre”.
A sua estatura de profeta da não violência ganha uma dimensão única. Ele não está nos tabuleiros dos jogos de poder. Ele é o homem da compaixão que olha as chagas de um povo e sofre com ele.
À pergunta de um jornalista responde com simplicidade:
"Sim. Ela (a guerra na Ucrânia) é um sofrimento enorme, enorme. Uma derrota para a humanidade".
Francisco, o Papa que mais refere a alegria no seu magistério, não esconde o poder da compaixão, das lágrimas, do sofrer com os outros os seus dramas …
Na sua exortação aos jovens o Papa perguntava: “Aprendi eu a chorar, quando vejo uma criança faminta, uma criança drogada pela estrada, uma criança sem casa, uma criança abandonada, uma criança abusada, uma criança usada como escravo pela sociedade?” exortação apostólica Christus Vivit (n. 76).
A sua primeira viagem é a Lampedusa e deixa, no Mediterrâneo, vala comum de milhares de emigrantes, uma coroa de flores.
As suas declarações sobre a «3ª guerra mundial em pedaços» marcam um tom novo nos pronunciamentos da Igrejas sobre a guerra, sobre o comércio das armas e sobre as prepotências dos mais fortes sobre os mais fracos.
Esta preocupação pela paz é continuada com notável insistência pelo Papa Leão XIV. Desde logo, na sua saudação inicial: «A paz esteja convosco. A paz de Cristo ressuscitado, desarmada e desarmante, humilde e perseverante». Neste pequeno tempo do seu ministério vemos como a preocupação pela paz é recorrente nas suas intervenções. Uma paz que não é só ausência de guerra. A paz identifica-se com a justiça social, com cuidados dos pobres e da natureza. Uma paz que não esquece as vítimas da prepotência e dos grandes. Uma paz que não é conseguida pela força das armas como dizia Netanyahu: «O Presidente Trump e eu costumamos dizer: «Paz pela força. Primeiro vem a força, depois vem a paz.»
Para Leão XIV a paz identifica-se com a missão da Igreja. E por isso convoca a Igreja para, em tempo de Jubileu, realizar uma profunda renovação e assumir o desafio da paz no seu interior para a poder testemunhar no exterior.
A sua primeira viagem fica marcada pelos constantes convites à paz e reconciliação entre os povos, entre as igrejas e as diferentes experiências religiosas. As suas palavras na despedida do Líbano podem olhar-se com uma grande síntese dos seus pronunciamentos:
“A todos, o meu abraço e os meus votos de paz. E ainda um sentido apelo: cessem os ataques e as hostilidades. Ninguém acredite mais que a luta armada traz algum benefício. As armas matam; a negociação, a mediação e o diálogo edificam. Escolhamos todos a paz como caminho, não apenas como meta!”
PS
O Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI) acaba de publicar o valor global do armamento vendido, em 2024, pelas cem maiores empresas de venda de armas: 679 biliões de dólares. Uma verba equivalente a 1.508.888.888.888 refeições usadas nos programas de ajuda a povos carenciados.
Idalino Simões






