Rumo a uma paz desarmada e desarmante

Rumo a uma paz desarmada e desarmante

A Mensagem do Papa Leão XIV para o Dia Mundial da Paz 2026, ocorrida no passado dia um, oferece uma leitura exigente do nosso tempo. Num mundo marcado por conflitos prolongados, medo difuso e uma crescente normalização da violência, o Papa propõe um caminho que contraria a lógica dominante: “A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”. Não como slogan, mas como proposta profundamente humana.

Esta paz, recorda o Santo Padre, não é uma ideia abstrata nem a simples ausência de guerra. É uma presença viva que deseja iluminar a inteligência e resistir à violência sem a reproduzir. Uma paz que começa no coração e se exprime no modo como vivemos as relações familiares, sociais e profissionais.

Leio esta Mensagem a partir de um duplo compromisso: como católico e empresário e a partir da experiência concreta da responsabilidade e da liderança no mundo do trabalho. Esta perspetiva ajuda-me a reconhecer que a paz não se constrói apenas nos grandes palcos internacionais. Começa, muitas vezes, em contextos próximos e quotidianos — também na vida económica e empresarial da nossa cidade e da nossa região.

Um dos alertas mais fortes do Papa diz respeito à normalização da agressividade. Quando a paz não é cultivada, guardada e experimentada, abre-se espaço a uma violência difusa que se infiltra nas relações familiares, sociais e institucionais. Leão XIV denuncia com clareza a lógica da corrida aos armamentos e da dissuasão baseada no medo. Os dados são impactantes: em 2024, as despesas militares mundiais atingiram valores recorde, 2,72 mil milhões de dólares, cerca de 2,5% do PIB global, desviando recursos que poderiam ser aplicados na justiça social, no cuidado da casa comum e na promoção da dignidade humana.

Esta crítica vai mais além. O Papa identifica uma cultura mais profunda, que legitima a força como garantia de segurança e o domínio como forma de estabilidade. Contra esta lógica, propõe o desarmamento interior — pessoal e coletivo. Uma paz desarmada, porque não se apoia na imposição; desarmante, porque tem a capacidade de transformar sem vencer.

Neste horizonte, a figura de São Francisco de Assis surge como referência inspiradora. Num tempo igualmente marcado por conflitos e muros, Francisco escolheu libertar-se do desejo de posse e de poder, vivendo em harmonia com todos. Esta inspiração franciscana atravessa toda a Mensagem e lembra-nos que a paz verdadeira começa quando se renuncia à tentação de controlar e se opta pela escuta, pela confiança e pela reconciliação.

O Papa sublinha ainda o papel decisivo das comunidades. A paz constrói-se em relações humanas autênticas, em “casas de paz”, onde se pratica a hospitalidade do diálogo, se faz justiça e se cultiva o perdão. Não basta denunciar a violência; é necessário educar para a paz, despertar consciências e formar pessoas capazes de pensamento crítico e compromisso cívico.

Esta proposta interpela diretamente a vida social e profissional. Também nas organizações e empresas somos chamados a romper com lógicas agressivas, excessivamente competitivas ou desumanizadas. Promover trabalho digno, respeitar os ritmos da vida familiar e cuidar das pessoas não é sinal de fragilidade, mas expressão de uma liderança desarmada. A recente certificação conquistada pela empresa que lidero, promovida pela Acege, a certificação EFR, ou seja, Empresa Familiarmente Responsável é, nesse sentido, um pequeno sinal de que este caminho é possível quando se escolhe colocar as pessoas e as famílias no centro das decisões.

No fundo, a Mensagem do Papa Leão XIV recorda-nos algo essencial: a paz começa no coração e irradia para todas as dimensões da vida. Quando as nossas decisões — pessoais, sociais ou profissionais — se deixam orientar por este critério simples e exigente, tão antigo quanto atual — tratar o outro como gostaríamos de ser tratados — a paz deixa de ser um ideal distante. Torna-se uma presença ativa, capaz de nos habitar e, a partir de nós, transformar a cidade, a sociedade e o mundo.

Paulo Barradas Rebelo
Membro da Comissão Diocesana Justiça e Paz
Coordenador do Núcleo da ACEGE Coimbra

Coimbra, 1 de janeiro de 2026

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