Trabalhos Velhos

TRABALHOS VELHOS

A condição humana do trabalho foi a questão fundadora e é horizonte permanente da Doutrina Social da Igreja. Desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, a denúncia do “imperialismo internacional do dinheiro” e o levantamento dos danos humanos de um sistema social, económico e político em que as finanças dominam a vida são mote contínuo das encíclicas sociais.

Nada que deva espantar: Jesus (Mateus 11:28) expressamente convoca todos os que estão exaustos e são oprimidos por aqueles que, não tocando com um dedo sequer qualquer carga, os carregam com fardos insuportáveis
Em Lucas 11:46 os destinatários das duras palavras são os fazedores das Leis que sufocam a vida dos outros. Os que mandam. Os que dominam. Os que exploram. Os que oprimem. Os que têm o poder de tornar a breve vida humana num inferno em vida.

Encontramos, em 100 anos de encíclicas e cartas sociais, duas linhas de prumo. A recusa da transformação social pela violência política, própria do marxismo-leninismo. E, do mesmo modo, a firme oposição a modelos de liberalismo económico que degradam a pessoa em puro animal laborans submetido às regras da visível mão do capital.

O Personalismo (1949) de Emmanuel Mounier encontra na Doutrina Social da Igreja amplo fermento. A crítica personalista sublinha que o Estado Liberal, pelo excesso e absolutização da vida de trabalho, lança a condição concreta das massas urbanas na escravidão social, económica, política e, sobretudo, existencial.

Para Mounier, como para Hannah Arendt ou Simone Weil, os direitos concedidos pelo Estado Liberal são, para a maior parte dos cidadãos, fórmulas vazias de conteúdo, porque desgarrados da sua realidade económica e social.

Daí que, para o personalismo de Mounier, a revolta em tempo de domesticação, a resistência à opressão e a recusa face ao aviltamento sejam privilégios inalienáveis da pessoa, sua defesa derradeira “quando o mundo se levanta contra o seu reino”.

Pois a desordem do mundo é “demasiado profunda e demasiado obstinada para ser eliminada sem uma mudança de velocidade, uma reorganização de estruturas, uma profunda revisão de valores, uma renovação das elites”.

Manuel Castelo Branco
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