O relógio e a bússola

O relógio e a bússola

 

O celebrado tempo das catedrais foi um tempo difícil. De incerteza. De dominação. De devastação. De peste. De servidão.

E, no entanto, com lenta minúcia e paciência infinita, os homens, pedra sobre pedra, devagar, com todo o tempo do mundo, foram levantando templos a um Deus fora do tempo, e, assim, construindo edifícios que nunca habitariam nem visitariam, tornaram-se, eles mesmos, mineral substância do tempo.

A vida acontece no tempo. E exige tempo. Para a demorada construção das catedrais interiores. E para o inacabado levantar das moradas no mundo.

Peter Handke, em Poema à Duração, e Byung-Chul Han, em O Aroma do Tempo, apontam a demora como raiz e seiva de uma vida com sentido.

Demorar o olhar no rosto do ser amado. Demorar os sentidos nas coisas. Demorar a fala na escuta de quem nos fala. Morar no silêncio comunicante. Habitar a lentidão.

Os construtores de catedrais não conheciam os relógios de ponto. Não viviam no tempo dos ponteiros do relógio.

Também os peregrinos caminham num tempo sem mostradores de relógio. Mas com bússola.

É preciso trocar o mostrador do relógio pelo mostrador da bússola. E seguir apenas o ponteiro da bússola.

Para Emaús. Em companhia.

Manuel Castelo Branco
Comissão Diocesana Justiça e Paz

 

 

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