O ovo da serpente
Manuel Castelo Branco
Comissão Diocesana Justiça e Paz
Bergman, em O ovo da serpente, e Visconti, em Os malditos, retratam, de modo quase simétrico, o clima económico, social, político e cultural de germinação do nacional socialismo.
Não são, do ponto de vista estético, as obras mais conseguidas dos dois realizadores. Mas são, ao lado de Saló, de Pasolini, as análises mais geladas e inquietantes do niilismo ético que conduziu a Europa para o apocalipse e para o Holocausto.
Hannah Arendt, nos inícios de 60, para espanto e condenação quase universais, bem preveniu serem os ninhos de víboras uma constante regular da condição e das sociedades humanas. A Shoah, expressão com raíz bíblica no “shoah u-meshoah” (devastação e desolação) do Livro de Sofonias (1:15) e do Livro de Jó (30:3), é, desde tempos imemoriais, uma regularidade do mundo.
A segunda metade do século XX, com a instituição da ONU, o desenhar de um direito internacional humanista e humanitário, a apologia universal da democracia representativa, a constitucionalização dos direitos humanos e a construção do Estado Social, pareceu, por um breve instante, ter significado, de facto, a aparição de um homem novo, portador das virtudes éticas e cívicas exigidas pelas filosofias de dois sobreviventes dos campos, Paul Ricoeur e Emmanuel Lévinas.
Um instante breve e ficcional. Como varrer para debaixo do tapete Hiroshima, o Gulag, a guerra do Vietnam, Pinochet, os campos da morte do Camboja, o genocídio no Ruanda, Sarajevo, o Massacre de Srebrenica, a destruição de Allepo?
Como ignorar, agora, a Ucrânia e Gaza, locais de sofrimento e de mal impostos de maneira deliberada, por uma razão política desligada de toda a vertigem ética?
O maior pecado dos iluminismos prometeicos foi o de querer matar Deus. Pois matar Deus significa eliminar as barreiras éticas à barbárie tecno-racional. E onde não há limites éticos há autorização para dominar, explorar, escravizar e, no limite, eliminar os despojados daquele Rosto que, segundo Lévinas, é o rosto de Deus.
É tempo, uma outra vez, de recordar que o anúncio nietzschiano da morte de Deus leva, sempre, à morte do Homem.






