Milagre ou Algoritmo?
Isabel Maia
Comissão Diocesana Justiça e Paz de Coimbra
Coimbra e a sua História entrelaçam-se com símbolos e figuras que transcendem o tempo.
A Rainha Santa Isabel, canonizada em 1625 por Urbano VIII, “um espelho de misericórdia e justiça e paz”. Governou com empatia, humildade e proximidade, a contrastar com a lógica atual assente na decisão algorítmica, de probabilidades e regras.
Hoje, assistimos à ascensão de um novo “milagre”, o da Inteligência Artificial (IA), que reconhece rostos, decide quem merece apoio, tratamento ou liberdade.
Numa era com novas formas de poder – silenciosas, invisíveis, com aparente neutralidade técnica –, recordamos Rainha Santa Isabel. Sobretudo, quando abrimos as redes sociais e assistimos ao crescente discurso de ódio, ou entramos nas plataformas que moldam comportamentos e nos apercebemos dos algoritmos que decidem. Vivemos num ecossistema digital onde a automação e a velocidade desafiam o discernimento humano.
O gesto que a lenda eterniza — esconder pão no regaço para os pobres, e transformar o pão milagrosamente em rosas — é o arquétipo da exceção ética, da quebra da regra para cumprir o Bem. Será que os algoritmos permitem exceções e misericórdia?
O milagre das rosas não é apenas um episódio da hagiografia medieval, nem se esboça apenas num plano da devoção. É um símbolo da insubmissão ética, uma metáfora profunda da transformação da dor em beleza, da perseguição em clemência, da rigidez do poder em ternura humana com compaixão. O espírito e a mensagem da Rainha transmite a importância de ajudar o próximo, mesmo que isso acarrete perigo ou impopularidade, o que pode chocar o pragmatismo dos algoritmos dos sistemas de scoring social, que decidem quem tem direito e a quê. A IA não tem rosto, nem culpa, mas decide por nós. A IA não se move por intercessões celestes, mas antes por modelos que preveem comportamentos, determinam a distribuição de recursos e tendem a orientar consciências.
Estaremos a trocar o milagre pela métrica, a compaixão pela eficiência, a rosa pela precisão?
A questão não é tecnológica, mas antropológica. O problema é o abandono da responsabilidade do homem, por ser mais fácil culpar o sistema do que assumir a ética e a moral da escolha. A IA é uma ferramenta extraordinária e que deve complementar as nossas ações, mas é necessário interrogarmos: que humanidade a alimenta? Que humanidade ela serve? Que valores assistem os seus programadores?
Na tradição cristã e humanista vive-se a caridade, mas mais do que a distribuição de bens, importa um olhar, um gesto, uma presença que afirma a dignidade de quem sofre. Poderá um algoritmo, por mais avançado que seja, captar esse olhar, esse gesto? Pode uma rede neuronal perceber a exceção, o perdão, a desobediência justa?
O legado da Rainha Santa é particularmente atual, ao desafiar a lógica do poder com a lógica da misericórdia, pois ensinou-nos que há justiça que precisa de ser adoçada pela graça, que há leis que precisam ser desobedecidas em nome de valores mais altos.
Neste novo “milagre” defenderemos uma inteligência ética, espiritual, do Bem e da Casa Comum, que não se consegue delegar em nenhuma máquina., pois “não há justiça sem voz humana” (Amartya Sem). E é essa voz que precisamos de preservar: na família, nas escolas, nas empresas, nos governos e… nos algoritmos.
Aceitemos o desafio de não rejeitar a IA, mas (re)encantá-la. Inserir no seu âmago os valores que herdámos das figuras que moldaram a nossa história e espiritualidade. Para que esses sistemas sejam justos e compassivos, que as tecnologias avancem sem deixarem para trás os mais frágeis. Que as rosas de Isabel não sejam substituídas por modelos com precisão, mas que floresçam códigos que respeitam a dignidade humana e a PAZ.
A IA tem um potencial imenso para servir a Casa Comum: distribuir recursos com equidade, antecipar riscos ambientais, ou apoiar decisões médicas complexas, sempre com humanidade.
Mais do que um milagre das rosas, talvez precisemos de um milagre das memórias. A memória de que o poder só é legítimo se servir o próximo.
A nova geração corre o risco de interiorizar a lógica de cálculo e privilegiar o desempenho sobre o cuidado, o sucesso sobre o sentido, o útil sobre o justo. A memória da Rainha Santa ergue-se para lembrar realidades que não se podem quantificar, e decisões que só podem ser tomadas com o coração humano desperto.
Assino, nesta circunstância, Isabel com orgulho, responsabilidade, devoção familiar, mas por convicção de que o espírito da Rainha Santa tem lugar no Séc. XXI. Cresci entre as rosas e a fé que cuida mais dos pobres do que do protocolo e reconheço o seu legado num perfume com o nome Coimbra.






