Discursos do ódio
Idalino Simões
Não podemos deixar de sentir uma perturbação profunda diante dos discursos do ódio que testemunhamos. Estes discursos podem rapidamente transformar-se, deixando de ser discursos para ser explosão de violência, como está a acontecer em Torre Pacheco, uma pacata povoação da Zona de Múrcia
Para trás, para muito longe, fica o sonho de Luther King em 28 de agosto de 1963: «quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada lugar, de cada estado e cada cidade, seremos capazes de fazer chegar mais rápido o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção espiritual negra: Finalmente livres! Finalmente livres!».
E a liberdade continua a ser sonho. Sonho para milhões de irmãos. O ódio contra o diferente grita a distância que separa o sonho da realidade. Esquecemos a diversidade de culturas que nos construíram e constituíram para exaltar a grandeza da «raça» que pensamos ser, da religião que construímos, deixando para trás a sua matriz evangélica e transformadora. Por isso, como crente, me escandaliza a Bíblia como bandeira e a religião como espada. O discurso e as legislações de ódio contra outras culturas negam a profissão de fé em qualquer experiência religiosa, dum modo especial das religiões abraâmicas.
O Papa Francisco lembrava: «Por que sentimos dor? Porque aqueles que constroem os muros acabarão presos pelos muros que construíram. Mas aqueles que constroem pontes vão muito avante. Para mim, construir pontes é algo que vai quase além do humano, exige muito esforço» (Diálogo com os jornalistas no regresso da viagem a Marrocos, 31 de março 2019). O Papa Leão XIV segue com tenacidade esse mesmo desejo e a expressão fazer pontes é uma presença recorrente nos seus discursos.
Referindo-se ao espantoso filme de Bergman «o ovo da serpente», o Prof Dr. Castor Bartolomé Ruiz lembra que, em 1920, pensava-se que era possível controlar a serpente que se adivinhava já nas finas membranas do seu ovo. Surpreendentemente, diz: «em pleno século XXI, uma nova ninhada de serpentes, sob vestes autoritárias, está prestes a eclodir dentro das democracias ocidentais» e acrescenta: «os atuais movimentos autoritários produzem o medo sistematicamente e disseminam-no com o apoio do algoritmo das redes sociais. Compreendem a política como desdobramento da Guerra, valendo-se do binómio amigo-inimigo para fabricar culpados pelas mazelas de cada uma das Sociedades» (IHU, 10 de abril de 2025).
Dramaticamente, experimentamos a nossa incapacidade diante da montanha inultrapassável do poder e da manipulação. Mas, como dizia um ativista pela paz, quando o fogo alastra, sentimo-nos impotentes pois nem um balde temos. Mas, cada um de nós tem a sua colher e milhões de colheres poderiam suster o fogo. A palavra é a colher que nos resta. Que as nossas vozes se unam num protesto permanente contra o ódio e a discriminação. Que os que se dizem crentes procurem uma lógica de fidelidade à palavra que convida à fraternidade e à paz: «Se alguém afirmar: "Eu amo a Deus", mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê» (1 Jo 20).






