A Banalidade do Mal

A Banalidade do Mal 

Em 9 de Setembro de 2024 foi noticia um ataque russo na cidade ucraniana de Lviv que matou,  naquela quarta-feira, uma mulher e as suas três filhas, dentro da própria casa. O pai foi o único sobrevivente da família.

Em 26 de Maio de 2025 comunicavam as agências noticiosas que a pediatra palestiniana Alaa Al-Najjar estava a trabalhar no Hospital Nasser em Gaza quando os corpos desfeitos de nove de seus filhos chegaram ao hospital, vítimas de um ataque israelita.

São duas noticias lancinantes entre tantas que entram e saem da nosso pensamento com a velocidade de um relâmpago, quase como se fossem uma realidade virtual.  Pouco a pouco tornamo-nos insensíveis perante a dor e o sofrimento daqueles que vivem noutras latitudes e longitudes e o mal transforma-se em algo de banal e inevitável.

Em 1963, a filósofa alemã Hannah Arendt publicou o livro Eichmann em Jerusalém – Um Relato sobre a Banalidade do Mal. Na mesma obra aquela autora redefiniu a compreensão sobre os mecanismos do mal em contextos de guerra e opressão. Observando o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis nazis pela logística do Holocausto, Arendt não viu um monstro, mas apenas um mero burocrata comum, alguém que se limitava a "cumprir ordens". O mal que ele praticava, enviando milhões para as câmaras de gás não, era um algo de diabólico, mas um mal impessoal que fazia parte da rotina como instrumento de trabalho 

A ideia de que o mal pode ser cometido por pessoas ordinárias, que não questionam as estruturas de poder e agem com indiferença moral, ressoa profundamente diante das atrocidades contemporâneas, nomeadamente na Ucrânia e em Gaza. 

Efectivamente, o conflito na Ucrânia demonstrou como decisões políticas insanas podem mergulhar milhões na violência. Nos civis mortos, nas cidades destruídas, nos milhões de refugiados encontramos  actos de soldados que executam ordens sob  tutela de políticos que tudo justificam em nome da falsas ideias de nacionalismo e segurança. A indiferença cresce, tanto entre os executores, como nos observadores distantes, anestesiados pela repetição de imagens de horror. 

Por seu turno na Faixa de Gaza, o ciclo de violência entre Israel e o Hamas alcançou níveis de brutalidade impensáveis. Desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a ofensiva militar israelense subsequente, civis palestinos enfrentam uma catástrofe humanitária: bairros arrasados, milhares de mortos, hospitais destruídos e a utilização da fome como arma. As justificações de autodefesa e "ataques cirúrgicos" escondem o sofrimento indiscriminado. A linguagem oficial, oscilando entre os argumentos dos radicais ortodoxos e a necessidade de manter o poder pelo primeiro ministro, servem para esconder a realidade e legitimar o inaceitável. O mal não aparece necessariamente como resultado de  uma crueldade latente, mas como a consequência inexorável de um sistema que normaliza a violência, transformando vidas humanas em estatísticas ou meros danos colaterais. 

Nos dias de hoje a banalidade do mal emerge quando a violência se automatiza, despersonalizada, e se torna rotina. Como referia Arendt “o perigo maior não é o fanático, mas o obediente; não o tirano, mas o funcionário que age como mero instrumento, sem refletir”.

É neste contexto que o conceito da banalidade do mal deve hoje ser equacionado. Não se trata apenas do comportamento daqueles que decidem, sejam soldados ou políticos, mas está, também, na passividade dos que assistem. No silêncio cúmplice de sociedades que se acostumaram à guerra como um mero espetáculo mediático que se vê à hora do noticiário e logo é substituído por noticias mais agradáveis das  redes sociais. A banalidade do mal atinge-nos a todos, ganhando novos meios: o descanso, o esquecimento, a indiferença.

 Importa romper com a normalização do inaceitável e assumir a única resposta ética possível que é o comprometimento crítico, a solidariedade com as vítimas e a recusa em aceitar que a violência se torne regra.

A banalidade do mal triunfa quando nos acostumamos com o inaceitável. Quando os olhos se desviam, quando os corações se endurecem, quando o silêncio se impõe. Por isso, escrever, denunciar e lembrar é uma forma de resistência. E, sobretudo, uma forma de esperança.

  

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