A Esperança que arde!
José Santos Cabral
Todos os anos, como que num ciclo infernal, os incêndios florestais assolam o nosso País As chamas consomem árvores, casas, memórias e vidas, deixando um rasto de destruição e um silêncio que grita. Em 2017, Pedrógão Grande foi apenas o rosto mais cruel de uma tragédia anunciada. Desde então, continuamos a assistir a repetições quase ritualizadas do mesmo drama: populações isoladas, bombeiros exaustos, florestas desordenadas, políticas de prevenção ineficazes.
No presente ano, e até ao dia 17 de Agosto, arderam 185.000 hectares de floresta, ou seja, dezassete veze a área que ardeu no período homólogo do ano transacto. Entre 2000 e 2023, foram registados 3,2 milhões de hectares de área ardida em Portugal, área muito superior, em números absolutos, aos 2,7 milhões em Espanha, 1,85 milhões em Itália e 1 milhão na Grécia A área total do nosso país é 8.870.500 hectares pelo que, em vinte e três anos, ardeu cerca de 36% da mesma.
É agora evidente que nesta situação dramática converge algo de novo pois que, com as mudanças climáticas, um parâmetro antropogênico foi adicionado. As alterações climáticas, nascidas da actividade humana, propiciam o aparecimento de mega incêndios que além de incontroláveis têm consequências telúricas na qualidade de vida humana. Segundo um estudo publicado na revista Science conclui-se que as emissões de dióxido de carbono (CO2) dos incêndios florestais aumentaram 60% em todo o mundo desde 2001.
Porém, os dias de catástrofe que vivemos mostram uma outra realidade, bem mais profunda, pois que os incêndios não são apenas fenómenos naturais. São sintomas de um Estado que desertificou o interior, que abandonou o mundo rural, e permitiu que a floresta se tornasse uma bomba-relógio. Os dias que vivemos revelam a incapacidade crónica de proteger aqueles que vivem fora dos grandes centros, fora da agenda mediática, fora do radar do poder.
Para quem vive nas zonas rurais, o sentimento de abandono e desesperança traduz-se na solidão. Significa a distância a tudo o que deveria ser básico: médicos, correios, transportes, acesso digital. Significa o olhar cansado de quem viu a sua aldeia, outrora plena de vida ficar exangue. Olhamos e deparamo-nos com o velho café fechado por falta de clientes, para a escola primária transformada em ruínas pela ausência de crianças, para a estrada esburacada, que poucos percorrem, e já ninguém repara.
Muitas das populações do interior não se sentem apenas isoladas mas, também, abandonadas, quando não desprezadas. Os seus direitos e interesses legítimos foram muitas vezes esquecidos nos corredores do poder. Em grande parte do interior deste país o sentimento de abandono é profundo e transversal como se existisse um Portugal menor e a prazo, condenado a desaparecer.
Na verdade, o nosso País parece, cada vez mais, dividido em dois. Um país visível, relativamente moderno, urbanizado, em contacto com o mundo.Um país invisível, periférico, silencioso e esquecido, ausente dos roteiros turísticos e nos programas de governo.
Esta divisão traduz uma separação que não é meramente geográfica, mas reflecte uma realidade estrutural. As políticas públicas têm na sua génese uma visão do País que não reflete, muitas vezes, a diversidade e as necessidades reais do território. Em consequência entramos num ciclo negativo: o interior perde serviços, perde população, perde investimento e, com isso, perde futuro.
Este será um dos grandes desafios num país que tem, há muito, um problema estrutural com o atraso. Atraso na modernização da administração pública. Atraso na justiça. Atraso na transição energética. Atraso na valorização do trabalho. Atraso no combate à corrupção. Atraso na reforma do Estado.
Porém, mais do que um atraso técnico, o país vive um atraso político e moral. Uma incapacidade patente ao longo de décadas por parte do poder político em tomar decisões corajosas, de planear a longo prazo, de romper com os interesses instalados. A confiança dos cidadãos é minada quando os problemas se eternizam e as soluções são adiadas, ficando a resignação.
Perder a esperança é um processo silencioso: começa com o desinteresse, cresce com a apatia e se sedimenta na descrença. Vemos isso nos níveis crescentes de abstenção eleitoral e no êxodo dos mais qualificados.
A mesma esperança é, talvez, o recurso mais valioso de uma sociedade.Nenhum país pode progredir verdadeiramente se os seus cidadãos deixarem de acreditar que o Amanhã pode ser melhor do que o hoje.






