- Hoje é
 
 
Home | Quem somos | actividades | Contactos  
Destaques
Recursos  | Documentos | Visitas | Links | Busca
 
 
Deus é Amor!          Aquele que ama conhece a Deus!               Aquele que ama permanece em Deus!          
 :: O dom da Vida
 :: Namoro
 :: Preparar o casamento: CPM
 :: Celebrar o matrimónio
 :: Crescer em família
 :: Rezar em família
 :: Catequese em família
 :: A educação dos filhos
 :: Aconselhamento Familiar
 :: Planeamento familiar natural
 :: Como posso ajudar?
 :: Movimentos Pastoral Familiar
 :: Boletins Informativos
 
DISCURSO
 
Família e comunidade cristã: formação da pessoa e transmissão da fé

Bento XVI
Roma - 6/6/2005


O fundamento antropológico da família
 

Matrimónio e família não são uma construção sociológica casual, fruto de situações particulares históricas e económicas. Pelo contrário, a questão da justa relação entre o homem e a mulher lança as suas raízes na essência mais profunda do ser humano e só pode encontrar resposta a partir desta. Não pode separar-se da pergunta sempre antiga e sempre nova do homem sobre si mesmo: quem sou? E esta pergunta, por sua vez, não pode separar-se do interrogante sobre Deus: existe Deus? E, quem é Deus? Como é verdadeiramente o Seu rosto? A resposta da Bíblia a estas duas perguntas é unitária e consequencial: o homem é criado à imagem de Deus, e Deus mesmo é amor. Por este motivo, a vocação ao amor é o que faz do homem autêntica imagem de Deus: faz-se semelhante a Deus na medida em que se converte em alguém que ama.

Deste laço fundamental entre Deus e o homem deriva outro: o laço indissolúvel entre espírito e corpo. O homem é, de facto, alma que se expressa no corpo e corpo que é vivificado por um espírito imortal. Também o corpo do homem e da mulher tem, portanto, por assim dizer, um carácter teológico, não é simplesmente corpo, o que é biológico no homem não é só biológico mas expressão e cumprimento de nossa humanidade. Do mesmo modo, a sexualidade humana não está ao lado de nosso ser pessoa, mas lhe pertence. Só quando a sexualidade se integra na pessoa se consegue dar um sentido a si mesma.

Deste modo, dos dois laços, o do homem com Deus e - no homem - o do corpo com o espírito, surge um terceiro laço: o que se dá entre pessoa e instituição. A totalidade do homem inclui a dimensão do tempo, e o «sim» do homem é um ir mais além do momento presente: na sua totalidade, o «sim» significa «sempre», constitui o espaço de fidelidade. Só no seu interior pode crescer essa fé que dá um futuro e permite que os filhos, fruto do amor, creiam no homem e no seu futuro em tempo difíceis. A liberdade do «sim» se apresenta portanto como liberdade capaz de assumir o que é definitivo: a expressão mais elevada da liberdade não é então a busca do prazer, sem chegar nunca a uma autêntica decisão. Aparentemente, esta abertura permanente parece ser a realização da liberdade, mas não é verdade: a verdadeira expressão da liberdade é, pelo contrário, a capacidade de decidir-se por um dom definitivo, no qual a liberdade, entregando-se, volta a encontrar-se plenamente a si mesma.

Em concreto, o «sim» pessoal e recíproco do homem e da mulher abre o espaço para o futuro, para a autêntica humanidade de cada um, e ao mesmo tempo está destinado ao dom de uma nova vida. Por este motivo, este «sim» pessoal tem de ser necessariamente um «sim» que é também publicamente responsável, com o qual os cônjuges assumem a responsabilidade pública da fidelidade, que garante também o futuro para a comunidade. Nenhum de nós pertence exclusivamente a si mesmo: portanto, cada um está chamado a assumir no mais íntimo de si a sua própria responsabilidade pública. O matrimónio, como instituição, não é portanto uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, uma imposição desde o exterior na realidade mais privada da vida; é pelo contrário uma exigência intrínseca do pacto de amor conjugal e da profundidade da pessoa humana.

As diferentes formas actuais de dissolução do matrimónio, como as uniões livres e o «casamento à experiência», até o pseudo-casamento entre pessoas do mesmo sexo, são pelo contrário expressões de uma liberdade anárquica que se apresenta erroneamente como autêntica libertação do homem. Uma pseudo-liberdade que se baseia numa banalização do corpo, que inevitavelmente inclui a banalização do homem. O seu pressuposto é que o homem pode fazer de si o que quer: o seu corpo se converte deste modo em algo secundário, manipulável desde o ponto de vista humano, que se pode utilizar como se quer. A libertinagem, que se apresenta como descoberta do corpo e do seu valor, é an realidade um dualismo que torna depreciável o corpo, deixando-o por assim dizer fora do autêntico ser e dignidade da pessoa.

Matrimónio e família na história da salvação
A verdade do matrimónio e da família, que lança as suas raízes na verdade do homem, encontrou aplicação na história da salvação, em cujo centro está a palavra: “Deus ama o Seu povo!”. A revelação bíblica, na verdade, é antes de tudo expressão de uma história de amor, a história da aliança de Deus com os homens: por este motivo, a história do amor e da união de um homem e uma mulher na aliança do matrimónio pôde ser assumida por Deus como símbolo da história da salvação. O facto inefável, no mistério do amor de Deus pelos homens, toma a sua forma linguística do vocabulário do matrimónio e da família no positivo e no negativo. A aproximação de Deus ao Seu povo é apresentada com a linguagem do amor esponsal, enquanto a infidelidade de Israel, a sua idolatria, é designada como adultério e prostituição.

No Novo Testamento, Deus radicaliza o seu amor até tornar-se Ele mesmo, no seu Filho, carne da nossa carne, verdadeiro homem. Neste acontecimento, a união de Deus com o homem assumiu a sua forma suprema, irreversível e definitiva. E deste modo se traça também pelo amor humano a sua forma definitiva, esse “sim” recíproco que não se pode revogar: não aliena o homem, mas o liberta da alienações da história por reportá-lo à verdade da criação. A sacramentalidade que o matrimónio assume em Cristo significa, portanto que o dom da criação foi elevado à graça da redenção. A graça de Cristo não se sobrepõe de fora à natureza do homem, não a violenta, mas a liberta e a restaura, ao elevá-la mais além de suas próprias fronteiras. E como a encarnação do filho de Deus revela o seu verdadeiro significado na cruz, assim o amor humano autêntico é doação de si, não pode existir se evita a cruz.

Queridos irmãos e irmãs, este laço profundo entre Deus e o homem, entre o amor de Deus e o amor humano, é confirmado por algumas tendências e desenvolvimentos negativos, cujo peso experimentamos todos. O envelhecimento do amor humano, a supressão da autêntica capacidade de amar se apresenta no nosso tempo como a arma mais eficaz para que o homem se afaste de Deus e para afastar Deus do olhar e do coração do homem. Agora, a vontade de «libertar» a natureza de Deus leva a perder de vista a realidade mesma da natureza, inclusive da natureza do homem, reduzindo-a a um conjunto de funções, das quais se pode dispor segundo seus próprios gostos para construir um suposto mundo melhor e uma suposta humanidade mais feliz quando, pelo contrário, se destrói o desígnio do Criador e ao mesmo tempo a verdade de nossa natureza.

Os filhos
Também na procriação dos filhos o matrimónio reflecte o seu modelo divino, o amor de Deus pelo homem. No homem e na mulher, a paternidade e a maternidade, como sucede com o corpo e com o amor, não se circunscrevem ao aspecto biológico: a vida só se dá totalmente quando com o nascimento se oferecem também o amor e o sentido que tornam possível dizer sim a esta vida. Precisamente por isto, fica claro até que ponto é contrário ao amor humano, à vocação profunda do homem e da mulher, o fechar sistematicamente a própria união ao dom da vida e, ainda mais, suprimir ou manipular a vida que nasce.

Agora, nenhum homem e nenhuma mulher, por si só e só com suas próprias forças, pode dar adequadamente aos filhos o amor e o sentido da vida. Para poder dizer a alguém: «a tua vida é boa, ainda que não conheça o teu futuro», são necessárias uma autoridade e uma credibilidade superiores, que o indivíduo não pode dar-se por si só. O cristão sabe que esta autoridade é conferida a essa família mais ampla que Deus, através de seu Filho, Jesus Cristo, e do dom do Espírito Santo, criou na história dos homens, ou seja, a Igreja. Reconhece a acção desse amor eterno e indestrutível que assegura à vida de cada um de nós um sentido permanente, ainda que não conheçamos o futuro. Por este motivo, a edificação de cada uma das famílias cristãs se marca no contexto da grande família da Igreja, que a apoia e a acompanha, e garante que há um sentido e que em seu futuro se dará o «sim» do Criador. E reciprocamente a Igreja é edificada pelas famílias, «pequenas Igrejas domésticas», como as chamou o Concílio Vaticano II («Lumen gentium», 11; «Apostollicam actuositatem», 11), redescobrindo uma antiga expressão patrística (São João Crisóstomo, «In Genesim serm.» VI,2; VII,1). Neste sentido, a «Familiaris consortio» afirma que «o matrimónio cristão... constitui o lugar natural dentro do qual se leva a cabo a inserção da pessoa humana na grande família da Igreja» (n. 15).

A família e a Igreja
De tudo isto deriva uma consequência evidente: a família e a Igreja, em concreto as paróquias e as demais formas de comunidade eclesial, estão chamadas à mais íntima colaboração nessa tarefa fundamental que é constituída, inseparavelmente, pela formação da pessoa e a transmissão da fé. Sabemos bem que para que aconteça uma autêntica obra educativa não basta uma teoria justa ou uma doutrina a comunicar. Necessita-se algo muito maior e humano, essa proximidade, vivida diariamente, que é própria do amor e que encontra seu espaço mais propício antes de tudo na comunidade familiar, e depois numa paróquia ou movimento ou associação eclesial, nos que se encontram pessoas que prestam atenção aos irmãos, em particular às crianças e jovens, assim como aos adultos, anciãos, enfermos, às próprias famílias, porque, em Cristo, os amam. O grande patrono dos educadores, São João Bosco, recordava a seus filhos espirituais que «a educação é coisa de coração e que só Deus é seu dono» («Epistolário», 4,209).

A figura do testemunho é central na obra educativa, e especialmente na educação na fé, que é o cume da formação da pessoa e seu horizonte mais adequado: converte-se em ponto de referência precisamente na medida em que sabe dar razão da esperança que fundamenta a sua vida. (Cf. 1 Ped 3, 15), na medida em que está envolvido pessoalmente com a verdade que propõe. O testemunho, por outro lado, não se assinala a si mesmo, mas assinala a algo, ou melhor, a Alguém maior que ele, com o qual se encontrou e de quem experimentou uma bondade confiável. Deste modo, todo educador e testemunha encontra o  seu modelo insuperável em Jesus Cristo, o grande testemunho do Pai, que não dizia nada por si mesmo, mas que falava tal e como o Pai o havia ensinado (Cf. João 8, 28).

Este é o motivo pelo qual no fundamento da formação da pessoa cristã e da transmissão da fé está necessariamente a oração, a amizade pessoal com Cristo e a contemplação nele do rosto do Pai. E o mesmo se pode dizer de todo nosso compromisso missionário, em particular, de nossa pastoral familiar: que a Família de Nazaré seja, portanto, para as nossas famílias e comunidades, objecto de constante e confiada oração, assim como modelo de vida.

Queridos irmãos e irmãs, e especialmente vós, queridos sacerdotes: estou consciente da generosidade e da entrega com a qual servis ao Senhor e à Igreja. Vosso trabalho quootidiano pela formação na fé das novas gerações, em íntima união com os sacramentos da iniciação cristã, assim como também pela preparação ao matrimónio e pelo acompanhamento das famílias em seu caminho, que com frequência, em particular na grande tarefa da educação dos filhos, é o caminho fundamental para regenerar sempre de novo a Igreja e também para vivificar o tecido social de nossa amada cidade de Roma.

A ameaça do relativismo
Segui, portanto, sem deixar-vos desalentar pelas dificuldades que encontrais. A relação educativa é, por sua mesma natureza, algo delicado: implica a liberdade do outro que, ainda que seja com doçura, de todos os modos é provocado a tomar uma decisão. Nem os pais, nem os sacerdotes, nem os catequistas, nem os demais educadores podem substituir a liberdade da criança, do adolescente ou do jovem a quem se dirigem. E a proposta cristã interpela especialmente a fundo a liberdade, chamando-a à fé e à conversão. Um obstáculo particularmente insidioso na obra educativa é hoje a massiva presença na nossa sociedade e cultura desse tipo de relativismo que, ao não reconhecer nada como definitivo, só tem como medida última o próprio eu com seus gostos e que, com a aparência da liberdade, converte-se para cada um numa prisão, pois o separa dos demais, fazendo que cada um se encontre fechado no próprio «eu». Em um horizonte relativista assim não é possível, portanto, uma autêntica educação: sem a luz da verdade antes ou depois toda pessoa fica condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validade do seu compromisso para construir com os demais algo em comum.

Está claro, portanto, que não só temos de tentar superar o relativismo no nosso trabalho de formação de pessoas, mas que estamos também chamados a enfrentar o seu predomínio destrutivo na sociedade e na cultura. Por isso, é muito importante que, junto à palavra da Igreja, se dê o testemunho e o compromisso público das famílias cristãs, em particular para reafirmar a inviolabilidade da vida humana desde sua concepção até seu ocaso natural, o valor único e insubstituível da família fundada sobre o matrimónio e a necessidade de medidas legislativas e administrativas que apoiem as famílias na tarefa de gerar e educar os filhos, tarefa essencial para nosso futuro comum. Por este compromisso vosso também vos agradeço de coração.

Sacerdócio e vida consagrada
A última mensagem que gostaria de deixar-vos diz respeito à atenção pelas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada: todos sabemos a necessidade que tem a Igreja! Para que nasçam e amadureçam estas vocações, para que as pessoas chamadas se mantenham sempre dignas de sua vocação, é decisiva antes de tudo a oração, que não deve faltar nunca em cada uma das famílias e na comunidade cristã. Mas também é fundamental o testemunho de vida dos sacerdotes, dos religiosos e das religiosas, a alegria que expressam por haver sido chamados pelo Senhor. E é assim mesmo essencial o exemplo que recebem os filhos dentro de sua própria família e a convicção nas famílias de que a vocação dos filhos é também para elas um grande dom do Senhor. A opção pela virgindade por amor de Deus e dos irmãos, que é exigida para o sacerdócio e a vida consagrada, está acompanhada pela valorização do matrimónio cristão: uma e outra, com duas formas diferentes e complementares, fazem em certo sentido visível o mistério da aliança entre Deus e seu povo.

Queridos irmãos e irmãs, confio-vos estas reflexões como contributo para o vosso trabalho nas noites do Congresso e depois durante o próximo ano pastoral. Peço ao Senhor que vos dê valentia e entusiasmo para que a nossa Igreja de Roma, cada paróquia, cada comunidade religiosa, associação ou movimento participe intensamente na alegria e no esforço da missão e deste modo cada família e toda a comunidade cristã redescubra no amor do Senhor a chave que abre a porta dos corações e que faz possível uma autêntica educação na fé e na formação das pessoas. Meu afecto e minha bênção vos acompanham hoje e no futuro.

Bento XVI
6 de Junho de 2005

 

 

©Copyright - Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar, 2004