Celebrar e Acolher :: Nota Pastoral para o ano pastoral 2018-2019

CELEBRAR E ACOLHER

Nota Pastoral do Bispo de Coimbra
Dom Virgílio Antunes
para o ano pastoral 2018-2019

“Aproximai-vos do Senhor” (1 Pd 2, 4)
"Acolhei-vos uns aos outros" (Rn 15,7)

 

INTRODUÇÃO

Um novo ano pastoral é uma nova oportunidade para refletirmos, rezarmos e programarmos a vida das comunidades cristãs: a diocese, o arciprestado, a unidade pastoral, o secretariado, o serviço, o movimento.

O ritmo atual, e a Igreja está presente neste lugar e neste tempo, exige projeto, programação e ação adequadas, pois a vida das pessoas e das famílias tem muitas dimensões, é muito diversificada e é preciso enquadrar adequadamente nela o caminho espiritual de fé e de vivência eclesial. O tempo cronológico está muito preenchido e a ocupação do tempo psicológico precisa de motivação, de previsão e de inclusão no ritmo exterior e interior de cada pessoa, família e comunidade.

Uma comunidade que não programa a sua vida é uma comunidade com pouca vida e caminha rapidamente para a sua desagregação. A vida comunitária tem ritmos, é composta pela diversidade de momentos, celebrações e festas, inclui pessoas diferentes com as suas próprias motivações, ocupações e planos. A falta de necessidade de organização e planificação normalmente significa falta de novidade, de dinamismo e de vitalidade, significa que se está resignado à repetição e à rotina.

A organização da vida comunitária e a programação das atividades de uma unidade pastoral ou das comunidades cristãs não contradizem a dimensão carismática da Igreja, ou seja, a certeza de fé de que é o Espírito de Deus, sempre novo, livre e criativo, que conduz a Igreja. Antes pelo contrário, o Espírito Santo como alma da Igreja e das comunidades cristãs provoca o desejo do aperfeiçoamento da vida comunitária, cria o dinamismo da mudança, inspira novos caminhos a percorrer, impede a repetição sem alma e leva à procura incessante da renovação, refletida, discernida e rezada.

A nossa Diocese de Coimbra já há muitos anos que oferece uma programação baseada no Plano Pastoral e pede às comunidades, serviços e movimentos que façam o mesmo. Essa prática tem-se vindo a intensificar nas unidades pastorais, com a cooperação das equipas de animação pastoral e dos conselhos pastorais, nos quais sacerdotes, diáconos e leigos oferecem o seu contributo para a renovação da Igreja. Do mesmo modo, os secretariados, serviços e movimentos, cada um a seu nível, já não iniciam o ano pastoral sem definir as linhas básicas da sua ação e sem uma programação que permita atingir os objetivos assumidos. Este pode parecer um pequeno passo, mas é um passo de gigante quando é feito numa perspetiva sinodal, isto é, quando envolve os cristãos e torna a comunidade mais participativa, a ponto de todos se sentirem membros responsáveis da Igreja em construção.

Nesta breve nota pastoral, quero, em nome da Igreja Diocesana de Coimbra, agradecer a todos os que se têm deixado envolver pelo espírito de renovação e têm dado o seu contributo para que sejamos uma comunidade mais ativa, mais evangelizadora e mais santa. Hoje, são muitos os fiéis que realizam a sua vocação cristã no trabalho ativo dentro da comunidade eclesial e que marcam a nossa Diocese com a sua alegria, o seu entusiasmo, a sua fé e a sua esperança, frutos do acolhimento do dom de Deus que no batismo receberam.

Felizmente encontramos em toda a Diocese muitas unidades pastorais com um ritmo de vida intenso, organizado, criativo e com clara definição de objetivos prioritários de ação. Isso é fruto da escuta da voz de Deus, que nunca nos deixa tranquilos no “fez-se sempre assim” (A Alegria do Evangelho, 33) de costumes e tradições que, porventura já não oferecem força renovadora à Igreja. Na fidelidade à Sagrada Escritura, ao depósito da fé e à Tradição, a Igreja de Cristo está no mundo para tornar presente a força do Evangelho, ajudar ao encontro de cada pessoa com Cristo por meio da fé e transformar todas as realidades humanas, iluminando-as com a luz de Deus. A Igreja, no entanto, não pode realizar esta sua missão se não tem plena consciência do Dom que lhe foi entregue, por um lado, e se não conhece a humanidade a quem foi enviada, por outro.

Dou graças a Deus pelo caminho já feito pela comunidade Diocesana de Coimbra, pelos caminhos novos de evangelização que tem percorrido, pelo aprofundamento da espiritualidade cristã e pelo esforço de adaptação das suas estruturas em ordem a melhor servir o Povo de Deus, nomeadamente no contexto das unidades pastorais e com o contributo das equipas de animação pastoral e dos conselhos pastorais.

Com novo ardor, convido toda a Diocese a renovar o seu entusiasmo, pois há pela frente todos os grandes e belos desafios que o Senhor nos oferece, no contexto de uma sociedade secularizada e dentro de uma Igreja em que muitos perderam a vivacidade da fé e o sentido de pertença eclesial, deixaram morrer a esperança em Deus e têm dificuldade em abrir o coração e a vida às coisas do alto.

1. PLANO PASTORAL 2017-2020 - APROXIMAI-VOS DO SENHOR (1 Pd 2, 4)

A nossa Diocese recebeu do Espírito Santo a graça de um Plano Pastoral para o triénio de 2017-2020, fruto de um dinamismo sinodal, que envolveu muitos fiéis na oração e escuta da voz de Deus, na leitura da realidade que nos envolve e nos desafios que nos são feitos no tempo presente.

A frase bíblica inspirada, “Aproximai-vos do Senhor” (1 Pd 2, 4) constitui a palavra chave da proposta de Deus para este povo que caminha na Diocese de Coimbra, com alegrias e esperanças, mas também com apreensões e dificuldades.

Temos vindo a percorrer o caminho, animados pelo magistério da Igreja e, concretamente, pelo ensino do Papa Francisco, que acolhemos como o Pastor da Igreja Universal, querido por Deus para este tempo.

Cada vez que lemos os documentos pontifícios mais nos sentimos confortados e confirmados nas opções que fazemos e nos objetivos que delineámos. De um modo especial, vemos na Exortação Apostólica “A alegria do Evangelho” o documento programático do seu pontificado, com o qual queremos identificar-nos mais plenamente, pois centra-se no essencial do Evangelho: o encontro pessoal com Cristo, a evangelização como o caminho da Igreja em atitude de “saída” e a conversão pastoral como meio privilegiado para sermos Igreja no tempo presente.

Por sua vez, a Exortação Apostólica “Alegrai-vos e exultai”, recentemente publicada, confirma-nos na busca do caminho da santidade cristã como vocação recebida no batismo e desenvolvida na fidelidade à vocação particular que cada um recebeu na Igreja. Percebemos de forma mais clara que o mandato de evangelizar e anunciar a Boa Nova só pode realizar-se se nos deixamos enraizar profundamente na espiritualidade cristã, o mesmo é dizer, no Espírito Santo, que santifica cada fiel e toda a Igreja. Compreendemos que a ânsia de evangelizar e a santidade cristã são duas realidades que caminham juntas: a Igreja evangelizadora progride na santidade e a Igreja santa sente-se sempre mais impelida a evangelizar.

A frase da Primeira Epístola de S. Pedro, “Aproximai-vos do Senhor”, resume para nós este duplo movimento que o Senhor nos pede. Em primeiro lugar, trata-se de nos pormos a caminho para ir ao Seu encontro, numa atitude de resposta Àquele que tomou a iniciativa de vir até nós, trata-se de nos adentrarmos na comunhão com o Senhor, de nos deixarmos envolver por Ele, de permanecermos n’Ele, pois só Ele é Santo e só Ele, por meio do Seu Espírito, nos santifica. Em segundo lugar, trata-se de sairmos ao encontro da humanidade, cheios do Espírito de santidade, Aquele que nos levará a anunciar a Boa nova da Salvação de Deus e a testemunhar as maravilhas de graça que o mesmo Espírito realiza em nós por meio da Igreja.

Seria um erro, que aliás tem ocorrido muitas vezes ao longo da história do cristianismo, entender o convite a aproximarmo-nos do Senhor que não incluísse o convite a aproximarmo-nos dos homens nossos irmãos. Jesus, o Filho que vive na eterna comunhão de amor com o Pai – “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30) – veio ao encontro da humanidade para estabelecer laços de comunhão de amor connosco. Neste sentido, quanto mais nos aproximamos do Senhor, mais nos aproximamos da humanidade, ou, dito de outra forma, quanto mais progredimos na santidade, que é comunhão de amor com Deus, mais ardentemente desejamos partilhar a riqueza de Deus em nós por meio das palavras e gestos de comunhão com os homens.

1.1. EVANGELIZAÇÃO, ESPIRITUALIDADE, ORGANIZAÇÃO

Procurando ajudar a Diocese de Coimbra a pôr em prática esta vocação de nos aproximarmos de Deus e de nos aproximarmos da humanidade, o nosso Plano Pastoral elegeu três grandes objetivos, que já deu alguns frutos visíveis: a evangelização, a espiritualidade e a organização.

1.1.1. EVANGELIZAÇÃO

No campo da evangelização fizemos grandes progressos: implementaram-se percursos “Alpha” para adultos, jovens e universitários em muitas unidades pastorais, bem como os encontros “Ela e Ele” para casais, com visíveis frutos de encontro com Cristo e caminho de pertença à Igreja por parte de cristãos desinteressados e afastados; criaram-se grupos de catequese de adultos com base no catecismo de inspiração catecumenal proposto pela Diocese e usando a metodologia dos Grupos de Jesus; aumentou o número de grupos de casais em dinâmica de aprofundamento da fé e ação pastoral e fez-se a preparação para o matrimónio com a metodologia do CPM e com outros esquemas de iniciativa local; realizaram-se cursos de cristandade e convívios fraternos como meios de aprofundamento da fé e compromisso cristão; propôs-se a catequese familiar e a escola de pais para as famílias com filhos na catequese; consolidaram-se em algumas unidades pastorais as Células Paroquiais de Evangelização; houve grande número de outras iniciativas de evangelização, entre as quais se contam a preparação de jovens e adultos para o Batismo, para a Eucaristia e para a Confirmação; continuou a formação cristã de muitos cristãos na Escola de Teologia e Ministérios, com uma razoável frequência; e aumentou muito o número de diáconos permanentes.

Reconhecemos que há muito a fazer para que a evangelização seja a atitude central da Igreja Diocesana e para que a dinâmica do anúncio em ordem ao encontro com Cristo e ao crescimento da Igreja substitua a tradicional “pastoral de mera conservação” (A Alegria do Evangelho, 15). Sonhamos, com o Papa Francisco, com uma Igreja toda ela evangelizadora, nas palavras, nos gestos, no modo de vida, nos programas e horários, no investimento humano e material.

1.1.2. ESPIRITUALIDADE

No campo da Espiritualidade houve passos significativos no que se refere à mudança de mentalidade, pois tomámos maior consciência de que a fé cristã é um encontro com Cristo e com a Igreja, mais do que uma tradição ou uma questão cultural; valorizámos o lugar do Espírito Santo na vida cristã e caminhámos no sentido de ver a Igreja como comunidade carismática, inspirada e conduzida pelo Espírito, mais do que como uma realidade sociológica.

Sentimo-nos mais sensibilizados para a celebração comunitária da Eucaristia em que participa a diversidade dos fiéis e com a contribuição ativa da pluralidade dos ministérios; valorizaram-se os tempos de oração comunitária, a leitura orante da Palavra de Deus (lectio divina), a adoração ao Santíssimo Sacramento, a oração mariana; incluíram-se os retiros espirituais no programa da vida das comunidades, particularmente as “24 horas para o Senhor”, as recoleções do Advento e da Quaresma e tornou-se habitual o retiro de preparação para o sacramento da Confirmação; aumentou a disponibilidade, os tempos e lugares para a celebração do Sacramento da Penitência.

Uma vez que a vida no Espírito é a caraterística distintiva do cristão e da Igreja, vemos à nossa frente um caminho incomensurável a percorrer tanto no que respeita à convicção acerca do seu lugar e importância como na quantidade e qualidade das propostas a fazer para que as comunidades se deixem edificar na santidade.

1.1.3. ORGANIZAÇÃO

No campo da organização propusemo-nos fazer da unidade pastoral a base da organização pastoral da Diocese e fizemos progressos significativos. Hoje, é comum usarmos esta expressão na linguagem corrente e o Povo de Deus foi percebendo que para uma nova situação é necessária uma nova forma de organização, a fim de potenciarmos, de forma adequada, todas as nossas capacidades em ordem ao crescimento da fé e da Igreja.

Em muitas unidades pastorais constituíram-se os dois órgãos de participação e corresponsabilidade propostos: a equipa de animação pastoral e o conselho pastoral, com muito agrado dos participantes e com frutos bem visíveis no que se refere aos dinamismos eclesiais da sinodalidade.

Desenvolveu-se a organização da liturgia, da catequese, da evangelização e das ações formativas dentro da unidade pastoral e unificaram-se alguns serviços em ordem a um melhor funcionamento e maior aproveitamento dos recursos humanos, económicos e logísticos existentes.

Fez-se formação em ordem à aplicação do Regulamento de Administração dos Bens na Diocese de Coimbra e houve um salto qualitativo no que se refere ao seu cumprimento, embora ainda haja bolsas de resistência e uma grande dificuldade em ajudar os pequenos lugares dotados de capelas a sentirem-se membros da comunidade paroquial também na área administrativa.

Precisamos ainda de compreender que a organização não é o centro da vida da comunidade cristã, mas que ela tem grande importância se a concebemos como um serviço à realização da missão da Igreja. Por outro lado, continua a ser necessário progredirmos na compreensão da Igreja como Povo de Deus e mistério de comunhão, o que é muito diferente de paróquias ou lugares fechados sobre si mesmos e adversos ao sentido da partilha e da universalidade.

No início deste Ano Pastoral, convido os arciprestados, unidades pastorais, serviços e movimentos a revisitarem o Plano Pastoral Diocesano para o triénio de 2017-2020. Ao repassarmos cada um dos objetivos e das estratégias procuremos atualizar o Plano Pastoral da nossa instituição e sejamos ousados nos projetos e ações, pois Deus espera de nós muito amor e total dedicação à edificação do Seu Templo Santo.

2. A IGREJA EM SAÍDA

O Plano Pastoral da Diocese de Coimbra assume como atitude fundamental a desenvolver, aquela a que o Papa Francisco chamou na Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” de “uma Igreja em saída” (nº 20-24).

Esta atitude que o Espírito Santo nos faz entender como a mais adequada para a realização da missão da Igreja na situação presente, contrasta visivelmente com a visão da comunidade cristã como uma realidade estável, constituída pela maioria dos cidadãos, pelo menos nos países ocidentais, em que a Igreja por meio das suas paróquias e organizações tinha uma grande influência sobre o ritmo de vida das pessoas. Os tempos de secularização trouxeram uma forma diferente de as pessoas se relacionarem com Deus, com a fé, com a Igreja e com os valores cristãos. A organização do ritmo de vida das sociedades já não é marcada pela comunidade cristã local, nem pelo calendário religioso e litúrgico como aconteceu em tempos ainda não muito distantes, mas por outras forças, outros valores e outras culturas, por vezes indiferentes à visão cristã, quando não mesmo hostis.

A sociedade tem, hoje, outras formas de se organizar e vive polarizada por outros interesses, mesmo que isso não signifique o abandono da fé nem a rejeição da dimensão religiosa e crente da vida. Para uma realidade diferente precisamos de uma atitude diferente, sabendo que o Evangelho e a tradição cristã, porque cheios da novidade do Espírito Santo, nos oferecem sempre possibilidades de encontrar os caminhos mais aptos para enfrentar as novas realidades.

Para o crente e para a comunidade cristã que acredita na força e na perenidade do Evangelho, todas as situações e todas as realidades humanas constituem um desafio à eterna novidade de Cristo que se oferece a todos os homens de todos os tempos. Segundo a visão da esperança cristã, não há ninguém em circunstância alguma, por muito que nos sintamos débeis e pobres, que não seja destinatário do feliz anúncio e diante do qual a Igreja, sacramento da salvação de Cristo, não tenha o dever e a possibilidade de proclamar a alegria do Evangelho.

A expressão “Igreja em saída” é, pois, fruto de uma visão de confiança em Deus, de fé na Sua palavra e de esperança na Sua validade para todos os homens de todos os tempos. Cultivar a atitude de “Igreja em saída” significa estarmos abertos a ultrapassar todos os complexos que afetam a comunidade cristã, porventura mais pobre de pessoas e de meios, mas mais centrada na cruz de Cristo, que é poder de Deus e sabedoria de Deus (cf 1 Cor 1, 24).

Estamos num tempo diferente e cheio de desafios para a fé cristã, sendo o maior o da confiança no amor de Deus, que se propõe com humildade e por meio de uma linguagem a que o Apóstolo Paulo chamou a linguagem da cruz, a única que manifesta a força do amor de Deus e, portanto, a única que vence a sabedoria do mundo. Este é o tempo em que a Igreja tem de abraçar a mesma confiança no amor de Deus e tem de seguir com o anúncio da Boa Nova, usando de forma humilde, mas convincente, a mesma linguagem, ou seja, a da sabedoria da cruz (cf 1 Cor 1 17-31).

2.1. O DINAMISMO CELEBRATIVO

Ao longo deste ano procuraremos dar passos significativos em dois dos dinamismos importantes para uma “Igreja em saída”: o dinamismo celebrativo e o dinamismo do acolhimento.

A Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” refere-se longamente a alguns desafios da cultura moderna que reclamam da parte da Igreja uma revalorização do dinamismo celebrativo da fé e da pertença à comunidade eclesial. Retomo alguns deles, que, segundo o caminho sinodal que realizámos no ano pastoral de 2017-2018, têm particular significado para a nossa Diocese.

Estamos num tempo muito marcado pela tendência de “reduzir a fé ao âmbito privado e íntimo” (A Alegria do Evangelho, 64). Entre o tempo em que assinalávamos uma prática religiosa massiva e regular e os dias de hoje, em que o número dos que participam habitualmente no culto dominical e celebram os outros sacramentos da fé, vai uma distância muito grande. De facto, continuamos a ter uma percentagem muito significativa de pessoas que se sentem católicas e uma percentagem muito reduzida de pessoas a participar ativa e regularmente na vida litúrgica e sacramental na comunidade cristã. Muitos sentem, de facto, que a fé é uma questão privada e íntima, vivida segundo o gosto e as possibilidades de cada um; deixaram-se arrebatar pelo estilo individualista de viver que se instalou entre nós e desvalorizaram a dimensão social e pública da fé cristã.

Uma vez que faz parte integrante da fé cristã o encontro pessoal com Cristo, mas igualmente o encontro com a sua Igreja, temos pela frente o desafio de ajudar os cristãos a inserirem-se na comunidade, e a criarem o gosto e a necessidade de participarem na celebração comunitária, litúrgica e sacramental.

A celebração da fé é essencial à vivência da mesma fé, pois esta nunca é algo do âmbito simplesmente privado ou íntimo, tem uma dimensão comunitária, social e capacita para a força transformadora de todos os campos da vida do crente e da sociedade.

Diante das novas culturas que germinam entre nós, assentes em paradigmas muito diferentes dos anteriores, impõe-se uma resposta da Igreja. O Papa Francisco, falando dessas novas culturas que emergem sobretudo nas geografias humanas e urbanas generalizadas e difundidas pelos meios de comunicação social, aponta um horizonte: “imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas” (A Alegria do Evangelho, 73).

O Plano Pastoral Diocesano 2017-2020 apontou já alguns aspetos a desenvolver entre nós na nova situação cultural em que nos encontramos, marcada por “linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus” (A Alegria do Evangelho, 73), que precisamos de retomar.

a) “Valorizar a celebração dos sacramentos como momentos de encontro com o Senhor e com a comunidade.”

Não sendo aqui o momento de explanar a teologia dos sacramentos, havemos de reconhecer que a esse respeito, há, entre nós, ideias e consequentes práticas muito deficientes, que pedem mais catequese e mais conhecimento teológico.

Como reconhece o Papa, “em muitas partes, predomina o aspeto administrativo sobre o pastoral, bem como uma sacramentalização sem outras formas de evangelização” (A Alegria do Evangelho, 63). Estamos diante de uma realidade muito difícil de transformar, pois, da parte da Igreja institucional dispensadora dos sacramentos é mais fácil administrar e celebrar sacramentos do que evangelizar; por sua vez, muitos fiéis que se apresentam a pedir os sacramentos também não estão disponíveis para ir mais além no caminho da fé, desejando apenas o cumprimento dos rituais religiosos e sociais associados.

Como Igreja temos a missão de fazer de todos os momentos de pedido dos sacramentos verdadeiras oportunidades de encontro com o Senhor e com a Igreja, oportunidades de evangelização por meio da proposta de percursos adequados às diferentes situações pessoais e familiares.

O momento da celebração dos sacramentos reveste-se de particular importância, pois, sendo eles sinais da graça que vem de Deus, precisam da adesão da fé e da vontade humanas para darem frutos na vida dos cristãos. O modo como celebramos os sacramentos é decisivo quanto ao interesse que desperta ou quanto à desmotivação que potencia, tanto nos que habitualmente celebram a fé como nos que normalmente estão ausentes, embora com esporádicas experiências de participação.

Apesar do bom e frutuoso trabalho já realizado entre nós, havemos de cuidar muito seriamente de alguns aspetos para valorizar a celebração dos sacramentos e para que eles levem ao encontro com o Senhor e com a comunidade cristã:

- o clima de silêncio e a densidade espiritual que se cria no espaço sagrado;

- o respeito pelo ritos sagrados e pelo sentido que a Igreja lhes dá em detrimento das preferências pessoais;

- a celebração dos sacramentos em contexto comunitário resistindo ao pedido de celebrações privadas;

- o uso da música litúrgica de comprovada qualidade literária e artística segundo o ensino da Igreja e a rejeição de músicas e textos provenientes de outros contextos;

- a participação ativa de todos os fiéis e o exercício dos ministérios e serviços previstos;

- a busca da beleza exterior e da profundidade interior;

- a criação do ambiente de escuta da voz de Deus e de resposta humana que envolva a totalidade da vida dos fiéis e o compromisso da comunidade.

A Missa há de ocupar um lugar central na celebração e vivência da fé cristã. Tudo havemos de fazer para que essa centralidade, especialmente ao domingo, seja real e notória. Cada unidade pastoral deverá, por isso, refletir bem acerca dos lugares da celebração, do número de celebrações, da envolvência da comunidade, da qualidade da celebração.

A Missa dominical é a expressão da Igreja e é o rosto mais visível da comunidade cristã, é encontro com Cristo, é lugar de evangelização por excelência, pelo que devemos criar todas as condições necessárias para que em tudo se revista da sua própria dignidade.

b) “Valorizar a oração pessoal e comunitária, dando especial atenção à adoração eucarística”.

A oração cristã é um meio indispensável para o progresso pessoal e comunitário na fé, na esperança e na caridade. Uma pessoa, uma família ou uma comunidade que não rezam perdem o sentido da presença de Deus na sua vida e vão-se afastando progressivamente da comunhão íntima com Ele.

O desafio consiste em viver a vida como uma oração, o que significa dar um sentido espiritual a tudo o que se faz, se sente e se deseja. Para que isso aconteça são necessários momentos verdadeiramente orantes, de escuta, de diálogo, de silêncio, de meditação e de contemplação, que hão marcar etapas significativas do dia, da semana ou do ano litúrgico.

Quando se perde o sentido da oração, perde-se o sentido sobrenatural da vida, passa-se a contar com os elementos naturais, com as próprias qualidades e virtudes, mas fica esquecida a graça de Deus, como se tudo dependesse de nós e como se não fossemos, enquanto pessoas e comunidades, verdadeiros frutos do seu dom.

As comunidades cristãs, pequenas ou grandes, se querem progredir na fé, no dinamismo espiritual e na alegria de evangelizar, precisam de incluir no seu programa quotidiano de vida momentos fortes de oração. De entre as muitas formas provenientes da tradição da Igreja, a adoração ao Santíssimo Sacramento é a mais excelente, porque intimamente ligada ao mistério da Eucaristia, celebrada no primeiro dia da semana como culminar da vida e como fonte donde dimana a vida.

Convidamos, por isso, as paróquias e unidades pastorais a organizarem e proporem as diferentes formas de oração cristã e a darem um especial relevo à adoração ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia, de forma prolongada, pessoal ou comunitária. Ali toda a vida pessoal e comunitária, com as ações litúrgicas, pastorais, catequéticas, evangelizadoras e caritativas, ganha outro sentido, outra alma e outro fulgor.

c) “Reforçar e alargar a participação no itinerário da leitura orante da Palavra de Deus (lectio divina), enquanto encontro com a Palavra que dá vida.”

A Sagrada Escritura, Palavra de Deus inspirada pelo Espírito Santo e dirigida aos homens, está, felizmente, a ser redescoberta como alimento quotidiano da vida cristã.

Entre nós, a inserção da leitura orante da Palavra de Deus na preparação da visita pastoral e no programa pastoral, já teve largas repercussões no caminho de encontro com Deus e de construção da Igreja. Muitos cristãos encontraram-se pela primeira vez e diretamente com a Bíblia, pegaram nela como texto sagrado, Palavra de Deus dirigida aos homens, fonte de oração e de vida. No entanto, ela chega ainda a uma pequena parte das comunidades, que se vêm privadas desse imenso tesouro que Deus nos deu.

Com a iluminação do Espírito Santo, o encontro com a Palavra de Deus, lida, meditada, contemplada e rezada, produz efetivamente frutos no coração e nas obras dos fiéis. Lida em contexto orante e com motivação espiritual, seguindo o método tradicional da lectio divina, a Palavra de Deus torna-se verdadeiramente semente que encontra terreno disponível para germinar e crescer.

De novo, incentivo cada pessoa, mas, de preferência, cada grupo, cada pequena comunidade, a reunir-se em casa, no centro pastoral paroquial, nas inúmeras capelas espalhadas pelos pequenos lugares, para a leitura orante da Palavra de Deus, aproveitando os subsídios literários que a Diocese oferece em cada Advento e Quaresma. Essa prática tornar-se-á uma escola de fé e de disponibilidade para acolher a vontade do Pai em todas as situações com as quais nos confrontamos.

d) “Propor retiros espirituais como lugar privilegiado de silêncio e de escuta.”

Ao longo dos tempos, a prática dos retiros ou exercícios espirituais tornou-se um privilégio dos consagrados e dos sacerdotes. Atualmente todos os cristãos são convidados a incluir no seu plano anual de vida um tempo mais longo de encontro com Deus, que inclua a pregação, a oração, o silêncio e o discernimento da vida à luz do Espírito. Surgiram novas possibilidades e novas metodologias que permitem aos leigos indiferenciadamente essa possibilidade: um fim de semana, um dia feriado, um sábado ou um domingo, uma semana ou alguns dias retirados ao tempo das férias.

Entre nós, as unidades pastorais, os secretariados, os movimentos de espiritualidade já incluem algumas propostas na sua agenda anual. A Diocese de Coimbra promove anualmente três oportunidades de retiro espiritual abertos a qualquer pessoa que queira participar e deverá propor mais no futuro: no Advento, na Quaresma e no verão. Um número crescente de pessoas tem participado e experimentado esse tempo como um tempo de graça.

Também por ocasião da celebração dos sacramentos, especialmente da confirmação, do batismo de adultos, do matrimónio, da recepção das ordens sacras se tornou comum a proposta de retiros espirituais. Para os jovens e adultos que são confirmados, esse é, normalmente, o momento mais forte de confronto com a alegria de viver a fé e do encontro com Deus, que fica para sempre.

Esperamos vivamente que sejam cada vez mais as propostas de retiro espiritual, segundo as diferentes modalidades, dirigidas a todos os cristãos e em diversas circunstâncias. O programa anual das unidades pastorais, dos secretariados e movimentos deve incluir esse meio tão importante de encontro com Deus, na escuta, na oração e no silêncio.

2.2. O DINAMISMO DO ACOLHIMENTO

Ao regressarmos ao Evangelho deparamo-nos sempre com a Pessoa de Jesus e com as suas atitudes e gestos fundamentais. Entre eles encontramos alguns que apontam para os seus movimentos em relação a todo o tipo de pessoas:

- Jesus permanece numa comunhão fiel e amorosa com o Pai e deseja permanecer nessa mesma comunhão com a humanidade – “Eu estou no Pai e o Pai está em Mim” (Jo 14, 10);

- Jesus sai ao encontro de todos os que estão em casa, nos campos, nos caminhos, onde se passa a sua vida de graça e de pecado – “Desceu, depois, a Cafarnaum, cidade da Galileia, e a todos ensinava ao sábado” (Lc 4, 31);

- Jesus convida todos a irem ao seu encontro e está disponível para acolher a todos, para n’Ele encontrarem a consolação, a paz e as fontes da Vida que tem para lhes oferecer – “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos” (Mt 11, 28).

Enquanto Igreja somos convidados a este tríplice movimento na relação com a humanidade que Jesus quer salvar. A comunidade permanece na casa do Pai, numa comunhão íntima e amorosa com Ele; sai ao encontro da humanidade, que é como rebanho sem pastor, com o Evangelho nos lábios e o amor de Deus no coração; e está disponível para acolher a todos e a cada um, sem julgar a sua vida e as suas motivações.

Na Epístola aos Romanos, Paulo, consciente deste dinamismo caraterístico da Igreja, que permanecendo em Deus, há de ser enviada e acolhedora, exorta os cristãos, dizendo: “acolhei-vos uns aos outros, na medida em que também Cristo vos acolheu, para glória de Deus” (Rm 15, 7); “Àquele que é fraco na fé, acolhei-o, sem cair em discussões sobre as suas maneiras de pensar” (Rm 14, 1).

Nas presentes circunstâncias em que vivemos, a relação das pessoas com a Igreja sofreu grandes mudanças. A comunidade cristã já não é o centro da vida e das atenções de muitos e, por sua vez, existe hoje uma pluralidade de propostas, de grupos de encontro, de iniciativas e perspetivas culturais, a par com um individualismo crescente e uma enorme dificuldade em se criarem laços e vínculos fortes.

Num mundo secularizado e onde proliferam tantas propostas religiosas e “espirituais”, com um ritmo de vida tão acelerado e esmagador, as pessoas já não se aproximam da Igreja com antes. A fé, a espiritualidade cristã, a própria Igreja, acabam por aparecer como uma possibilidade entre tantas outras, é difícil reconhecer-se a sua importância imediata e a sua utilidade prática quando se quer alcançar tudo rapidamente e encontrar soluções para as dificuldades com que as pessoas se deparam diariamente.

Consciente desta realidade, “A Alegria do Evangelho”, dando continuidade ao Evangelho e à atitude de Jesus, propõe uma Igreja como uma mãe de coração aberto, “uma Igreja com as portas abertas” (A Alegria do Evangelho, 46), e afirma que “A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai” (A Alegria do Evangelho, 47).

Reconhece ainda que, “se uma parte do nosso povo batizado não sente ligada a sua pertença à Igreja, isso deve-se também à existência de estruturas com clima pouco acolhedor nalgumas das nossas paróquias e comunidades, ou à atitude burocrática com que se dá resposta aos problemas, simples ou complexos, da vida dos nossos povos” (A Alegria do Evangelho, 63).

Reconhecemos nós também que somos chamados a ser Igreja em saída, que não pode guardar para si o tesouro de amor, de graça e de salvação que recebeu, mas se sente impelida a ir ao encontro da humanidade em todos os lugares, ou, como diz o texto da Exortação Apostólica, a “sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (A Alegria do Evangelho, 20).

Por outro lado, reconhecemos a urgência de uma radical mudança de atitude para nos tornarmos Igreja que acolhe como um pai e como uma mãe, de coração e portas abertas, pois a sede existente no coração humano leva muitos a procurarem matá-la na fonte que tem por rosto a Igreja de Jesus, a comunidade local, a paróquia, o cartório paroquial, a catequese para os filhos, o pedido dos sacramentos. Em todos esses momentos e sinais, mesmo que desafiando as regras da estabilidade e da comodidade instaladas, havemos de ver irmãos e irmãs que procuram o Deus vivo, havemos de sentir que estamos diante de oportunidades a aproveitar como um dom da graça para ajudar ao encontro com Cristo, à evangelização e à inserção na Igreja.

Afinal, Jesus acolheu a todos e viu em cada pessoa um homem ou uma mulher a quem Deus ama e quer salvar por meio da fé. Acolheu justos e pecadores, anunciou a Boa Nova a ricos e pobres, não olhou à condição ou à situação moral, para cada um teve uma palavra, um convite, um gesto; a cada um deu uma nova oportunidade de revisão da própria vida, a cada um proporcionou a possibilidade de um primeiro ou novo encontro com Deus, a todos ofereceu a possibilidade da conversão.

O dinamismo sinodal, que nos ajudou a preparar o Plano Pastoral 2017-2020, apontou claramente para a necessidade desta mudança de atitude da Igreja Diocesana, no sentido de a tornar mais acolhedora em todas as suas pessoas e estruturas. Colhendo esses contributos, o Plano Pastoral sublinhou a importância do dinamismo do acolhimento e indicou alguns pontos concretos que havemos de ter em conta.

a) “Cultivar o acolhimento como atitude da comunidade cristã, especialmente a quem chega de novo ou a quem está de passagem.”

As comunidades cristãs são, hoje, compostas por um núcleo fidelizado de fiéis, normalmente pequeno, que participam da sua vida pastoral, litúrgica, evangelizadora e estão em sintonia com o ritmo regular da Igreja.

Para além disso, há uma multidão imensa de outros cristãos batizados, que têm uma relação muito mais fluída com a comunidade cristã: aparecem ocasionalmente, pedem a catequese para os filhos, querem que sejam admitidos aos sacramentos, participam nos momentos solenes, como os funerais, os casamentos e batizados, mas não seguem a par e passo o ritmo da vida comunitária.

Podemos dizer que grande parte dos cristãos, sobretudo nos meios mais urbanos, são cristãos na mobilidade, em situação transitória de encontro com a Igreja, chegam e saem, estão verdadeiramente de passagem, se não geograficamente, pelo menos afetiva e relacionalmente. Entre nós, são aqueles que mais precisam de experimentar uma atitude de acolhimento, capaz de os ajudar a criar uma relação mais afetiva com a Igreja e de os fazer abrir às propostas de evangelização e participação na liturgia ou na vida da comunidade. São também estes que facilmente entram em choque com as regras ou princípios da Igreja, bem como com os sacerdotes e outros membros ativos da comunidade. Nesse caso, uma má experiência de relação ou de acolhimento deixa, frequentemente, marcas negativas para toda a vida, com o perigo agravado de se generalizar, pensando que, se uma pessoa da Igreja acolhe mal, é a Igreja que acolhe mal.

b) “Fazer das reuniões já existentes (preparação para o batismo, para o matrimónio, reuniões de pais, reuniões de catequese...) momentos privilegiados de acolhimento.”

Parte significativa das famílias que pedem a catequese e os sacramentos da iniciação cristã para os filhos vivem numa relação distante, de indiferença e, por vezes, até de conflito com a Igreja. São, no entanto, portadoras de um sentido da fé que vem do ambiente familiar, da cultura local, da educação da fé na infância ou adolescência desejam transmitir aos filhos os princípios religiosos fundamentais; consideram que tem valor a fé em Deus e a ligação com a Igreja.

Chegam, por vezes, com motivações muito vagas, com exigências muito fortes, desejosos de uma religião à medida, rejeitando as propostas de compromisso ou fidelização, que dificultam muito a relação com os agentes pastorais. Geralmente encontram pela frente um programa pautado pelas exigências, igual para todos e sem flexibilidade, frequentemente proposto da mesma forma a crentes, praticantes e sintonizados com a fé e com Igreja, como aos que estão nas periferias da fé e da prática cristãs.

A ocasião da celebração dos sacramentos é, sem dúvida, um desses momentos privilegiados para o acolhimento eclesial, sendo também aquela que, no contexto em que vivemos, cria também maiores dificuldades à relação entre a Igreja e os seus fiéis. Nesse sentido, o Papa Francisco deixa um veemente desafio, que procuraremos acolher como manifestação da vontade de Deus: “há outras portas que também não se devem fechar: todos podem participar de alguma forma na vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer. Isto vale sobretudo quando se trata daquele sacramento que é a «porta»: o Baptismo. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa” (A Alegria do Evangelho, 47).

O verdadeiro acolhimento centra-se na pessoa que é acolhida sem começar por se centrar nas suas caraterísticas pessoais, familiares, religiosas, sociais ou morais. Por sua vez, diante dos pedidos que a pessoa a acolher apresenta também não está em primeiro lugar o juízo acerca da sua razoabilidade, da sua lógica ou da autenticidade da sua motivação. Apesar de necessariamente existir uma proposta da comunidade cristã, comum à generalidade dos casos, ela não pode ser absolutizada e, no diálogo de acolhimento, tem de ser aberta, aparecer como um objetivo, como um caminho a percorrer progressivamente e não como proposta única e igualmente válida para todos os casos e em todas as circunstâncias.

O verdadeiro acolhimento pastoral centra-se, acima de tudo, no diálogo, que inclui escuta das razões, motivações, histórias que estão por detrás daqueles que procuram a Igreja ou os seus serviços. Inclui também algumas sugestões e pistas para a reflexão e para ajudar a equacionar as questões em causa, mas sem procurar aquilo que humanamente é quase impossível: mudar a forma de pensar e de sentir de alguém de um momento para o outro.

O acolhimento pastoral carateriza-se acima de tudo pela abertura de portas e nunca pelo encerrar definitivo de possibilidades. Desse modo, a palavra “não”, diante das aproximações e solicitações à comunidade cristã, tem de ser substituída pelos “vamos ver”, “há um caminho a fazer”, “vamos criar as condições”, “talvez ainda não seja o momento”, “sim, mas mais tarde”.

As reuniões que se fazem na comunidade por ocasião da celebração dos sacramentos são importantes. Devem ser realizadas em lugares acolhedores, com as condições adequadas para o encontro e o diálogo, onde as pessoas se sintam bem e confortáveis. A preparação dessa mesmas reuniões, a agenda a propor e o modo como decorrem, determinam muito do seu sucesso.

Deve-se, por isso, ter em conta todos os pormenores, entre os quais aponto os seguintes: a oração inicial e conclusiva, o tema proposto e o modo de o expor, a abertura à escuta e ao diálogo, o horário a que se realizam, o tempo de duração, o ambiente geral que se experimenta, a simpatia e alegria que se transmitem pelo fato de se realizar aquele encontro.

Mais importantes do que as reuniões esporádicas, que antecedem e preparam para os momentos fortes da celebração da fé, são os percursos de evangelização e catequese, prolongados no tempo e segundo um ritmo e um método adequados às diferentes circunstâncias das pessoas e das famílias em causa.

O caminho feito em grupo é fundamental para a descoberta do sentido comunitário e eclesial da fé, desde que se respeite o percurso pessoal e não se caia na massificação, que é o que de mais contrário há ao verdadeiro acolhimento.

c) “Estar atento aos momentos de perda e de dor, sobretudo aos ligados à doença e à morte, enquanto situações muito significativas a exigir especial cuidado”.

Todas as pessoas em situação de fragilidade merecem um carinho, um acompanhamento e um acompanhamento especiais. Os momentos de sofrimento e de luto inscrevem-se entre aqueles que mais perturbam o bem estar pessoal e familiar, que mais levam a pôr em causa as seguranças da vida, que mais abalam a esperança e que, portanto, mais acompanhamento e proximidade exigem da parte da comunidade humana em geral e da Igreja em particular.

Também neste campo encontramos uma especial solicitude de Jesus por essas pessoas nas páginas do Evangelho. Nas suas longas jornadas, dirigiu-se a todos indistintamente, mas nunca esqueceu os mais vulneráveis da sociedade do seu tempo: os pobres, os doentes, os pecadores, os órfãos e as viúvas, todos os que sofrem independentemente do motivo.

Já os profetas do Antigo Testamento tinham usado abundantemente a linguagem da consolação de Deus que visita, acompanha, acolhe e anima o seu povo mergulhado nas maiores dificuldades e sofrimentos. A expressão forte “consolai, consolai o Meu Povo” (Is 40, 1) resume esse desejo de Deus, que decide enviar o Seu Messias com a missão de consolar os filhos perdidos nas malhas do pecado e da morte.

Jesus assume esta missão profética junto do seu povo na totalidade da sua vida e di-lo de forma explícita: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30).

A Igreja, dando continuidade à missão profética de Jesus, sempre quis estar próxima de todos os homens, nas suas variadas situações, pois tudo o que é humano não pode ser-lhe alheio, como refere o Concílio Vaticano II na Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (Gaudium et Spes, 1).

O Papa Francisco atualizou de forma muito viva esta linguagem profética da Sagrada Escritura, ao dizer: “Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer” (A Alegria do Evangelho, 48).

Nas suas diferentes comunidades e estruturas, a Igreja de hoje não pode passar ao lado destas situações e destes primeiros destinatários do Evangelho, poisJesus apresentou-se como Aquele que vem para salvar os mais débeis no corpo ou no espírito, os pobres num sentido abrangente: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2, 17).

Cada comunidade cristã, sobretudo as unidades pastorais e paróquias devem estar atentas a esta área do acolhimento e desenvolver os meios necessários para corresponder aos desafios do Evangelho. Precisamos de criar ou organizar mais adequadamente a ação pastoral dirigida às pessoas em situação de doença, de pobreza, de luto, ou seja, às que que se encontram em situação de maior vulnerabilidade e são, por isso, os pobres em sentido bíblico.

A PASTORAL DOS DOENTES

A pastoral dos doentes faz parte integrante da vida das comunidades e não pode ser relegada para segundo plano, sob pena de se esquecer parte importantíssima do Evangelho e a solicitude de Jesus por eles.

A pastoral dos doentes tem como protagonistas:

- o sacerdote, como imagem de Jesus o Bom Pastor que não esquece nenhum daqueles que o Pai lhe deu, aquele que proporciona a possibilidade da celebração do Sacramento da Penitência ou da Unção dos Doentes;

- os visitadores devidamente organizados a partir da paróquia ou dos movimentos vocacionados para esse ministério;

- os ministros extraordinários da Sagrada Comunhão que levam o Pão Eucarístico aos que o desejam, tornando-os participantes, a seu modo, da celebração do domingo;

- a família, que acompanha dia a dia, se interessa e promove o acompanhamento espiritual e sacramental dos seus doentes.

A PASTORAL DO LUTO

A pastoral do luto assume cada vez mais um lugar de relevo entre nós, sobretudo se tivermos em conta o individualismo com que se vive em alguns meios mais urbanos, a fragmentação das famílias, o desenraizamento de muitos do contexto familiar e social que seria suporte emocional, espiritual e material nos momentos de perda.

Se no passado não se sentia tanto esta necessidade, sobretudo nos meios tradicionalmente cristãos e rurais, atualmente é uma área em que a Igreja deve investir muitas das suas capacidades. Nesses momentos revelam-se as maiores pobrezas que alguém pode viver e que não consegue enfrentar sozinho.

A criatividade local dirá muito sobre o que fazer e de que modo agir, enquanto Igreja, nessas situações e tendo em conta as especificidades de cada região e situação. Muito do que se pode fazer passa pela valorização desses momentos da vida familiar e pode incluir:

- a criação de grupos da pastoral do luto;

- as visitas às famílias antes e depois do funeral, assim como a presença durante o velório e as exéquias;

- a proposta de momentos de oração litúrgica ou mariana que ajudem a perceber o sentido cristão do mistério da morte e a refazer a esperança a partir da fé;

- a atenção especial a cada pessoa em situação de luto, sobretudo às que se sentem sozinhas ou não têm normal suporte familiar, humano e económico.

O ACOLHIMENTO DAS FAMÍLIAS FERIDAS

O acolhimento das famílias em situação de rutura constitui também hoje uma área de grande importância, uma vez que as separações e divórcios, bem como as novas uniões, criam verdadeiras situações de perda e de dor, que atinge pessoas muito diversas, como são os cônjuges, os filhos, os familiares de ambos os lados, a vizinhança e até a comunidade cristã.

A partir da reflexão do Sínodo dos Bispos sobre a Família e com a ajuda da Exortação Apostólica do Papa Francisco “A Alegria do Amor”, estamos todos mais despertos para este tema e a Igreja sente que o acolhimento às pessoas e famílias nestas situações é tarefa à qual não pode renunciar.

“Embora não cesse jamais de propor a perfeição e convidar a uma resposta mais plena a Deus, «a Igreja deve acompanhar, com atenção e solicitude, os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e extraviado, dando-lhes de novo confiança e esperança, como a luz do farol dum porto ou duma tocha acesa no meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota ou estão no meio da tempestade». Não esqueçamos que, muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha” (A Alegria do Amor, 291).

Entre os capítulos a desenvolver pelas equipas paroquiais da pastoral da família, há de estar também esta atenção aos membros das famílias desfeitas ou em segunda união, na certeza de que todos são convidados à fé e ao amor de Deus. Procurarão seguir os caminhos indicados pelo Capítulo VIII da Exortação Apostólica “A Alegria do Amor” dando o seu contributo para acompanhar, discernir e integrar as pessoas nas suas fragilidades familiares.

O ACOLHIMENTO DAS FAMÍLIAS NOVAS

A realidade do casamento está, hoje, rodeada de grandes dificuldades, que levam muitos a não querer casar, outros a adiar o casamento e muitos a recear seriamente o futuro da família.

De entre as questões mais relevantes, salientamos algumas de caráter sócio-económico: a formação académica prolonga-se no tempo; é difícil encontrar emprego com caráter de estabilidade e que forneça condições de uma razoável segurança quanto ao futuro; não é simples resolver a questão da habitação. A par disso, há também uma questão cultural, que tem a ver com os valores assimilados pela juventude e que leva muitos a fecharem-se no seu pequeno mundo materialista e egoísta deixando-os sem capacidade de partilharem a sua vida e de estabelecerem laços duradoiros.

As famílias novas, que nascem do amor e de um ato de coragem e entrega dos esposos, têm pela frente um mundo de surpresas e problemas, para os quais nem sempre estão suficientemente alicerçadas. Precisam do estímulo, do testemunho e até da ajuda das famílias de origem, da comunidade cristã e da sociedade.

A Igreja deve cultivar uma atitude de verdadeiro acolhimento das famílias novas com o envolvimento de todas as suas estruturas. A preparação para o matrimónio dos casais cristãos tem uma importância decisiva, mesmo contando com as circunstâncias muito diversas em que os noivos se apresentam. A celebração do matrimónio constitui um momento marcante da vida das novas famílias e deve realizar-se num verdadeiro clima de fé e em ambiente festivo para o qual muito contribuem todos os intervenientes, inclusivamente os membros da comunidade cristã. Os primeiros anos da vida familiar hão de ser objeto de um acompanhamento próximo e fraterno por parte da comunidade cristã, sempre no respeito pela liberdade dos esposos.

Uma vez que as famílias novas são as mais sujeitas à mobilidade territorial, as comunidades cristãs hão de estar particularmente atentas às que chegam, a fim de poderem oferecer um acolhimento humano e cristão, que favoreça a melhor integração e ajude a superar as dificuldades próprias dos desenraizamentos humanos, geográficos, culturais e religiosos.

O ACOLHIMENTO DOS POBRES

A Igreja tem já uma longa história de acolhimento dos pobres, que ocupam um lugar privilegiado no coração de Deus, segundo o ensino da Sagrada Escritura e a atitude de Jesus que também “se fez pobre” (2 Cor 8, 9).

Como recordou o Papa Francisco, “cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo” (A Alegria do Evangelho,187).

São muitas as formas antigas de pobreza material e espiritual, às quais se juntam as novas formas de pobreza e exclusão das sociedades modernas. A Igreja precisa, pois, de estar atenta e ouvir o clamor dos pobres, que são pessoas humanas, que fazem parte das comunidades cristãs ou estão excluídas delas. Tradicionalmente, a prática das obras de misericórdia corporais e espirituais resume os traços fundamentais da ação da Igreja neste campo, a que é urgente dar continuidade, tendo em conta as particularidades da situação atual e as necessárias adaptações.

Renovo, agora, o veemente desafio do Evangelho e do Magistério Pontifício pedindo a todas as comunidades cristãs que intensifiquem e aprofundem um acolhimento mais humano, mais fraterno, mais solidário e mais misericordioso aos pobres. Esta é já uma grande preocupação e uma realidade bem patente na ação da Igreja, mas todos podemos fazer mais e melhor, começando pela decisão de inserir este tema nos nossos planos pastorais, nos seus objetivos e nas suas estratégias.

As instituições eclesiais que têm por vocação específica cuidar dos pobres, procurarão avaliar as suas motivações, as suas opções e os seus métodos, a fim de cuidarem primorosamente da matriz cristã da sua ação que, para além da solidariedade humana, inclui sempre o cuidado espiritual e o anúncio do Evangelho como a “primeira caridade” (A Alegria do Evangelho, 199).

Aproveito esta oportunidade para agradecer às paróquias, unidades pastorais, Centros Sociais Paroquiais, Caritas Diocesana, Santas Casas da Misericórdia, Conferências de São Vicente de Paulo, grupos sócio-caritativos e outras pessoas e instituições o muito que fazem, frequentemente com escassos meios materiais e humanos, mas movidos pela verdadeira caridade.

CONCLUSÃO

Em comunhão com a Igreja Universal, a Diocese de Coimbra tem pela frente o grande desafio de se tornar Igreja mais firme na fé, mais coesa internamente, mais aberta, acolhedora e facilitadora de processos de integração cada vez mais plena.

Os dois dinamismos que este ano pastoral procuraremos valorizar, celebrar e acolher, são complementares e indissociáveis, apontando-nos para duas dimensões da vida de fé da Igreja.

Celebrar remete-nos para a alegria de viver e acreditar, bem enraizados em Cristo, como Igreja em comunhão, firme na fé, na esperança e no amor, que permanece em Cristo e se alegra com a sua presença. Esta Igreja tem por modelo a comunidade cristã em que todos eram assíduos ao ensino dos apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações, segundo a narração dos Atos dos Apóstolos (cf At 2, 42).

Acolher remete-nos para a dimensão missionária, para o anúncio da Boa Nova como identitária da Igreja, que se sente impelida a sair e a não guardar para si o tesouro que leva em vasos de barro. Esta Igreja tem por modelo a figura do pai rico de misericórdia que não espera que o filho perdido regresse, mas ele mesmo se põe a caminho para ir ao seu encontro, para o acolher e o receber em sua casa.

A Igreja tem por vocação ser a casa de todos, ser a porta que conduz a humanidade a Deus, por meio da fé, e à salvação realizada por meio de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Toda ela, nos seus membros, nos seus meios humanos e materiais, na fidelidade ao Espírito Santo, há de ser cada vez mais serva de Deus e serva dos homens.

Somos convidados a celebrar com alegria os mistérios da fé e a acolher com amor a humanidade, nas suas alegrias e dores. Não ficaremos fechados, à espera que venham ao nosso encontro, mas sairemos de coração aberto com a Palavra que dá vida nos lábios e com as mãos disponíveis para mostrar ao mundo a grandeza de Deus, que nos ama infinitamente.

Aceitamos o desafio evangélico de mudar de atitude eclesial a fim de cumprirmos o mandato que nos foi deixado por Jesus, para este lugar e este tempo que nos foram dados como lugar e tempo de graça.

Caminha connosco a Virgem Santa Maria, a cuja proteção consagramos a nossa querida Diocese de Coimbra, para que a ajude com a sua proteção materna a celebrar e a acolher.

Coimbra, 16 de agosto de 2018
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra


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