SANTUÁRIO DE FÁTIMA - CONGRESSO TEOLÓGICO-PASTORAL 2013
NÃO TENHAIS MEDO
CONFIANÇA, ESPERANÇA, ESTILO CRENTE
FÁTIMA – LUGAR E MENSAGEM DE ESPERANÇA PARA O MUNDO
1. INTRODUÇÃO
Fátima é uma palavra carregada de futuro, por incidir sobre três questões fundamentais: Deus, a salvação do homem, a possibilidade da esperança fundada na fé.
Perde-se na noite dos tempos a origem da pequena localidade, Fátima, topónimo provavelmente com conotações islâmicas, nascidas num período de dominação social, política e religiosa historicamente controverso e marcado por fortes divergências doutrinais e confessionais, mas sempre no quadro da afirmação de Deus e da fé sobrenatural.
Na cultura da suas gentes, se gentes aqui havia, Fátima foi sempre cristã no coração, pois a fé, quando bem enraizada penetra até à medula dos ossos, vai até às entranhas, torna-se fogo que arde sem consumir e calor que aquece mas não queima.
De uma forma ou de outra, o nome Fátima, no passado remoto por umas razões, e no passado mais próximo, por outra ordem de razões, é portador de uma forte conotação com a fé sobrenatural.
No tempo presente, e após as parições de 1917, tornou-se lugar de atração para católicos de todo o mundo, vindos numa atitude de confissão esclarecida da fé ou apenas movidos por uma vaga noção do seu conteúdo e das suas implicações.
Tornou-se igualmente lugar de passagem para muitos buscadores de Deus, pessoas que se interrogam acerca da vida, do princípio e do fim, do sofrimento e da morte, que ainda não chegaram ao conhecimento da fé.
Chegam igualmente os agnósticos e ateus, mais ou menos militantes, numa perspetiva crítica e à procura de reforçar as suas convicções. Embora se não conheçam as dimensões do fenómeno, sabe-se que visitam Fátima grupos de pessoas ligadas a várias correntes filosóficas, a movimentos humanistas dos mais variados.
O facto mais relevante é que Fátima evoca em todos estes contextos e para todas estas pessoas a questão do sobrenatural, quer aceite, quer negado, com o qual se estabelece uma relação no sentido da fé cristã ou de uma realidade religiosa no seu sentido mais genérico.
No contexto da história do Ocidente, da Europa e de Portugal em particular, para compreender o alcance do significado religioso de Fátima, temos de recordar a matriz judaico-cristã da nossa cultura. Judaísmo e cristianismo, são as duas etapas da mesma revelação sobrenatural de Deus, de cuja cultura somos agora herdeiros e foram, ao mesmo tempo, o húmus em que germinou o islamismo. Fátima tem esta particular vocação de ser lugar que evoca o sobrenatural e a dimensão religiosa do ser humano; evoca claramente a fé em Deus, sempre dentro do contexto da confissão do monoteísmo; pelo conteúdo da mensagem, Fátima é lugar de profissão de fé em Deus, Santíssima Trindade, o Deus revelado por Jesus Cristo.
Neste sentido, Fátima não é somente um lugar, mas é uma mensagem, cuja caraterística fundamental é a referência a Deus. Mesmo sem sermos providencialistas podemos facilmente aceitar que o lugar em que se passaram os acontecimentos fundantes narrados pela história das aparições do Anjo e de Nossa Senhora não é resultado de uma qualquer acaso de Deus ou acaso dos homens.
Com o devido respeito pelas distâncias que separam a história bíblica da história de Fátima, podemos dizer que, neste como em muitos outros pormenores, há uma coincidência notória de tipologias literárias, narrativas e históricas.
Os topónimos bíblicos não surgem ao acaso, mas são significativos do ponto de vista da mensagem que está em causa em cada uma das situações. Mesmo quando isso não acontece antecipadamente, isto é, quando o nome da localidade não exprime algo do acontecimento de fé e revelação ali realizado, o autor sagrado refere a mudança do nome da povoação para que passe a dizer o núcleo central da mensagem transmitida. Segundo o texto bíblico, o Senhor deu ao lugar onde foram confundidas as línguas e dispersa a humanidade, o nome de Babel (cf. Gn 12, 9); o lugar onde Jacob sonhou com a casa de Deus, que antes se chamava Luz, passou a chamar-se Betel (literalmente casa de Deus) (cf. Gn 28, 19).
Do mesmo modo, o nome das personagens bíblicas está intimamente ligado ao acontecimento revelador no qual estão implicadas; não raro se propõe a mudança do nome próprio de alguém envolvido no processo revelador, para que exprima de um modo mais evidente e eficaz a nova realidade a que fica associado. Segundo o texto bíblico, o Senhor deu à mulher o nome de Eva por ser a mãe de todos os viventes (cf. Gn 3, 20), deu ao homem o nome de Adão, por ter sido tirado da terra (cf. Gn 2, 7) e Jacob passou a chamar-se Israel por ter combatido contra Deus e contra os homens e ter conseguido resistir (cf. Gn 32, 29).
O lugar específico das aparições de Nossa Senhora, a Cova da Iria, parece estar ligado com a etimologia grega, da palavra paz, independentemente de a origem do topónimo poder ter outros contornos difíceis de esclarecer. Não deixa de ser significativo que o lugar onde se pronuncia uma mensagem de paz para o mundo em tempo de guerras atrozes, seja ele mesmo abrigo de paz. Mesmo que nunca tivesse sido usado neste sentido e com esta conotação, o facto é que, a partir das aparições, passou a sê-lo e com toda a propriedade.
Ao olhar para Fátima, lugar e mensagem, e para o desnível existente entre a dimensão do lugar e o alcance da mensagem, parece sempre adequado parafrasear a expressão bíblica de Mt 2, 6, que cita Mq 2, 1, para exaltar a importância universal da pequena cidade de Belém, donde sairá o Príncipe que vai apascentar o Povo de Israel: e tu, Fátima, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Portugal e do mundo, porque de ti vai sair a Rainha da Paz, que há-de conduzir a humanidade no caminho para Deus.
Entre as muitas realidades que surpreendem em Fátima, encontram-se as seguintes, porventura das mais notórias: a desproporção entre a dimensão particular do lugar e o alcance universal da mensagem; a insignificância objetiva das testemunhas relativamente à grandiosidade do acontecimento testemunhado; a pobreza dos meios em relação com a riqueza transmitida; a simplicidade das palavras usadas nas comunicações, comparada com a complexidade do conteúdo transmitido; a pequena quantidade de intervenientes no acontecimento fundador inicial e a massa imensa de posteriores receptores. Em Fátima tudo parece funcionar à base desta forma bem expressiva, que é o uso do contraste, do desnível ou da desproporção entre os diferentes elementos em causa.
Este artifício de comunicação, além de ser rico na expressão, ajuda a distinguir entre os meios humanos utilizados para receber e transmitir uma mensagem e a origem da própria mensagem, que é sobrenatural.
Também nisto há um paralelismo muito claro com a linguagem bíblica: enquanto os grandes acontecimentos salvíficos, como é o caso da ressurreição de Jesus de entre os mortos, são comunicados pelos meios humanos mais débeis, algumas mulheres (cf. Mt 28, 8), a grande mensagem de Fátima, uma mensagem vinda do Céu, de significado essencial para a humanidade e de alcance universal, é comunicada por três crianças de tenra idade, praticamente analfabetas e sem acesso aos meios de comunicação de massa ou a qualquer máquina de propaganda ou meio de persuasão.
2. O ACONTECIMENTO FUNDANTE DE FÁTIMA, CONTEXTO E SIGNIFICADO
2.1. “Não há Deus” (Sl 14, 1)
São muitos os estudos relativos ao contexto económico, social, político, cultural e religioso em que se deu o acontecimento fundador de Fátima. No primeiro quartel do séc. XX, Portugal vivia um dos períodos mais críticos da sua história, porque o ponto alto de uma transformação que já se vinha a verificar desde longa data. Um dos aspetos mais significativos tem a ver com a mudança de atitude em relação à fé católica e à Igreja. Embora de modo diferente, por ser um país periférico, Portugal acompanha um pouco do que se passa em toda a Europa, mas com uma particular acentuação na Europa Central e de Leste.
A revolução republicana de 1910 eivada de ideologias marcadamente laicas constitui o ponto alto de uma onda que há muito se vinha a formar nos meios cultural e socialmente progressistas. Embora não sejam o espelho da atitude e do pensamento da maioria ou da grande massa portuguesa, acabam por influenciar toda a sociedade e sobretudo os meios e pessoas mais influentes no destino da Nação.
De um modo explícito temos, porventura, pela primeira vez, pelo menos de forma tão clara, a afirmação do triunfo do laicismo ateu contra a Igreja Católica, que era praticamente a única expressão confessional e religiosa entre nós. Apesar de sabermos que, em primeiro lugar, está em causa uma relação já muito degradada da sociedade civil com a Igreja, não podemos ignorar que se trata também da manifestação de uma atitude nova face à confissão da fé em Deus.
Irrompe em Portugal uma verdadeira vaga de ateísmo, forjado ao longo de séculos de cientismo, racionalismo, positivismo e materialismo que parece, pelo menos a alguns mais entusiastas, ser imparável. Recorde-se a célebre declaração atribuída a Afonso Costa acerca erradicação do Catolicismo em Portugal no espaço de três gerações.
Se o que se passa em Portugal constitui apenas uma gota de água no grande oceano da Europa, o marxismo instituído como inspirador de um regime político-social na Rússia do pós-revolução tinha uma plano bem mais ousado e meticuloso para servir os interesses de um ateísmo teórico e prático cada vez mais pujante, que deveria incarnar num sistema económico, político e social dominante.
O acontecimento fundador de Fátima surge, portanto, num contexto muito particular, que podíamos caraterizar socorrendo-nos da linguagem bíblica do Sl 14, 1, que reproduz a peremptória afirmação da insensatez personificada, “não há Deus”, e se contrapõe à voz à grande máxima sapiencial, segundo a qual “o temor do Senhor é o princípio da Sabedoria” (Pr 1, 7).
O início do séc. XX constitui um dos muitos momentos históricos em que se põe em causa Deus, a Sua existência ou pelo menos a Sua relação com o Universo e com o Homem. Enquanto noutras épocas da história se tratava de uma hipótese normalmente de caráter especulativo inserida no processo de procura da verdade, agora tratava-se de uma afirmação conclusiva posta inclusivamente na boca dos que se tinham por sábios, pervertendo assim o conceito tradicional de sabedoria; enquanto noutras mundividências se tratava sobretudo de uma questão de idolatria, que consistia em forjar outros deuses que substituíam o Deus Único e Verdadeiro, agora tratava-se de uma negação da existência da própria Divindade e, portanto, de uma radical mudança relativamente à compreensão do Homem.
Duas são as consequências mais nefastas desta nova insensatez, agora apresentada como “sabedoria”: a primeira consiste em o Homem se extraviar e perverter, praticar ações corruptas e abomináveis, e deixar de fazer o bem (cf. Sl 14, 1-2); a segunda consiste em deixar de procurar a Deus (cf. Sl 14, 2). Trata-se, no fundo, de uma ateísmo prático, coroado por um ateísmo teórico: viver como se Deus não existisse e declaradamente negar a existência de Deus.
Na Constituição sobre a Igreja no Mundo Atual, ao debruçar-se sobre a realidades que mais afetam o Homem, o Concílio Vaticano II declara que “o ateísmo deve ser considerado entre os factos mais graves do tempo atual” (GS 19). Explica depois a razão de ser desta afirmação, quando diz: “se faltam o fundamento divino e a esperança da vida eterna, a dignidade humana é gravemente lesada, como tantas vezes se verifica nos nossos dias, e os enigmas da vida e da morte, do pecado e da dor, ficam sem solução, o que frequentemente leva os homens ao desespero” (GS 21).
Deste modo o Concílio sintetiza aquilo que à Igreja aparece como o maior drama do mundo atual e, em última análise, a questão mais séria que o Homem enfrenta naquele momento crucial da história do início do séc. XX, e que continuará presente na história subsequente, nos nossos dias e, com certeza, no futuro.
Nesse sentido, Bento XVI resume aquilo a que podemos chamar o drama do mundo moderno, o homem sem Deus, dizendo: “há uma forte corrente de pensamento laicista que deseja afastar Deus da vida das pessoas e da sociedade, lançando as bases e tentando criar um "paraíso" sem Ele. Mas a existência ensina que o mundo sem Deus se converte num "inferno", onde prevalece o egoísmo, as divisões nas famílias, o ódio entre as pessoas e os povos, a falta de amor, alegria e esperança”(Mensagem de Bento XVI para a Jornada Mundial da Juventude 2011).
O acontecimento fundador de Fátima dá-se num mundo que nega a fé em Deus e que, por isso, perde a razão da esperança, duas realidades intrinsecamente ligadas, como esclarece Bento XVI na Carta Encíclica Spe salvi: “Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isso significa receber esperança” (SS 3).
2.2. “Meu Deus, eu creio...” (1ª aparição do Anjo)
Ao interrogarmo-nos sobre a razão mais profunda que está na origem do acontecimento Fátima, podemos voltar ao Salmo 14, 2, que diz: “Do céu, o Senhor olhou para os seres humanos, a ver se havia alguém sensato, alguém que ainda procure a Deus”. Usando esta linguagem bíblica, podemos pensar com o salmista em Deus que se debruça do alto Céu e vê uma humanidade perdida e entregue a si mesma, a caminho de uma ruina inevitável e sem esperança.
Decide intervir, pois a esperança da salvação continua a existir e os seus filhos perdidos podem reencontrar-se. “Quem dera que viesse de Sião a salvação para Israel! Quando o Senhor reconduzir os cativos do seu povo, Jacob vai rejubilar e Israel há-de alegrar-se” (Sl 14, 7). Segundo o Salmo, a esperança é possível e vem de Sião, isto é, de Deus, para todo o povo de Israel, figura do Novo Povo de Deus, reunido em Cristo.
Partindo da mesma linguagem bíblica, podemos pensar no acontecimento Fátima como consequência desse olhar de Deus para os seres humanos (cf. Sl 14, 2), que O leva a intervir por meio do Anjo, Seu Mensageiro e de Maria, a Senhora da Mensagem.
O cerne de toda a mensagem de Fátima é, sem dúvida, a negação de todas as formas de ateísmo e a profissão de fé em Deus como o caminho do Homem e única possibilidade de esperança, ou seja, a negação da insensatez e a afirmação da sabedoria.
As três aparições do Anjo constituem uma enérgica afirmação de Deus Santíssima Trindade e da salvação realizada por meio do sacrifício de Jesus Cristo, que oferece o Seu Corpo e o Seu Sangue. Trata-se, portanto, da afirmação da possibilidade e do fundamento da esperança, que o Homem estava na iminência de perder, caso prosseguisse no rumo traçado já desde longa data e agora a atingir o seu ponto mais elevado.
As seis aparições de Nossa Senhora têm como pano de fundo a fé cristã e a centralidade de Deus na vida dos Pastorinhos e no seio das suas família; repropõem os caminhos evangélicos da penitência e da oração, isto é, da conversão, como sinais da autenticidade da fé professada e vivida.
As posteriores revelações feitas à Irmã Lúcia pretendem centrar a Igreja e o Mundo no mistério da redenção humana por meio do mistério pascal de Jesus Cristo, morto e Ressuscitado, o Salvador de toda a humanidade e o sinal da graça e da misericórdia de Deus para com todos os seus filhos perdidos pelo pecado.
Ao ensinar a oração aos Pastorinhos na primeira aparição, o Mensageiro celeste repropõe Deus e contraria claramente a pretensa sabedoria humana, nega o ateísmo e os novos paladinos da antiga expressão bíblica do Salmo 14, “não há Deus”.
“Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos” é uma oração concisa e incisiva que se contrapõe à expressão do Salmo e à ideologia que grassa em Portugal e na Europa, segundo a qual não há mais lugar para Deus se queremos salvar o Homem.
À negação de Deus expressa pela máxima bíblica “não há Deus” ou pela dos filósofos “ Deus morreu”, corresponde a solene profissão de fé: “meu Deus, eu creio”; aos ídolos criados pelo Homem, fechado em si mesmo, corresponde a adoração do Deus Único e Verdadeiro: “adoro”; às esperanças vãs fundadas na sabedoria e na razão humanas, elevadas à categoria de absolutas, corresponde a esperança fundada na sabedoria de Deus: “espero”; à perversão do Homem longe de Deus, que pratica ações corruptas e abomináveis sem poder fazer o bem, corresponde o amor a Deus e aos outros, segundo o mandamento bíblico: “amo-vos”.
3. CRISTO E A SUA SALVAÇÃO, NO CENTRO DA MENSAGEM DE FÁTIMA
“Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4). Esta declaração solene da Primeira Epístola a Timóteo concentra em si todo o grande desejo salvífico de Deus, a abertura para toda a esperança do homem e a razão de ser da incarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
“Por nós homens e para nossa salvação desceu dos Céus... padeceu, foi crucificado, morto e sepultado... ressuscitou ao terceiro dia”, diz a formulação do Credo. No fundo, todo o plano de Deus tem por objetivo a salvação da humanidade e toda a história da revelação é uma história de salvação.
É dentro deste quadro de referência que tem sentido falar de revelações particulares, que envolvam a iniciativa de Deus e se concretizem por meio das mediações que são os seus mensageiros, os Anjos, ou a sua Mãe, Nossa Senhora, e é dentro deste quadro que encontramos a razão de ser das aparições de Fátima.
Frequentemente as interpretações mais marcadamente devocionais e têm dado uma visão superficial e incompleta do fenómeno Fátima, quando o apresentam como um acontecimento em si mesmo, desligado do contexto teológico, eclesial, cristológico e salvífico em que se insere. Fixar-se em temas isolados com intentos moralistas e pietistas, como os temas da adoração, contemplação, penitência, sacrifício, oração, sofrimento, ofensas, coração cercado de espinhos, guerra, Rússia e seus erros, como em qualquer um dos outros temas, gestos e sinais da revelação privada de Fátima, só tem sentido dentro de uma compreensão harmoniosa e global da teologia que lhe está subjacente e da finalidade salvífica que está na sua origem.
No Comentário Teológico à Terceira parte do Segredo de Fátima, o Cardeal J. Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, depois de distinguir entre revelação pública e revelações privadas, esclarece que “a revelação privada é um auxílio para esta fé e manifesta-se credível precisamente porque faz apelo à única revelação pública”. E depois acrescenta: “o critério para medir a verdade e o valor duma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Quando se afasta d’Ele, quando se torna autónoma ou até se faz passar por outro desígnio de salvação, então ela certamente não provém do Espírito Santo” (Congregação para a Doutrina da Fé, A Mensagem de Fátima (o Segredo), Paulus, Apelação, 2000, p. 47-48).
Como todas as outras revelações privadas, a revelação de Fátima orienta-se para “o próprio Cristo” e está ao serviço do “desígnio de salvação”; como autêntica revelação privada, ela constitui “um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são, para todos, o caminho permanente da salvação” (A Mensagem de Fátima [o Segredo], p. 49).
3.1. Centralidade de Jesus Cristo no seio da Santíssima Trindade, segundo a Mensagem de Fátima
A dimensão trinitária da mensagem de Fátima está sempre presente, mas aparece de forma mais explícita na terceira aparição do Anjo, quando ensina aos Pastorinhos a oração à Santíssima Trindade, centrada em Cristo Eucarístico: “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-vos profundamente e ofereço-vos o Preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo”.
Logo a seguir, o Anjo dá-lhes a comunhão do Corpo e do Sangue do Senhor e diz: “Tomai e bebei o Corpo e Sangue de Jesus Cristo” (Memórias da Irmã Lúcia, I, Secretariado dos Pastorinhos, Fátima, 10ª edição, 2005, p. 79).
Trata-se da afirmação clara da centralidade do mistério pascal de Jesus Cristo, do seu sacrifício redentor, da entrega do seu Corpo e Sangue pela salvação dos homens e da Eucaristia, memorial da sua morte e ressurreição.
É sobretudo nas aparições do Anjo de 1916 e na visão de Tuy de 1929 que encontramos as maiores referências à Santíssima Trindade. Num caso como noutro, parte-se da centralidade de Cristo na cruz, como revelador do mistério de Deus e do mistério do Homem e o fundamento da nossa esperança.
Na terceira aparição do Anjo o ponto fulcral é a adoração a Deus Santíssima Trindade, expressa por meio do gesto de prostração tipicamente bíblico, acompanhado pela tríplice repetição da oração: Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-vos profundamente... A centralidade é a de Jesus Cristo, cujo Corpo e Sangue continua a oferecer-se, que continua a ser ultrajado com sacrilégios e indiferenças e por cujo coração os pobres pecadores têm acesso aos méritos infinitos da conversão.
Na visão de 1929, em Tuy, é precisamente no contexto da adoração do Santíssimo ou na Hora Santa, que acontece a revelação, ou seja, por meio da contemplação de Jesus Cristo na Eucaristia, Lúcia entra em profundidade no mistério da Santíssima Trindade.
Lúcia narra o acontecimento a propósito do pedido de Consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria: “De repente iluminou-se toda a capela com uma luz sobrenatural e sobre o altar apareceu uma cruz de luz que chegava até ao tecto. Em uma luz mais clara via-se, na parte superior da cruz, uma face de homem com corpo até à cinta, sobre o peito uma pomba também de luz e, pregado na cruz, o corpo de outro homem” (Memórias da Irmã Lúcia, I, Secretariado dos Pastorinhos, Fátima, 10ª edição, 2005, p. 195).
3.2. Dimensão salvífica da mensagem de Fátima
Como já foi referido, a finalidade última do acontecimento Fátima é a salvação da humanidade. Na sua condição de revelação privada, está ao serviço do plano salvífico de Deus, objetivo de toda a revelação oficial, pública e definitiva realizada por meio de Jesus Cristo, o centro das Escrituras, Antigo e Novo Testamento.
Enquanto revelação privada, a mensagem de Fátima pode entender-se verdadeiramente como profética no sentido de auxiliar a humanidade “a aplicar a vontade de Deus ao tempo presente e consequentemente mostrar o recto caminho do futuro”, pois a profecia “vem em ajuda da cegueira da vontade e do pensamento, ilustrando a vontade de Deus enquanto exigência e indicação para o presente... O essencial é a atualização da única revelação” (Congregação para a Doutrina da Fé, A Mensagem de Fátima [o Segredo], Paulus, Apelação, 2000, p. 50).
Nas Memórias da Irmã Lúcia são muitas as referências à salvação, tanto de forma explícita como implícita. De um modo particular todo o texto do chamado Segredo de Fátima se constrói à volta desta questão crucial, a ponto de o Cardeal Ratzinger, afirmar que a frase “salvar almas” constitui a palavra-chave da primeira e segunda parte (cf. Congregação para a Doutrina da Fé, A Mensagem de Fátima (o Segredo), Paulus, Apelação, 2000, p. 56).
De facto, no relato da primeira parte do segredo, a visão do Inferno, tudo gira à volta da questão da salvação das “almas dos pobres pecadores”. A própria visão somente se justifica pelo efeito que pretende causar nos Pastorinhos e para fazê-los compreender que o pior que pode acontecer à humanidade é a sua condenação eterna: “vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores... se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas...” (Memórias I, 177).
O resultado é plenamente alcançado, pois eles ficam tão impressionados que, se dispõem a fazer tudo o que puderem para salvar as almas, mesmo que seja preciso sacrificar-se e dar a vida para as livrar daquele fogo inextinguível, como comenta Lúcia a propósito da prima: “A Jacinta tomou tanto a peito os sacrifícios pela conversão dos pecadores, que não deixava escapar ocasião alguma” (Memórias I, 46).
Como remate da visão do Inferno, Nossa Senhora deixou um pedido: “Quando rezais o terço, dizei depois de cada mistério: «Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno; levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem” (Memórias I, p 177). Esta oração sintetiza em si mesma o objetivo fundamental das aparições e da mensagem profética de Fátima: a salvação das almas, a preservação do fogo do Inferno, expressões que, provindo da linguagem da tradição doutrinal cristã, enunciam o universal desejo salvífico de Deus.
A segunda parte do segredo tem por conteúdo o pedido de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria e a comunhão reparadora nos cinco primeiros sábados. O que está em causa é igualmente a salvação das almas, embora agora entendida na sua dimensão terrena, o fim da guerra, da fome e das perseguições à Igreja e ao Santo Padre, fruto dos erros espalhados pelo mundo, e um tempo de paz.
A terceira parte do segredo de Fátima, somente dada a conhecer ao mundo a 13 de Maio de 2000, apesar de ter sido revelada em 1917 e escrita pela Irmã Lúcia em 1944, tem como palavra-chave, no dizer do Cardeal Ratzinger, “o tríplice grito: «Penitência, Penitência, Penitência!»” (Congregação para a Doutrina da Fé, A Mensagem de Fátima (o Segredo), Paulus, Apelação, 2000, p. 56).
Trata-se de voltar ao convite de Jesus no início do seu ministério público, que insiste na necessidade de penitência como sinal de conversão, tal como refere o Evangelho: “Fazei penitência e acreditai no Evangelho (Mc 1, 15). Por outro lado, a penitência é um sinal de que o homem está aberto à conversão a Deus, disponível para aceitar a salvação de Deus e para colaborar com Ele na realização do seu plano salvador.
O final da terceira parte do segredo aponta para Cristo na cruz, donde jorra o sangue dos mártires para regar aqueles que se aproximam de Deus. Esse é o sangue redentor de Cristo ao qual se associam todos os que seguiram o cordeiro e passaram a grande tribulação, para entrar na glória de Deus, na salvação alcançada na morte e ressurreição.
Em muitos outros textos encontramos as súplicas de Nossa Senhora aos Pastorinhos para que rezem e se sacrifiquem muito em favor da salvação das almas: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios, que vão muitas almas para o Inferno por não haver quem se sacrifique e reze por elas” (Memórias I, p. 179). Este é como que um refrão a ser constantemente repetido, por exprimir o essencial da mensagem profética.
4. LUGAR E MENSAGEM DE ESPERANÇA PARA O MUNDO
Em pouco tempo Fátima tornou-se lugar e mensagem de esperança para o mundo porque explicitou e atualizou a revelação bíblica definitivamente realizada por Jesus Cristo, com a sua palavra e a sua vida.
Inicialmente foi motivo de esperança para os Três Pastorinhos, que perderam o medo do futuro e não desejavam outra coisa senão estar em Deus e permanecer na sua luz por toda a eternidade. Depois, tornou-se caminho de acesso à esperança cristã para uma multidão incontável dos quatro cantos do mundo, que viram renascer a certeza de que serão salvos pela invocação do nome de Deus, graças ao sacrifício de seu Filho Jesus Cristo.
A linguagem utilizada para transmitir a esperança é contextualizada num tempo e numa cultura humana e religiosa muito concretos; tem a marca notória da capacidade intelectual própria das crianças de uma região isolada e pouco desenvolvida; socorre-se inclusivamente da experiência quotidiana de vida dos três interlocutores, com as suas seguranças, incertezas e medos.
4.1. “Não tenhais medo!” (aparição de Nossa Senhora, em Maio)
As primeiras palavras de Nossa Senhora na aparição de 13 de maio de 1917 são significativas, pois recolhem a experiência humana do medo diante do desconhecido, diante do futuro e até diante de Deus: “não tenhais medo” (Memórias I, p. 173). Recolhem ao mesmo tempo a palavra tranquilizadora de Jesus aos seus discípulos, quando no meio da tempestade do mar da Galileia, símbolo dos medos da vida, estão em risco de se perder e gritam: “salva-nos, Senhor, que perecemos!” Ele responde-lhes: “porque temeis, homens de pouca fé?” (Mt 8, 25-26).
Face à palavra tranquilizadora que lhes assegura que irão para o Céu, os Pastorinhos não parecem os mesmos, perdem o medo. Mesmo diante do anúncio dos sofrimentos que hão-de vir estão confiantes, pois acreditam que a graça de Deus será o seu conforto (Memórias I, p. 174).
A partir daquele momento inspirador de total confiança, o único desejo que têm é ir para o Céu e trabalhar para que todos os pecadores possam igualmente ir para lá. Na fase aguda da doença, quando lhe perguntaram se sofria, Francisco diz: “Bastante; mas não me importa. Sofro para consolar a Nosso Senhor; e depois, daqui a pouco , vou para o Céu!” (Memórias I, p. 162). Do mesmo modo, Jacinta parece ter perdido todos os medos humanos, quando, já na doença, refere o conteúdo de uma visita de Nossa Senhora: “Disse-me que vou para Lisboa, para outro hospital; que não te torno a ver, nem os meus pais; que, depois de sofrer muito, morro sozinha, mas que não tenha medo; que me vai lá ela a buscar para o Céu” (Memórias I, p. 62).
A acentuação deixa de estar nos medos humanos, tão comuns e tão naturais, pois os Pastorinhos sentem-se polarizados pela confiança na Senhora mais Brilhante que o Sol, que traz uma mensagem de Deus, fonte de toda a esperança da salvação.
4.2. “A guerra vai acabar” (aparição de Nossa Senhora, em Outubro)
A ideia da guerra era aterradora para as crianças que, não sabendo exatamente os seus contornos, a entendiam como um sinal de separação, sofrimento e morte. A experiência de ver partir os homens para terras distantes, ao encontro da guerra, para longe da família e da pátria, sem a certeza de poder voltar, tornava-se um sofrimento insuportável.
Ouvir da boca de Nossa Senhora, na aparição de agosto, que “a guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas” (Memórias I, p. 181), é potenciador de uma esperança sobre-humana.
Nesta guerra aqui referida, a 1ª Guerra Mundial, estavam, de algum modo, representadas todas as guerras e todas as situações de guerra, mais ou menos violentas, mesmo as familiares e locais, sempre causadores de sofrimento e de morte.
A condição para alcançar a paz é a oração e a comunhão com Deus, pois a paz é dom de Deus e fruto da conversão. Poderíamos entender a guerra também na sua acepção mais vasta de falta de harmonia na criação e no homem, afastado de Deus, que nega Deus e pensa poder contar somente com as suas forças. Podíamos retomar a afirmação segundo a qual o homem longe de Deus se degrada e corrompe. A conversão, a penitência e a oração são os sinais de que quer voltar a Deus, fonte de toda a paz.
4.3. “Se se converter, curar-se-á durante o ano” (aparição de Nossa Senhora, em Junho)
As situações de doença física constituem outra das experiências humanas fortes, que facilmente levam à perda da esperança. Como experiências limite, tornam-se um dos temas mais abordados pelos Pastorinhos no diálogo com Nossa Senhora. Lúcia por diversas vezes pede a cura dos doentes: em junho, provavelmente em julho - mês em que não se lembra que pedidos fez, em agosto, em setembro e em outubro.
Alicerçados na confiança em Nossa Senhora e na fé em Deus, vivem a esperança da cura de todos aqueles por quem pedem e, eles mesmos, estão disponíveis para sofrer, desde que seja com Deus.
À pergunta inquietante; “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” (Memórias I, p. 173-174), respondem: “sim, queremos” (Memórias I, p. 174).
Também a conversão é a condição para a cura física. Podemos recordar os sinais miraculosos de Jesus que têm sempre um significado mais vasto, antecipam o perdão dos pecados causadores da doença espiritual e moral. Por meio de Jesus Cristo, vêm de novo aberta a porta da salvação, como decorre da passagem do Evangelho: “Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’?” (Mc 2, 9).
4.4. A conversão da Rússia
Na aparição de julho, após a visão do Inferno, “para onde vão as almas dos pobres pecadores”, Nossa Senhora anuncia que virá pedir a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração e anuncia a sua conversão, se atenderem aos seus pedidos, caso contrário, espalhará os seus erros pelo mundo (cf. Memórias I, p. 177).
Longe de se tratar de uma questão de caráter político, como algumas vezes de modo simplista se entendeu, a conversão da Rússia situa-se bem no centro da mensagem de Fátima, por ter a ver com o lugar de Deus, com a fé e com a salvação.
A Rússia significou até à queda do muro de Berlim, em 1989, o rumo traçado pela humanidade que negava Deus e que instituía o materialismo ateu como regime e objetivo da sociedade contemporânea. Nesse sentido, personificava a negação de Deus e a consequente negação da esperança da humanidade.
Quando o Papa João Paulo II, o homem vindo do Leste, desse mundo onde dominava o referido regime, conheceu a mensagem de Fátima, compreendeu que estava em causa algo de essencial. O seu empenho no desmantelar o regime que vigorava na sua Polónia natal e em todo o Leste Europeu significava colher a oportunidade oferecida por Deus à humanidade através da profecia de Fátima.
Do mesmo modo, quando leu a sua história de Papa da Igreja Católica, não entendia tratar-se de uma questão pessoal nem sequer somente de uma questão institucional. Estava em causa, mais uma vez, o rumo de toda a humanidade, que precisava de um forte embate para que reconsiderasse e visse por onde estava a ir. A Consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria, feita na Praça de S. Pedro, em Roma, a 25 de março de 1984, tinha por base muito mais do que a sua questão pessoal, as dores da Igreja ou o regime político materialista.
Embora consagre “todos os homens, os povos e as nações”, refere-se aos “povos dos quais vós esperais a nossa consagração e a nossa entrega”, incluindo assim a Rússia como símbolo de toda a humanidade a caminhar na mesma perspetiva. Na parte central da oração de Consagração refere-se ao mal enraizado no coração do homem: “Ajudai-nos a vencer a ameaça do mal que tão facilmente se enraíza nos corações dos homens de hoje e que, nos seus efeitos incomensuráveis, pesa já sobre a nossa época e parece fechar os caminhos do futuro!”
Menciona explicitamente a questão da negação de Deus, que está na base desses males: “Da tentativa de ofuscar nos corações humanos a própria verdade de Deus, livrai-nos!” Conclui, referindo-se à redenção de Cristo como caminho de esperança, a palavra final: “Que se revele, uma vez mais, na história do mundo a infinita potência salvífica da Redenção: a força infinita do Amor Misericordioso! Que ele detenha o mal! Que ele transforme as consciências! Que se manifeste para todos, no Vosso Coração Imaculado, a luz da Esperança!” (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima – o segredo, Paulus, Apelação 2000, p. 11-13).
Quando a Terceira parte do segredo de Fátima se refere ao bispo vestido de branco e a outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, juntamente com várias pessoas seculares, que morrem uns e atrás dos outros, atingidos por tiros e setas dos soldados, está certamente a referir-se à perseguição da Igreja ao longo de todo o séc. XX. No entanto, mais do que o facto em si mesmo, o que parece relevante na visão são as causas que estão na sua origem e que, segundo o contexto e tendo em conta as duas outras partes do segredo, parecem ser a corrupção da humanidade que se deixou seduzir pelos erros que a Rússia espelhou pelo mundo, o abandono de Deus (cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, A Mensagem de Fátima – o segredo, Paulus, Apelação 2000, p. 23).
4.5. Graça e misericórdia
A última palavra da história pertence a Deus, Santíssima Trindade: Graça e misericórdia. Esta é a palavra de esperança, que resume a atitude de Deus na relação com o homem pecador, segundo a visão conclusiva da Irmã Lúcia, a coroar toda a mensagem de Fátima, a visão da Santíssima Trindade, no convento de Tuy, em 1929 (Memórias, p. 129).
No mesmo sentido se pode interpretar a expressão de Nossa Senhora: “Por fim o meu Imaculado Coração Triunfará”, associando o triunfo de Maria ao triunfo de Deus sobre o pecado e sobre a morte.
A última palavra pertence à misericórdia de Deus, que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 33, 11). Pela morte de Jesus Cristo, seu Filho, recebemos a graça da salvação, que é maior do que todo o pecado.
A visão de Tuy oferece uma imagem plástica desta palavra definitiva, dizendo: “Suspenso no ar, via-se um cálix e uma hóstia grande, sobre a qual caíam algumas gotas de sangue que corriam pela face do crucificado e duma ferida no peito. Sob o braço direito da cruz estava Nossa Senhora («era Nossa Senhora de Fátima com o seu Imaculado Coração... na mão esquerda, ... sem espada nem rosas, mas com uma coroa de espinhos e chamas...»), com o seu Imaculado Coração na mão... Sob o braço esquerdo, umas letras grandes, como se fossem de água cristalina que corresse para cima do altar, formavam estas palavras: «Graça e misericórdia»” (Memórias I, p. 195).
É esta visão que revela finalmente o sentido último de Fátima e da sua profecia: oferecer, de novo, à humanidade do séc. XX a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo, único caminho para o encontro com o amor de Deus e com a sua oferta de salvação.
5. CONCLUSÃO
Quando no dia 13 de Maio de 2010 o Papa Bento XVI escreve no Livro de Honra do Santuário de Fátima a frase “convertei-vos e acreditai no Evangelho” (convertimini et credite Evangelio), está a resumir o significado de Fátima, enquanto lugar e mensagem de esperança para o Mundo.
Por sua vez, na homilia pronunciada nesse mesmo dia, esclarece: “a fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a sua própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo” (Bento VXI em Portugal, Discursos e Homilias, Paulinas, Prior Velho 2010, p. 76).
Ao longo destas nove décadas, Fátima nunca mais deixou de ser um lugar a apontar para Deus como o caminho da humanidade e como uma mensagem de alcance universal. Apesar de ser uma revelação privada, aponta para a centralidade da mensagem evangélica e, portanto para os fundamentos da esperança cristã. Apesar de situada no tempo, é portadora de um dinamismo intemporal, pois foca, por um lado, Deus a a fé cristã e, por outro, o Homem e a sua salvação no tempo e na eternidade.
Como afirmou Bento XVI, “iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima estivesse concluída”, uma vez que “na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura dos justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui em Fátima” (Bento VXI em Portugal, Discursos e Homilias, Paulinas, Prior Velho 2010, p. 77).
Enquanto esse projeto não estiver concluído, e só o será no fim dos tempos, Fátima continuará a ser lugar e mensagem de esperança para o mundo.
Fátima, 1 de junho de 2010
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra






