«Acompanhar, discernir e integrara fragilidade» ...
NOTA PASTORAL JUBILEU DE SANTO ANTÓNIO E DOS M&Aacut...
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Perante a situação que estamos a viver em todo o mundo, motivada pelo coronavírus COVID-19, apelamos à serenidade e ao incremento da prevenção nos cuidados de higiene. Nesse sentido, convidamos a seguir estritamente as indicações e normas da Direção Geral de Saúde.
Como em situações semelhantes e em sintonia com outras conferências episcopais e dioceses, e para evitar situações de risco, recomendamos algumas medidas de prudência nas celebrações e espaços litúrgicos, como, por exemplo, a comunhão na mão, a comunhão por intinção dos sacerdotes concelebrantes, a omissão do gesto da paz e o não uso da água nas pias de água benta.
I DOMINGO DA QUARESMA - 2020MISSA DO DIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRACAPELA DE S. MIGUEL
Caríssimos irmãos e irmãs!
Damos, hoje, graças a Deus pelo dom que tem sido a Universidade de Coimbra, nos 730 anos da sua fundação. Agradecemos pela multidão imensa de homens e mulheres que, usando as suas capacidades e a sua dedicação, fizeram progredir o conhecimento, a ciência e a sabedoria para elevar o espírito humano e para construir uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais feliz.
A Universidade de Coimbra, além de uma realidade multisecular com um lugar ímpar no panorama do conhecimento em Portugal, é um símbolo da vocação ao desenvolvimento civilizacional como caraterística da pessoa humana. Em áreas como as letras, a teologia, a filosofia, o direito, a medicina, as ciências naturais, as tecnologias e as artes, tem ajudado a comunidade a elevar-se na procura do sentido para a vida e a encontrar melhores formas de realização em cada tempo da história.
Agradecemos a todos aqueles que, munidos de reta intenção e de amor ao seu semelhante, com verdadeiro espírito de serviço e desprovidos de interesses egoístas, puseram e põem a sua vida, a sua inteligência, os seus talentos e o seu trabalho ao serviço do bem comum. O trabalho intelectual, como qualquer outra modalidade de ação, sempre que realizado como caminho para a verdade, constitui um serviço ao próximo, a que podemos chamar caridade.
Faz-nos bem a todos, docentes e a alunos, comunidade académica em geral, interrogarmo-nos acerca do sentido mais profundo do trabalho intelectual, pois ele vai muito para além do desejo imediato de realização pessoal ou da busca de uma honesta sustentação. Somos convidados a ver para além das motivações óbvias e diretas da nossa condição corporal, a dar lugar às motivações espirituais, igualmente constitutivas da nossa identidade. Uma atividade verdadeiramente humana é aquela que aperfeiçoa constantemente a consciência sobre o sentido, a razão de ser, os métodos, a finalidade do que se faz, na fidelidade ao desejo inscrito em nós de buscar o bem de todos.
O Livro do Génesis, portador de uma sabedoria milenar, oferece-nos duas imagens relevantes, que lançam dois fundamentos essenciais para todas as civilizações e de todos os tempos: a da “árvore da vida” e a da “árvore da ciência do bem e do mal”. Ambas se encontram no meio do jardim e entre toda a espécie de árvores de frutos agradáveis à vista e bons para comer.
A primeira é a alusão à vida como dom e como tarefa a cuidar, a preservar, a engrandecer com o auxílio da inteligência e no respeito pela nossa condição de criaturas dignas e amadas pelo Criador. Toda e qualquer ação humana tem por vocação estar ao serviço da vida, prestar um serviço à vida, engrandecer a vida, desenvolver as melhores condições para que a vida de todos seja mais plena e mais feliz, dentro do quadro da natureza harmoniosa e bela, qual reflexo da bondade do Criador.
A segunda é uma alusão à dimensão ética de todo o agir humano. Árvore da ciência do bem e do mal, no sentido de que os atos humanos hão de servir para edificar, aperfeiçoar, desenvolver e elevar a nossa condição. As coisas mais simples e quotidianas ou as mais complexas e extraordinárias, tudo deve concorrer para o maior bem do ser humano e para a maior glória e Deus.
O texto do Evangelho de Mateus, as tentações de Jesus, traz-nos uma exemplificação viva do que significam as escolhas que fazemos no uso do grande dom da nossa liberdade. Nas três referências usadas - o pão para a boca, a confiança na proteção de Deus e dos seus Anjos, e a adoração – há uma forte ambiguidade, que exige adequado discernimento. O pão que mata a fome do corpo não é tudo na vida, a confiança nos Anjos de Deus não pode dispensar ninguém de assumir as suas responsabilidades pessoais, a adoração pode ter um endereço errado quando se desloca do Criador para as coisas criadas.
Todos nos confrontamos diariamente com estas ambiguidades nas escolhas que temos de fazer, tanto nas coisas pequenas como nas grandes. A própria liberdade tem um preço a pagar, que se chama responsabilidade e orientação para o bem e para a verdade, que ultrapassa todos os individualismos escravizantes.
O texto de Mateus, lido no início do tempo da Quaresma e contextualizado na preparação que Jesus faz para assumir a vontade do Pai e levar até ao fim a sua obra de amor, pretende iluminar-nos no caminho da totalidade da nossa vida de pessoas e de cristãos. Leva-nos a confrontarmo-nos sempre com a verdade, com a liberdade, com as motivações, os meios e os fins daquilo que fazemos e dos caminhos que trilhamos.
Tomamos consciência de que à nossa frente está sempre a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal. A liberdade, que constitui a nossa maior grandeza e dignidade, pode ser também a causa da nossa maior ruina pessoal e comunitária, pelo que impende sobre nós a responsabilidade, que lhe está sempre unida.
Quando procuramos os fundamentos do progresso humano e civilizacional, lá encontramos o reto uso da nossa liberdade; quando desejamos conhecer as causas de tantas injustiças, violências e degradações pessoais e sociais, quando buscamos a origem dos retrocessos humanos e civilizacionais, deparamo-nos sempre com o mau uso da nossa liberdade.
Jesus tem lugar na história por muitos motivos: primeiro por ser o Filho de Deus, que nos revelou por palavras e gestos quem é Deus e como é o Deus único e verdadeiro; segundo, por ser livre e por, conduzido pelo Espírito Santo, viver sempre na verdade e na caridade.
Que este tempo santo da Quaresma, símbolo do caminho da nossa vida, nos permita um verdadeiro encontro com a nossa liberdade, com as nossas escolhas, com as nossas motivações. Haverá lugar para reconhecer a graça de caminhos bem andados, mas haverá também lugar para reconhecer escravidões e pecados.
Os caminhos da conversão da inteligência, do coração e da vida estão sempre abertos diante de nós pelo Deus rico de misericórdia que Jesus nos dá a conhecer. Por meio da contemplação, do silêncio e da oração, unidos à partilha e à caridade a que este tempo nos convidam, purifiquemo-nos e abramo-nos à graça que por meio da fé nos há de habitar.
Para a Universidade de Coimbra pedimos a Deus o dom de grandes progressos académicos e que, com o serviço de todos os seus membros, seja cada vez mais um forte contributo para que edifiquemos uma sociedade mais justa, mais feliz e mais livre.
Coimbra, 1 de março de 2020Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra
O Senhor chamou para Si o Padre José Rodrigues Ferreira, faleceu na Casa Sacerdotal de Coimbra, onde passou os últimos anos da sua vida.
O P. José Ferreira nasceu em Mortágua a 17 de Fevereiro de 1933 e foi ordenado sacerdote a 15 de Agosto de 1957 por D. Ernesto Sena de Oliveira.
Depois de ter frequentado o Seminário Menor da Figueira da Foz e o Seminário Maior de Coimbra, exerceu o seu múnus, em:
1957 – Auxiliar do Pároco de Alfarelos
1958 – Auxiliar do Pároco de Miranda do Corvo
03-1958 – Vigário Cooperador de Louriçal
02-1959 – Vigário Cooperador de Taveiro e Ribeira de Frades
10-1959 – Pároco de São Paulo de Frades e Eiras
07-1964 – Pároco substituto de Brasfemes e com trabalho pastoral em Coselhas e Trouxemil
04-1982 – Vigário Cooperador de Espinho e Trezói
10-1982 - Pároco de Espinho, Trezói e Vale de Remígio
01-1977 – Pároco “in solidum” de Eiras, Antuzede, Trouxemil e reitor de Pedrulha
Prestou ainda serviço como assistente à Pastoral Operária.
Apesar de muitas vezes se queixar da saúde física, foi um servidor diligente entregue à Igreja e ao seu Evangelho.; fê-lo com humildade, fé e alegria. Sentimentos que procurou transmitir aos fiéis que lhe estavam confiados e também aos seus colegas no sacerdócio. A parte final da sua vida foi passada no lugar de Barril junto da sua família, aplicando as suas qualidades ao serviço da Igreja e dos outros, incluindo as suas poesias que escreveu e publicou.
Quando a família faltou, recolheu à Casa Sacerdotal de Coimbra onde o Senhor o veio chamar à Sua presença.
O funeral realizar-se-á amanhã, dia 3 de Março, na Igreja de Mortágua, às 15 horas, com a Eucaristia de corpo presente e presidida pelo Bispo de Coimbra Senhor D. Virgílio Antunes seguindo-se a tumulação no cemitério da mesma freguesia.
Paz à sua alma.
MISSA DE QUARTA FEIRA DE CINZAS - 2020
SÉ NOVA DE COIMBRA
Caríssimos irmãos e irmãs!
Iniciamos o tempo santo da Quaresma conduzidos pela palavra do Apóstolo retomada pelo Papa Francisco e proposta de novo a toda a Igreja: “Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus” (2 Cor 5, 20).
Os cristãos hão de ser pessoas que estão constantemente no caminho da reconciliação com Deus, pois sentem que essa é a sua primeira vocação. Vimos d’Ele e não repousaremos enquanto não permanecermos n’Ele, como nos disse de forma magistral S. Agostinho: “criastes-nos para vós, Senhor, e o nosso coração não repousará enquanto não estiver em Vós”.
Não está completo o caminho que nos propõe o Apóstolo quando nos diz: “aproximai-vos do Senhor” (1 Pd 2, 4). Ele aproximou-se de nós por meio de Seu Filho Jesus Cristo e viver a fé, consiste em estarmos sempre decididamente em caminho para nos aproximarmos d’Ele, para que os ramos estejam unidos à cepa e para que no nosso sangue vital circule a seiva do Seu amor.
Corremos sérios riscos de ser cristãos de nome ou de formalidades, podendo o nosso coração e as nossas mais profundas motivações andarem longe d’Ele. A união vital ou comunhão de inteligência de coração e de obras encontram a sua autenticidade no Senhor, em quem vivemos, nos movemos e existimos (cf At 17, 28).
O tempo da Quaresma é o especial tempo de graça que o Senhor nos concede para que nos aproximemos d’Ele com confiança, na amizade e no amor. A reconciliação com Deus é exigente e só se concretiza com o auxílio dos meios que a Igreja nos propõe, de modo especial a oração pessoal, o encontro com a Palavra da Escritura, a celebração da Eucaristia e o Sacramento da Penitência.
Os cristãos não podem permanecer na amizade com Deus sem oração pessoal, aquela que nos faz entrar num diálogo simples, cujo conteúdo é a vida que vivemos, as alegrias e dores que sentimos. Para isso é preciso ter o sentido da vida como oração, vivendo-a no coração de Deus, mas é igualmente necessário tirar tempos diários, mesmo que não sejam longos, para um encontro de exclusividade, no silêncio, na meditação e na contemplação, realidades ao mesmo tempo pacificadoras no meio do turbilhão das ocupações e perturbações quotidianas.
A leitura orante da Palavra de Deus (lectio divina) é meio adequado para nos reconciliarmos com Cristo, pois leva-nos a conhecer Cristo, como nos recordou S. Jerónimo ao dizer que a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo. Não podemos viver em Cristo, numa relação de amizade e confiança se não O conhecemos integralmente, tal como se revelou no encontro com as multidões e com cada pessoa durante a Sua vida pública. Ali, os que O conheceram sentiram-se amados por Ele e tornaram-se Seus discípulos, puseram-se a caminho, pois sentiram pulsar o desejo de estar com Ele, foram transformados, converteram-se, reconciliaram-se com Ele.
A participação na Eucaristia é o lugar maior da reconciliação com Deus porque nos leva ao centro do mistério pascal, nos torna participantes da Sua paixão, morte e ressurreição. Diante da facilidade com que os cristãos prescindem deste encontro semanal com o Senhor, precisamos de reafirmar a nossa certeza de que não há cristão sem Eucaristia, não há Igreja sem Eucaristia e não é possível identificarmo-nos com Cristo sem entrar na comunhão com os seus sofrimentos pela morte e com a sua glória na alegria da Sua ressurreição.
O Sacramento da Penitência é, por excelência, o sacramento da reconciliação do fiel pecador com Deus. Ao longo do caminho surgem inevitavelmente lugares de fraqueza, de desistência, de vitória do mal e de pecado. Como referimos tantas vezes na confissão, pecamos por pensamentos e palavras, atos e omissões. A partir da fé e da certeza do amor de Deus por nós, compreendemos que estar longe da casa do pai devido às nossas escolhas erradas, à debilidade da nossa vontade, à raiz de pecado que se instala nas nossas vidas, ficamos privados da graça da salvação que nos é oferecida. Retomar o caminho, reencontrar a graça, regressar à casa do pai é sempre possível, pois Ele nunca desiste de nós.
No Sacramento da Penitência, que inclui um sério exame de consciência, uma contrita confissão dos pecados e acolher o gesto de absolvição e perdão de Deus por meio da Igreja, além de nos libertar do pecado, fortalece-nos para continuarmos a aproximar-nos do Senhor. Quando os cristãos perdem o sentido do pecado e se habituam aos critérios da cultura reinante, morre no coração o desejo de reconciliarem com o Senhor, perdem a graça para ser sal, fermento e luz no meio do mundo.
A conversão a Deus leva sempre à caridade para com o próximo, que tem de manifestar-se em gestos concretos: estar com os irmãos em todas as situações da vida; ir ao encontro dos mais frágeis, dos pobres e até dos pecadores com um coração semelhante ao de Jesus; partilhar com eles tudo o que se é e algo do que se tem; manifestar, pela presença consoladora o rosto do Pai rico de misericórdia.
A reconciliação com Deus leva-nos a propor caminhos de reconciliação à humanidade dividida por motivos sociais, económicos, raciais ou religiosos.
A reconciliação com Deus leva-nos a estar ao lado dos que precisam de se reconciliar com a própria vida, sobretudo ao lado dos que sofrem e podem chegar à beira do desespero e desejar mesmo não querer continuar a viver.
Que esta Quaresma nos conduza a uma profunda reconciliação com Deus, com a Igreja, com os irmãos, com a vida, com o sofrimento; que ela nos conceda a graça de sermos arautos da conversão, por meio o Espírito que renova todas as coisas. Ámen.
Coimbra, 26 de fevereiro de 2020Virgílio do Nascimento AntunesBispo de Coimbra
MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA A QUARESMA DE 2020
«Em nome de Cristo, suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus» (2 Cor 5, 20)
Queridos irmãos e irmãs!
O Senhor concede-nos, também neste ano, um tempo propício para nos prepararmos para celebrar, de coração renovado, o grande Mistério da morte e ressurreição de Jesus, perne da vida cristã pessoal e comunitária. Com a mente e o coração, devemos voltar continuamente a este Mistério. Com efeito, o mesmo não cessa de crescer em nós na medida em que nos deixarmos envolver pelo seu dinamismo espiritual e aderirmos a ele com uma resposta livre e generosa.
1. O Mistério pascal, fundamento da conversão
A alegria do cristão brota da escuta e receção da Boa Nova da morte e ressurreição de Jesus: o kerygma. Este compendia o Mistério dum amor «tão real, tão verdadeiro, tão concreto, que nos proporciona uma relação cheia de diálogo sincero e fecundo» (Francisco, Exort. ap. Christus vivit, 117). Quem crê neste anúncio rejeita a mentira de que a nossa vida teria origem em nós mesmos, quando na realidade nasce do amor de Deus Pai, da sua vontade de dar vida em abundância (cf. Jo 10, 10). Se, pelo contrário, se presta ouvidos à voz persuasora do «pai da mentira» (Jo 8, 44), corre-se o risco de precipitar no abismo do absurdo, experimentando o inferno já aqui na terra, como infelizmente dão testemunho muitos acontecimentos dramáticos da experiência humana pessoal e coletiva.
Por isso, nesta Quaresma de 2020, quero estender a todos os cristãos o mesmo que escrevi aos jovens na Exortação apostólica Christus vivit: «Fixa os braços abertos de Cristo crucificado, deixa-te salvar sempre de novo. E quando te aproximares para confessar os teus pecados, crê firmemente na sua misericórdia que te liberta de toda a culpa. Contempla o seu sangue derramado pelo grande amor que te tem e deixa-te purificar por ele. Assim, poderás renascer sempre de novo» (n. 123). A Páscoa de Jesus não é um acontecimento do passado: pela força do Espírito Santo é sempre atual e permite-nos contemplar e tocar com fé a carne de Cristo em tantas passoas que sofrem.
2. Urgência da conversão
É salutar uma contemplação mais profunda do Mistério pascal, em virtude do qual nos foi concedida a misericórdia de Deus. Com efeito, a experiência da misericórdia só é possível «face a face» com o Senhor crucificado e ressuscitado, «que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim» (Gl 2, 20). Um diálogo coração a coração, de amigo a amigo. Por isso mesmo, é tão importante a oração no tempo quaresmal. Antes de ser um dever, esta expressa a necessidade de corresponder ao amor de Deus, que sempre nos precede e sustenta. De facto, o cristão reza ciente da sua indignidade de ser amado. A oração poderá assumir formas diferentes, mas o que conta verdadeiramente aos olhos de Deus é que ela escave dentro de nós, chegando a romper a dureza do nosso coração, para o converter cada vez mais a Ele e à sua vontade.
Por isso, neste tempo favorável, deixemo-nos conduzir como Israel ao deserto (cf. Os 2, 16), para podermos finalmente ouvir a voz do nosso Esposo, deixando-a ressoar em nós com maior profundidade e disponibilidade. Quanto mais nos deixarmos envolver pela sua Palavra, tanto mais conseguiremos experimentar a sua misericórdia gratuita por nós. Portanto não deixemos passar em vão este tempo de graça, na presunçosa ilusão de sermos nós o dono dos tempos e modos da nossa conversão a Ele.
3. A vontade apaixonada que Deus tem de dialogar com os seus filhos
O facto de o Senhor nos proporcionar uma vez mais um tempo favorável para a nossa conversão, não devemos jamais dá-lo como garantido. Esta nova oportunidade deveria suscitar em nós um sentido de gratidão e sacudir-nos do nosso torpor. Não obstante a presença do mal, por vezes até dramática, tanto na nossa existência como na vida da Igreja e do mundo, este período que nos é oferecido para uma mudança de rumo manifesta a vontade tenaz de Deus de não interromper o diálogo de salvação connosco. Em Jesus crucificado, que Deus «fez pecado por nós» (2 Cor 5, 21), esta vontade chegou ao ponto de fazer recair sobre o seu Filho todos os nossos pecados, como se houvesse – segundo o Papa Bento XVI – um «virar-se de Deus contra Si próprio» (Enc. Deus caritas est, 12). De facto, Deus ama também os seus inimigos (cf. Mt 5, 43-48).
O diálogo que Deus quer estabelecer com cada homem, por meio do Mistério pascal do seu Filho, não é como o diálogo atribuído aos habitantes de Atenas, que «não passavam o tempo noutra coisa senão a dizer ou a escutar as últimas novidades» (At 17, 21). Este tipo de conversa, ditado por uma curiosidade vazia e superficial, carateriza a mundanidade de todos os tempos e, hoje em dia, pode insinuar-se também num uso pervertido dos meios de comunicação.
4. Uma riqueza que deve ser partilhada, e não acumulada só para si mesmo
Colocar o Mistério pascal no centro da vida significa sentir compaixão pelas chagas de Cristo crucificado presentes nas inúmeras vítimas inocentes das guerras, das prepotências contra a vida desde a do nascituro até à do idoso, das variadas formas de violência, dos desastres ambientais, da iníqua distribuição dos bens da terra, do tráfico de seres humanos em todas as suas formas e da sede desenfreada de lucro, que é uma forma de idolatria.
Também hoje é importante chamar os homens e mulheres de boa vontade à partilha dos seus bens com os mais necessitados através da esmola, como forma de participação pessoal na edificação dum mundo mais justo. A partilha, na caridade, torna o homem mais humano; com a acumulação, corre o risco de embrutecer, fechado no seu egoísmo. Podemos e devemos ir mais além, considerando as dimensões estruturais da economia. Por este motivo, na Quaresma de 2020 – mais concretamente, de 26 a 28 de março –, convoquei para Assis jovens economistas, empreendedores e transformativos, com o objetivo de contribuir para delinear uma economia mais justa e inclusiva do que a atual. Como várias vezes se referiu no magistério da Igreja, a política é uma forma eminente de caridade (cf. Pio XI, Discurso à FUCI, 18/XII/1927). E sê-lo-á igualmente ocupar-se da economia com o mesmo espírito evangélico, que é o espírito das Bem-aventuranças.
Invoco a intercessão de Maria Santíssima sobre a próxima Quaresma, para que acolhamos o apelo a deixar-nos reconciliar com Deus, fixemos o olhar do coração no Mistério pascal e nos convertamos a um diálogo aberto e sincero com Deus. Assim, poderemos tornar-nos aquilo que Cristo diz dos seus discípulos: sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13.14).
Roma, em São João de Latrão, 7 de outubro de 2019, Memória de Nossa Senhora do Rosário.
Franciscus
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