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1. A vida emerge na forma de uma célula. É fruto de uma
vocação que começa com o início da existência, anterior, na
vontade do Criador, à própria consciência dos pais biológicos,
incapazes de criarem a vida e de serem seus autores. Esta
célula, fruto da união de amor entre um homem e uma mulher,
aloja-se no seu espaço natural, intra-uterino, mas não se
dilui nem se confunde com o líquido envolvente. É preenchida
pelo ADN, capaz de se reproduzir a si própria,
subdividindo-se: 2 / 4 / 8 / 16 / 32… Esta célula esférica
começa e aprende a conhecer o “mundo” à sua volta. É uma
célula viva que “negoceia”, com o exterior, a sua própria
sobrevivência. Porque tem a vocação de viver e de se
multiplicar, subdivide-se sem morrer, dando origem sempre a
células vivas, a constituir um organismo vivo (podem ser mais
do que um – gémeos).
O ser humano
procede de uma única célula. Cada um de nós já foi, um dia,
uma única célula, isolada, irrepetível, habitando um meio
líquido… Em 9 meses, esta única célula percorre, no tempo,
o que a espécie humana percorreu em 9 milhões de anos, uma vez
que a espécie humana foi sempre evoluindo ao longo destes
milhões de anos. O zigoto, desde a fecundação, imediatamente
desde a união do espermatozóide com o óvulo, contém toda a
informação genética do ser humano que vai nascer, na história
actual, precisamente no hoje do desenvolvimento
civilizacional.
O ser humano
começa por ser tão simples (uma única célula!) que somente se
vê ao microscópio. Aqui, e com estes meios técnicos, pode
fazer-se a primeira apresentação do corpo do homem. Sendo um
corpo humano, tem toda a dignidade de um corpo humano… Em
qualquer estádio em que se considere o seu desenvolvimento, é
um corpo humano, com toda a informação genética do ser humano.
Mais nada do exterior vai intervir para acrescentar, melhorar
ou modificar esta realidade…
Com toda a
evidência científica, nunca pode dizer-se que o “respeito”
devido à pessoa humana tem a ver com o “tamanho” ou a idade do
seu corpo…
2. Quanto à animação do ser humano deve dizer-se que, no
momento em que está constituída a identidade genética
(concepção), está constituída a alma “potencialmente”. Quer
isto dizer que a “alma” existe no ser humano desde o
primeiro momento da sua identidade como corpo, embora o seu
exercício vá acontecer bastante mais tarde…
Qualquer lei
que tenda a interromper este processo da vida é uma lei
abortiva cujo resultado é a morte de um ser humano. Justificar
o contrário é ir contra a ciência; é ir contra o direito à
vida, defendido na Constituição da República; é reconhecer que
o Estado se põe do lado do crime contra os mais frágeis da
sociedade; ainda, é ir contra a tendência demográfica, que
pede o aumento dos nascimentos.
Apoiar esta
lei é negar aos nascituros o direito de nascer; é negar às
pessoas com deficiências o direito de apoio e de vida social;
é abrir precedentes para a eliminação de todos os que não são
contribuintes líquidos para uma sociedade, cada vez mais
intolerante e desigual.
3.
A proposta de referendo prevê que a interrupção deste
processo, causando a morte de um ser humano, possa ser a
pedido da mulher. Pergunta-se: pode a mulher decidir do seu
corpo? Sim, pode. A mulher pode sempre decidir do seu corpo,
pela autonomia a que tem direito, para se realizar bem e para
se valorizar, como pessoa, na totalidade do seu ‘ser corpo’ e
do seu ‘ser pessoa’… Porém, na mulher grávida, existe um
outro corpo: autónomo também e independente do seu corpo
de mulher. O pai e a mãe são os garantes da vida deste corpo
sobre o qual têm “responsabilidade”, mais do que “poder”.
As decisões sobre este corpo têm que ser sempre éticas,
baseadas nos valores e não na violência e na destruição…
Mas, quem
concorda que a mulher seja penalizada? Ninguém quer penalizar
a mulher e o Estado deve tornar-se a garantia da realização da
mulher e da criança – dois seres humanos perante os quais o
Estado deve intervir em defesa da sua vida e do seu futuro.
Porquê não criar condições – tornadas legítimas, conhecidas e
apoiadas – para que a mulher que não queira a criança, a
entregue e a doe para adopção? Porquê não criar condições para
um “banco” de crianças (em vez de outros “bancos” muito mais
dispendiosos – de esperma e de embriões), com as inscrições de
mães (pais) que as entreguem e pais que as aceitem para
adopção? Não seria este um investimento do Estado, no futuro
da sociedade e no respeito igual para todos os cidadãos? Ou
será a liberalização das leis eliminadoras da vida, a
alternativa que o Estado tem para as violências sobre os
cidadãos inocentes do nosso país?
Votar SIM no
referendo é aceitar esta alternativa como a única; votar NÃO é
exigir do Estado e de todos os cidadãos, a defesa justa e a
protecção necessária para todos, a começar pelos mais frágeis
e pelos mais inocentes.
VISEU, 23 de
Novembro de 2006
Ilídio Pinto Leandro
Bispo de Viseu
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