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NOTÍCIAS DO SÍNODO SOBRE A FAMÍLIA
 
Excerto do relatório final do Sínodo sobre a Família
 

Vaticano, 24/10/2015

 

II PARTE

A FAMÍLIA NO PLANO DE DEUS

35. O discernimento da vocação da família, na multiplicidade das situações que pudemos encontrar na primeira parte, tem necessidade de uma orientação segura para o caminho e para o acompanhamento. Esta bússola é a Palavra de Deus na história, que culmina em Jesus Cristo «Caminho, Verdade e Vida» para cada homem e mulher que constituem uma família. Por conseguinte, pomo-nos à escuta daquilo que a Igreja ensina sobre a família, à luz da Sagrada Escritura e da Tradição. Estamos convictos de que esta Palavra corresponde às mais profundas expectativas humanas de amor, verdade e misericórdia, despertando potencialidades de dom e de acolhimento inclusive nos corações feridos e humilhados. Nesta luz, nós acreditamos que o Evangelho da família começa com a criação do homem à imagem de Deus, que é amor e chama o homem e a mulher ao amor, segundo a sua semelhança (cf. Gn 1, 26-27). A vocação do casal e da família à comunhão de amor e de vida perdura em todas as etapas do desígnio de Deus, não obstante os limites e os pecados dos homens. Esta vocação está fundamentada desde o princípio em Cristo redentor (cf. Ef 1, 3-7). Ele restaura e aperfeiçoa a aliança matrimonial das origens (cf. Mc 10, 6) e cura o coração humano (cf. Jo 4, 10), conferindo-lhe a capacidade de amar como Ele ama a Igreja, oferecendo-se por ela (cf. Ef 5, 32).

36. Esta vocação recebe a sua forma eclesial e missionária do vínculo sacramental, que consagra o relacionamento conjugal indissolúvel entre os esposos. O intercâmbio do consenso, que a institui, significa para os esposos o compromisso de doação e acolhimento recíprocos, totais e definitivos, «numa só carne» (Gn 2, 24). A graça do Espírito Santo faz da união dos esposos um sinal vivo do vínculo de Cristo com a Igreja. Assim a sua união torna-se, durante a vida inteira, uma nascente de graças múltiplas: de fecundidade e de testemunho, de cura e de perdão. O matrimónio realiza-se na comunidade de vida e de amor, e a família faz-se evangelizadora. Tornando-se seus discípulos, os esposos são acompanhados por Jesus no caminho de Emaús, reconhecem-no ao partir o pão e voltam para Jerusalém à luz da sua ressurreição (cf. Lc 24, 13-43). A Igreja anuncia à família o seu vínculo com Jesus, em virtude da encarnação pela qual Ele faz parte da Sagrada Família de Nazaré. A fé reconhece no vínculo indissolúvel dos esposos um reflexo do amor da Trindade divina, que se revela na unidade de verdade e misericórdia proclamada por Jesus. O Sínodo torna-se intérprete do testemunho da Igreja, que dirige ao povo de Deus uma palavra sobre a verdade da família segundo o Evangelho. Nenhuma distância impede que a família seja alcançada por esta misericórdia e sustentada por esta verdade.

 

Capítulo I

A família na história da salvação

A pedagogia divina

37. Dado que a ordem da criação é determinada pela orientação para Cristo, é necessário distinguir sem separar os vários graus através dos quais Deus comunica a graça da aliança à humanidade. Em virtude da pedagogia divina, segundo a qual o desígnio da criação se cumpre no desígnio da redenção ao longo de etapas sucessivas, é preciso compreender a novidade do sacramento nupcial, em continuidade com o matrimónio natural das origens, fundamentado na ordem da criação. É nesta perspetiva que deve ser entendido o modo do agir salvífico de Deus, também na vida cristã. Uma vez que tudo foi feito por meio de Cristo, em vista dele (cf. Cl 1, 16), os cristãos «façam assomar à luz, com alegria e respeito, as sementes do Verbo neles adormecidas; mas atendam, ao mesmo tempo, à transformação profunda que se realiza entre os povos» (AG, 11). A incorporação do crente na Igreja mediante o batismo cumpre-se plenamente com os outros sacramentos da iniciação cristã. Na igreja doméstica, que é a sua família, ele empreende o «processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus» (FC, 9), através da conversão contínua ao amor que salva do pecado e confere plenitude de vida. Nos desafios contemporâneos da sociedade e da cultura, a fé dirige o olhar para Jesus Cristo na contemplação e na adoração da sua face. Ele olhou com amor e ternura para as mulheres e para os homens que encontrou, acompanhando os seus passos com verdade, paciência e misericórdia, anunciando as exigências do Reino de Deus. «Todas as vezes que voltamos à fonte da experiência cristã, abrem-se estradas novas e possibilidades inimagináveis» (Francisco, Discurso por ocasião da Vigília de oração em preparação para o Sínodo sobre a família, 4 de outubro de 2014).

O ícone da Trindade na família

38. A Escritura e a Tradição abrem-nos o acesso a um conhecimento da Trindade que se revela com traços familiares. A família é imagem de Deus, que «no seu mistério mais íntimo não é solidão, mas uma família, dado que tem em Si mesmo paternidade, filiação e a essência da família, que é o amor» (João Paulo II, Homilia durante a Santa Missa no Seminário Maior Palafoxiano em Puebla de Los Angeles, 28 de janeiro de 1979). Deus é comunhão de pessoas. No batismo, a voz do Pai designa Jesus como seu amado Filho, e é neste amor que se nos permite reconhecer o Espírito Santo (cf. Mc 1, 10-11). Jesus, que reconciliou tudo em Si, redimindo o homem do pecado, não só restituiu o matrimónio e a família à sua forma original, mas também elevou o matrimónio como sinal sacramental do seu amor pela Igreja (cf. Mt 19, 1-12; Mc10, 1-12; Ef5, 21-32). Na família humana, reunida por Cristo, é restituída a «imagem e semelhança» da Santíssima Trindade (cf. Gn 1, 26), mistério do qual brota todo o amor verdadeiro. De Cristo, através da Igreja, o matrimónio e a família recebem a graça do Espírito Santo, para testemunhar o Evangelho do amor de Deus até ao cumprimento da Aliança no último dia, na festa de bodas do Cordeiro (cf. Ap 19, 9; João Paulo II, Catequese sobre o amor humano). A aliança de amor e fidelidade, da qual vive a Sagrada Família de Nazaré, ilumina o princípio que dá forma a cada família, tornando-a capaz de enfrentar melhor as vicissitudes da vida e da história. Sobre este fundamento, cada família, não obstante a sua debilidade, pode tornar-se uma luz na escuridão do mundo. «Aqui compreendemos o modo de viver em família. Nazaré nos recorde no que consiste a família, a comunhão de amor, a sua beleza austera e simples, a sua índole sagrada e inviolável; nos faça ver como é doce e insubstituível a educação em família, nos ensine a sua função natural na ordem social» (Paulo VI, Discurso proferido em Nazaré, 5 de janeiro de 1964).

A família na Sagrada Escritura

39. Com o seu amor fecundo e generativo, o homem e a mulher dão continuidade à obra criadora e colaboram com o Criador para a história da salvação através da sucessão das genealogias (cf. Gn 1, 28; 2, 4; 9, 1.7; 10; 17, 2.16; 25, 11; 28, 3; 35, 9.11; 47, 27; 48, 3-4). Na sua forma exemplar, a realidade matrimonial é esboçada no livro do Génesis, para o qual até Jesus remete na sua visão do amor nupcial. O homem sente-se incompleto porque está desprovido de uma ajuda que lhe «corresponda», que lhe «seja adequada» (cf. Gn 2, 18.20), num diálogo equitativo. Por conseguinte, a mulher é partícipe da mesma realidade do homem, representada simbolicamente pela costela, ou seja, pela mesma carne, como se proclama na exclamação de amor do homem: «Eis que agora ela é verdadeiramente carne da minha carne e osso dos meus ossos» (Gn 2, 23). Assim, os dois tornam-se «uma só carne» (cf. Gn 2, 24). Esta realidade fundante da experiência matrimonial é exaltada na fórmula da pertença recíproca, presente na profissão de amor pronunciada pela mulher no Cântico dos Cânticos. A fórmula reproduz aquela da aliança entre Deus e o seu povo (cf. Lv 26, 12): «O meu bem-amado é para mim, e eu para ele... eu sou do meu bem-amado, e o meu bem-amado é meu» (Ct 2, 16; 6, 3). Além disso, no Cântico é significativo o entrelaçamento constante entre a sexualidade, o eros e o amor, assim como o encontro da corporeidade com a ternura, o sentimento, a paixão, a espiritualidade e a doação total. Na consciência de que pode existir a noite da ausência e do diálogo interrompido entre ele e ela (cf. Ct 3 e 5), no entanto permanece a certeza do poder do amor contra todos os obstáculos: «O amor é forte como a morte» (Ct 8, 6). Para celebrar a aliança de amor entre Deus e o seu povo, a profecia bíblica recorrerá não somente ao simbolismo nupcial (cf. Is 54; Jr 2, 2; Ez 16), mas também a toda a experiência familiar, como testemunha de modo particularmente intenso o profeta Oseias. A sua dramática experiência matrimonial e familiar (cf. Os 1-3) torna-se sinal da relação entre o Senhor e Israel. As infidelidades do povo não anulam o amor invencível de Deus, que o profeta descreve como um pai que guia o próprio filho «com laços de amor» (cf. Os 11, 1-4).

40. Nas palavras de vida eterna que Jesus deixou aos seus discípulos, com o seu ensinamento sobre o matrimónio e a família, nós podemos reconhecer três etapas fundamentais no desígnio de Deus. No princípio havia a família das origens, quando Deus criador instituiu o matrimónio primordial entre Adão e Eva, como sólido fundamento da família. Deus não apenas criou o ser humano, varão e mulher (cf. Gn1, 27), mas também os abençoou a fim de que fossem fecundos e se multiplicassem (cf. Gn1, 28). Por isso, «o homem deixará o seu pai e a sua mãe, e os dois já não serão mais que uma só carne» (Gn2, 24). Além disso, esta união ferida pelo pecado, na forma histórica do matrimónio no contexto da tradição de Israel, conheceu diversas oscilações: entre a monogamia e a poligamia, entre a estabilidade e o divórcio, entre a reciprocidade e a subordinação da mulher ao homem. A concessão de Moisés a respeito da possibilidade da rejeição (cf. Dt24, 1 ss.), que persistia na época de Jesus, compreende-se neste contexto. Finalmente, a reconciliação do mundo caído, com o advento do Salvador, não só volta a integrar o desígnio divino originário, mas conduz a história do Povo de Deus rumo a um novo cumprimento. A indissolubilidade do matrimónio (cf. Mc10, 2-9), não deve ser entendida antes de tudo como um jugo imposto aos homens, mas sim como um dom oferecido às pessoas unidas em matrimónio.

Jesus e a família

41. O exemplo de Jesus é paradigmático para a Igreja. O Filho de Deus veio ao mundo numa família. Nos seus trinta anos de vida escondida em Nazaré – periferia social, religiosa e cultural do Império (cf. Jo 1, 46) – Jesus viu em Maria e José a fidelidade vivida no amor. Ele inaugurou a sua vida pública com o sinal de Caná, realizado num banquete de núpcias (cf. Jo 2, 1-11). Anunciou o evangelho do matrimónio como plenitude da revelação que recupera o projeto originário de Deus (cf. Mt19, 4-6). Compartilhou momentos quotidianos de amizade com a família de Lázaro e as suas irmãs (cf. Lc 10, 38), e com a família de Pedro (cf. Mt 8, 14). Ouviu o pranto dos pais pelos seus filhos, restituindo-os à vida (cf. Mc 5, 41; Lc 7, 14-15) e manifestando deste modo o verdadeiro significado da misericórdia, que implica o restabelecimento da Aliança (cf. João Paulo II, Dives in Misericordia, 4). Isto manifesta-se claramente nos encontros com a mulher samaritana (cf. Jo 4, 1-30) e com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11), nos quais a noção do pecado desperta diante do amor gratuito de Jesus. A conversão «é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, que “contém pecadores no seu seio” e que é, “ao mesmo tempo, santa e necessitada de purificação, prosseguindo constantemente no seu esforço de penitência e de renovação”. Este esforço de conversão não é somente uma obra humana. É o movimento do “coração contrito”, atraído e movido pela graça, para responder ao amor misericordioso de Deus, que nos amou primeiro» (CIC, cân. 1428). Deus oferece gratuitamente o seu perdão a quantos se abrem à ação da sua graça. Isto acontece mediante o arrependimento, unido ao propósito de orientar a vida em conformidade com a vontade de Deus, efeito da sua misericórdia através da qual Ele nos reconcilia consigo mesmo. Deus instila no nosso coração a capacidade de poder seguir o caminho da imitação de Cristo. A palavra e a atitude de Jesus demonstram claramente que o Reino de Deus é o horizonte em cujo âmbito se definem todas as relações (cf. Mt 6, 33). Não obstante sejam fundamentais, os laços familiares «não são absolutos» (CIC, cân. 2232). De modo impressionante para quantos o ouviam, Jesus relativizou as relações familiares à luz do Reino de Deus (cf. Mc 3, 33-35; Lc 14, 26; Mt 10, 34-37; 19, 29; 23, 9). Esta revolução dos afetos que Jesus introduz na família humana constitui um apelo radical à fraternidade universal. Ninguém permanece excluído da nova comunidade congregada em nome de Jesus, porque todos são chamados a fazer parte da família de Deus. Jesus demonstra como a condescendência divina acompanha o caminho humano com a sua graça e transforma o coração endurecido com a sua misericórdia (cf. Ez 36, 26), orientando-o para o seu cumprimento através do mistério pascal.

 

Capítulo II

A Família no Magistério da Igreja

O ensinamento do Concílio Vaticano II

42. Tendo como base aquilo que recebeu de Cristo, ao longo dos séculos a Igreja desenvolveu um rico ensinamento sobre o matrimónio e a família. Uma das expressões mais elevadas deste Magistério foi proposta pelo Concílio Ecuménico Vaticano II, na Constituição pastoral Gaudium et Spes, que dedica um capítulo inteiro à dignidade do matrimónio e da família (cf. GS, 47-52). Eis como ele define o matrimónio e a família: «A íntima comunidade da vida e do amor conjugal, fundada pelo Criador e dotada de leis próprias, é instituída por meio da aliança matrimonial, ou seja, pelo irrevogável consentimento pessoal. Deste modo, por meio do ato humano com o qual os cônjuges mutuamente se dão e recebem um ao outro, nasce uma instituição também face à sociedade, confirmada pela lei divina» (GS, 48). O «verdadeiro amor entre marido e mulher» (GS, 49) implica a doação mútua de si, inclui e integra a dimensão sexual e a afetividade, correspondendo ao desígnio divino (cf. GS, 48-49). Isto esclarece que o matrimónio, e o amor conjugal que o anima, «se ordenam pela sua própria natureza à geração e à educação da prole» (GS, 50). Além disso, ressalta-se a radicação dos esposos em Cristo: Cristo Senhor «vem ao encontro dos esposos cristãos mediante o sacramento do matrimónio» (GS, 48) e com eles permanece (sacramentum permanens). Ele assume o amor humano, purifica-o, leva-o à plenitude e, com o seu Espírito, confere aos esposos a capacidade de o viver, impregnando a sua vida inteira de fé, esperança e caridade. Deste modo, os esposos são como que consagrados e, mediante uma graça própria, edificam o Corpo de Cristo, constituindo uma igreja doméstica (cf. LG, 11), de tal forma que a Igreja, para compreender plenamente o seu mistério, olha para a família cristã, que o manifesta de modo genuíno.

Paulo VI

43. O Beato Paulo VI aprofundou a doutrina sobre o matrimónio e a família no sulco do Concílio Vaticano II. De modo particular, com a Encíclica Humanae Vitae, evidenciou o vínculo intrínseco entre amor conjugal e geração da vida: «O amor conjugal requer nos esposos uma consciência da sua missão de “paternidade responsável”, sobre a qual hoje tanto se insiste, e justificadamente, e que deve também ser compreendida com exatidão. [...] O exercício responsável da paternidade implica, portanto, que os cônjuges reconheçam plenamente os próprios deveres para com Deus, para consigo próprios, para com a família e para com a sociedade, numa justa hierarquia de valores» (HV, 10). Na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, Paulo VI pôs em evidência a relação entre a família e a Igreja: «No conjunto daquilo que é o apostolado evangelizador dos leigos, não se pode deixar de pôr em realce a ação evangelizadora da família. Nos diversos momentos da história da Igreja, ela bem mereceu a bela designação sancionada pelo Concílio Ecuménico Vaticano II: “igreja doméstica”. Isso quer dizer que, em cada família cristã, deveriam encontrar-se os diversos aspetos da Igreja inteira. Por outras palavras, a família, como a Igreja, tem por dever ser um espaço onde o Evangelho é transmitido e onde o Evangelho se irradia» (EN, 71).

João Paulo II

44. São João Paulo II dedicou à família uma atenção especial através das suas catequeses sobre o amor humano e sobre a teologia do corpo. Nelas, ele ofereceu à Igreja uma riqueza de reflexões sobre o significado esponsal do corpo humano e sobre o projeto de Deus a propósito do matrimónio e da família, desde os primórdios da criação. Em particular, abordando a caridade conjugal, descreveu o modo como os cônjuges, no seu amor recíproco, recebem o dom do Espírito de Cristo e vivem a sua vocação para a santidade. Com a Carta às famílias, Gratissimam Sane, e acima de tudo com a Exortação Apostólica Familiaris Consortio, João Paulo II indicou a família como «caminho da Igreja» e ofereceu uma visão de conjunto sobre a vocação ao amor, do homem e da mulher, propondo as linhas fundamentais para a pastoral da família e para a presença da família na sociedade. «No matrimónio e na família constitui-se um complexo de relações interpessoais – vida conjugal, paternidade-maternidade, filiação, fraternidade – mediante as quais cada pessoa humana é introduzida na “família humana” e na “família de Deus”, que é a Igreja» (FC, 15).

Bento XVI

45. Na Encíclica Deus Caritas Est, Bento XVI retomou o tema da verdade do amor entre o homem e a mulher, que só se ilumina plenamente à luz do amor de Cristo crucificado (cf. DCE, 2). Ele reitera que «o matrimónio baseado num amor exclusivo e definitivo se torna o ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e, vice-versa, o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano» (DCE, 11). Além disso, na Encíclica Caritas in Veritate, ele evidencia a importância do amor familiar como princípio de vida na sociedade, lugar onde se aprende a experiência do bem comum. «Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo económica, continuar a propor às novas gerações a beleza da família e do matrimónio, a correspondência de tais instituições às exigências mais profundas do coração e da dignidade da pessoa. Nesta perspetiva, os Estados são chamados a instaurar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família, fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, célula primeira e vital da sociedade, preocupando-se também com os seus problemas económicos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional» (CiV, 44).

Francisco

46. Na Encíclica Lumen Fidei o Papa Francisco enfrenta deste modo o vínculo entre a família e a fé: «O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. [...] Prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projetos» (LF, 52). Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa evoca a centralidade da família no meio dos desafios culturais dos dias de hoje: «A família atravessa uma crise cultural profunda, como todas as comunidades e vínculos sociais. No caso da família, a fragilidade dos vínculos reveste-se de especial gravidade, porque se trata da célula básica da sociedade, o espaço onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros e onde os pais transmitem a fé aos seus filhos. O matrimónio tende a ser visto como mera forma de gratificação afetiva, que se pode constituir de qualquer maneira e modificar-se de acordo com a sensibilidade de cada um. Mas a contribuição indispensável do matrimónio para a sociedade supera o nível da afetividade e das necessidades ocasionais do casal» (EG, 66). Além disso, o Papa Francisco dedicou aos temas relativos à família um ciclo de catequeses, que analisam mais aprofundadamente os seus protagonistas, as suas experiências e as fases da sua vida.

 

Capítulo III

A família na doutrina cristã

Matrimónio na ordem da criação e plenitude sacramental

47. A ordem da redenção ilumina e completa a ordem da criação. Por conseguinte, o matrimónio natural só se compreende à luz do seu cumprimento sacramental: somente fixando o olhar em Cristo conhecemos até ao fundo a verdade sobre os relacionamentos humanos. «Na realidade, o mistério do homem só se esclarece verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado. [...] Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela plenamente o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» (GS, 22). É particularmente oportuno compreender em chave cristocêntrica as propriedades naturais do matrimónio, que constituem o bem dos cônjuges (bonum coniugum), o qual inclui unidade, abertura à vida, fidelidade e indissolubilidade. À luz do Novo Testamento, segundo o qual tudo é criado por meio de Cristo e em vista dele (cf. Cl 1, 16; Jo 1, 1 ss.), o Concílio Vaticano II quis manifestar apreço pelo matrimónio natural e pelos elementos positivos presentes nas demais religiões (cf. LG, 16; NA, 2) e nas diferentes culturas, não obstante os limites e as insuficiências (cf. RM, 55). O discernimento da presença dos «semina Verbi» nas outras culturas (cf. AG, 11) pode ser aplicado inclusive à realidade matrimonial e familiar. Além do verdadeiro matrimónio natural, existem elementos positivos presentes nas formas matrimoniais de outras tradições religiosas. Nós consideramos que estas formas – contudo fundamentadas no relacionamento estável e autêntico entre um homem e uma mulher – estão ordenadas ao sacramento. Com o olhar voltado para a sabedoria humana dos povos, a Igreja reconhece também esta família como célula básica necessária e fecunda da convivência humana.

Indissolubilidade e fecundidade da união esponsal

48. A fidelidade irrevogável de Deus à aliança é o fundamento da indissolubilidade do matrimónio. O amor completo e profundo entre os cônjuges não está assente unicamente nas capacidades humanas: Deus sustém aquela aliança com a força do seu Espírito. A opção que Deus fez em relação a nós reflete-se de certo modo na escolha do cônjuge: assim como Deus mantém a sua promessa mesmo quando nós falhamos, também o amor e a fidelidade conjugal são válidos «na boa e na má sorte». O matrimónio é dom e promessa de Deus, que ouve a oração daqueles que pedem a sua ajuda. A dureza de coração do homem, os seus limites e a sua fragilidade diante da tentação constituem um grande desafio para a vida comum. O testemunho de casais que vivem fielmente o matrimónio põe em evidência o valor desta união indissolúvel e suscita o desejo de renovar continuamente o compromisso da fidelidade. A indissolubilidade corresponde ao profundo desejo de amor recíproco e duradouro que o Criador inscreveu no coração humano, e é um dom que Ele mesmo concede a cada casal: «Não separe o homem o que Deus uniu» (Mt 19, 6; cf. Mc 10, 9). O homem e a mulher recebem este dom e cuidam dele a fim de que o seu amor possa ser para sempre. Diante da sensibilidade do nosso tempo e das dificuldades efetivas de assumir os compromissos para sempre, a Igreja é chamada a propor as exigências e o projeto de vida do Evangelho da família e do matrimónio cristão. «Falando sobre a nova vida em Cristo, São Paulo afirma que os cristãos – todos – são chamados a amar-se como Cristo os amou, ou seja, a “submeter-se uns aos outros” (Ef 5, 21), que significa pôr-se ao serviço uns dos outros. E aqui ele introduz a analogia entre o casal marido-esposa e Cristo-Igreja. É claro que se trata de uma analogia imperfeita, mas devemos entender o seu sentido espiritual, que é deveras excelso e revolucionário, e ao mesmo templo simples, ao alcance de cada homem e mulher que confia na graça de Deus» (Francisco, Audiência geral, 6 de maio de 2015). Mais uma vez, trata-se de um anúncio que confere esperança!

Os bens da família

49. O matrimónio é o «consórcio íntimo de toda a vida, ordenado pela sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole» (CDC, cân. 1055 § 1). No acolhimento recíproco, os nubentes prometem-se um ao outro dom total, fidelidade e abertura à vida. Na fé e com a graça de Cristo, eles reconhecem os dons que Deus lhes oferece e comprometem-se em seu nome perante a Igreja. Deus consagra o amor dos esposos e confirma a sua indissolubilidade, oferecendo-lhes a sua graça para viver a fidelidade, a integração recíproca e a abertura à vida. Damos graças a Deus pelo matrimónio porque, através da comunidade de vida e de amor, os cônjuges conhecem a felicidade e experimentam que Deus os ama pessoalmente, com paixão e ternura. O homem e a mulher, individualmente e como casal – recordou o Papa Francisco – «são imagem de Deus». A sua diferença «não é para a contraposição, nem para a subordinação, mas para a comunhão e a geração, sempre à imagem e semelhança de Deus» (Audiência geral, 15 de abril de 2015). A finalidade unitiva do matrimónio é uma exortação constante ao crescimento e ao aprofundamento deste amor. Na sua união de amor, os esposos experimentam a beleza da paternidade e da maternidade; compartilham os projetos e as dificuldades, os desejos e as preocupações; aprendem a cura recíproca e o perdão mútuo. Neste amor eles celebram os seus momentos felizes e ajudam-se nas passagens difíceis da sua história de vida.

50. No sentido pleno, a fecundidade dos esposos é espiritual: eles são sinais sacramentais vivos, nascentes de vida para a comunidade cristã e para o mundo. O ato da geração, que manifesta a «conexão inseparável» entre valor unitivo e procriador – posto em evidência pelo Beato Paulo VI (cf. HV, 12) – deve ser entendido na ótica da responsabilidade dos pais no compromisso em prol do cuidado e da educação cristã dos filhos. Estes são o fruto mais precioso do amor conjugal. Dado que o filho é uma pessoa, ele transcende aqueles que o geraram. «Com efeito, ser filho e filha, segundo o desígnio de Deus, significa trazer em si a memória e a esperança de um amor que se realizou precisamente acendendo a vida de outro ser humano, original e novo. E para os pais cada filho é singular, diferente, diverso» (Francisco, Audiência geral, 11 de fevereiro de 2015). A beleza do dom recíproco e gratuito, a alegria pela vida que nasce e pelo cuidado amoroso por parte de todos os membros, desde os pequeninos até aos idosos, são alguns dos frutos que tornam única e insubstituível a resposta à vocação da família. Os relacionamentos familiares concorrem de modo decisivo para a construção solidária e fraternal da sociedade humana, irredutível à convivência dos habitantes de um território ou dos cidadãos de um Estado.

Verdade e beleza da família

51. Com íntima alegria e profunda consolação, a Igreja olha para as famílias que são fiéis aos ensinamentos do Evangelho, agradecendo-lhes e encorajando-as pelo testemunho que oferecem. Graças a elas, torna-se credível a beleza do matrimónio indissolúvel e fiel para sempre. Na família amadurece a primeira experiência eclesial da comunhão entre pessoas, na qual pela graça se reflete o mistério da Santíssima Trindade. «É aqui que se aprendem a tenacidade e a alegria no trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre renovado e, sobretudo, o culto divino, pela oração e pelo oferecimento da própria vida» (CIC, 1657). O Evangelho da família nutre inclusive aquelas sementes que ainda esperam amadurecer, e deve cuidar das árvores que secaram e não podem ser transcuradas (cf. Lc 13, 6-9). Enquanto mestra segura e mãe atenciosa, e não obstante reconheça que entre os batizados não existe outro vínculo nupcial além do sacramental, e que cada ruptura do mesmo é contrário à vontade de Deus, a Igreja está também consciente da fragilidade de muitos dos seus filhos que encontram dificuldades no caminho da fé. «Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. [...] Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. A todos devem chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que age misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas» (EG, 44). Esta verdade e esta beleza devem ser preservadas. Diante de situações difíceis e de famílias feridas, é necessário recordar sempre um princípio geral: «Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações» (FC, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitam a capacidade de decisão. Por isso, enquanto se deve expressar claramente a doutrina, é preciso evitar juízos que não têm em consideração a complexidade das diversas situações e é necessário prestar atenção ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição.

 

Capítulo IV

Rumo à plenitude eclesial da família

O vínculo íntimo entre Igreja e família

52. A bênção e a responsabilidade de uma nova família, selada no sacramento eclesial, comporta a disponibilidade a fazer-se defensor e promotor da aliança fundamental entre homem e mulher, no contexto da comunidade cristã. Esta disponibilidade, no âmbito do vínculo social, da geração dos filhos, da tutela dos mais frágeis e da vida comum comporta uma responsabilidade que tem o direito de ser sustentada, reconhecida e apreciada. Em virtude do sacramento do matrimónio, cada família torna-se para todos os efeitos um bem para a Igreja. Nesta perspetiva, para o hoje da Igreja, será certamente um dom precioso ter em consideração também a reciprocidade entre família e Igreja: a Igreja é um bem para a família, a família é um bem para a Igreja. A preservação do dom sacramental do Senhor compromete não apenas a família individual mas a própria comunidade cristã, do modo que lhe compete. Perante a ocorrência da dificuldade, também grave, de preservar a união matrimonial, o discernimento das respetivas obrigações e das relativas omissões deverá ser aprofundado pelo casal, com a ajuda dos Pastores e da comunidade.

A graça da conversão e do cumprimento

53. A Igreja permanece próxima dos cônjuges, cujo vínculo se debilitou a tal ponto que se apresenta o risco de separação. Caso se chegue a um doloroso fim da relação, a Igreja sente o dever de acompanhar este momento de sofrimento, de modo que pelo menos não se desencadeiem ruinosas oposições entre os cônjuges. Deve-se prestar uma atenção particular sobretudo aos filhos, que são os primeiros atingidos pela separação, a fim de que venham a sofrer o menos possível por causa dela: «Quando o pai e a mãe se ferem, a alma das crianças sofre muito» (Francisco, Audiência geral, 24 de junho de 2015). O olhar de Cristo, cuja luz ilumina cada homem (cf. Jo 1, 9; GS, 22), inspira o cuidado pastoral da Igreja pelos fiéis que simplesmente convivem, ou que só contraíram matrimónio civil, ou então que são divorciados recasados. Na perspetiva da pedagogia divina, a Igreja dirige-se com amor a quantos participam na vida dela de modo imperfeito: invoca com eles a graça da conversão, encoraja-os a realizar o bem, a cuidar com amor um do outro e pôr-se ao serviço da comunidade na qual vivem e trabalham. É desejável que nas Dioceses se promovam percursos de discernimento e participação destas pessoas, como ajuda e encorajamento para a maturação de uma escolha consciente e coerente. Os casais devem ser informados sobre a possibilidade de recorrer ao processo de declaração de nulidade do matrimónio.

54. Quando a união alcança uma estabilidade notável através de um vínculo público – e é conotada por profundo afeto, por responsabilidade em relação à prole e por capacidade de superar as provações – pode ser vista como uma ocasião para ser acompanhada rumo ao sacramento do matrimónio, quando isto for possível. No entanto, diferente é o caso em que a convivência não se tiver estabelecido em ordem a um possível futuro matrimónio, mas na ausência do propósito de estabelecer uma relação institucional. A realidade dos matrimónios civis entre homem e mulher, dos matrimónios tradicionais e, com as devidas diferenciações, também das convivências, é um fenómeno emergente em muitos países. Além disso, a situação de fiéis que estabeleceram uma nova união exige uma especial atenção pastoral: «Nestas décadas [...] aumentou muito a consciência de que é necessário um acolhimento fraterno e atento, no amor e na verdade, em relação aos batizados que estabeleceram uma nova convivência depois da falência do matrimónio sacramental: com efeito, estas pessoas não estão excomungadas» (Francisco, Audiência geral, 5 de agosto de 2015).

A misericórdia no centro da revelação

55. A Igreja parte das situações concretas das famílias de hoje, todas elas necessitadas de misericórdia, a começar por aquelas que mais sofrem. Com o coração misericordioso de Jesus, a Igreja deve acompanhar os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e confuso, restituindo confiança e esperança, como a luz do farol de um porto ou de uma tocha levada ao meio do povo para iluminar aqueles que perderam a rota ou que se encontram no meio da tempestade. A misericórdia é «o centro da revelação de Jesus Cristo» (MV, 25). Nela resplandece a soberania de Deus, com a qual Ele é fiel sempre de novo ao seu ser, que é amor (cf. 1 Jo 4, 8), e ao seu pacto. «É precisamente na sua misericórdia que Deus manifesta a sua soberania» (S. Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 30, art. 4; cf. Missal Romano, Coleta do 26º Domingo do Tempo Comum). Anunciar a verdade com amor é em si mesmo um ato de misericórdia. Na Bula Misericordiae Vultus, o Papa Francisco afirma: «A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador». E prossegue: «Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base de uma verdadeira justiça» (MV, 21). Jesus é o rosto da misericórdia de Deus Pai: «Deus amou o mundo de tal modo [...] para que o mundo seja salvo por Ele [pelo seu Filho]» (Jo 3, 16.17).

 

III PARTE

A MISSÃO DA FAMÍLIA

56. Desde o princípio da história, Deus foi pródigo de amor pelos seus filhos (cf. LG, 2), de tal forma que eles puderam alcançar a plenitude da vida em Jesus Cristo (cf. Jo 10, 10). Através dos sacramentos da Iniciação Cristã, Deus convida as famílias a introduzir-se nesta vida, a proclamá-la e a comunicá-la aos outros (cf. LG, 41). Como o Papa Francisco nos recorda com força, a missão da família amplia-se sempre para fora, ao serviço dos nossos irmãos e irmãs. É a missão da Igreja, na qual cada família é chamada a participar de modo único e privilegiado. «Em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário» (EG, 120). No mundo inteiro, na realidade das famílias, podemos ver tanta felicidade e alegria, mas também muitos sofrimentos e angústias. Queremos considerar esta realidade com os mesmos olhos com os quais também Cristo a fitava, quando caminhava no meio dos homens do seu tempo. A nossa atitude quer ser de compreensão humilde. Temos o desejo de acompanhar cada uma e todas as famílias, a fim de que descubram a melhor maneira para superar as dificuldades que encontram no seu caminho. O Evangelho é sempre também um sinal de contradição. A Igreja nunca se esquece de que o mistério pascal é central na Boa Notícia que nós anunciamos. Ela deseja ajudar as famílias a reconhecer e a aceitar a cruz, quando se apresenta diante delas, para que possam carregá-la com Cristo no caminho rumo à alegria da ressurreição. Este trabalho exige «uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão» (EG, 25). Além disso, a conversão refere-se profundamente ao estilo e à linguagem. É necessário adotar uma linguagem que seja significativa. O anúncio deve levar a experimentar que o Evangelho da família é resposta às expectativas mais profundas da pessoa humana: à sua dignidade e à plena realização na reciprocidade, na comunhão e na fecundidade. Não se trata somente de apresentar um conjunto de regulamentos, mas de anunciar a graça que confere a capacidade de viver os bens da família.A transmissão da fé torna necessária, hoje mais do que nunca, uma linguagem capaz de alcançar todos, especialmente os jovens, para comunicar a beleza do amor familiar e fazer compreender o significado de palavras como doação, amor conjugal, fidelidade, fecundidade e procriação. A necessidade de uma linguagem nova e mais adequada apresenta-se antes de tudo no momento de introduzir as crianças e os adolescentes ao tema da sexualidade. Muitos pais e pessoas que estão comprometidos na pastoral têm dificuldade de encontrar uma linguagem apropriada e ao mesmo tempo respeitosa, que una a natureza da sexualidade biológica e a complementaridade que se enriquece reciprocamente com a amizade, com o amor e com a doação do homem e da mulher.

 

Capítulo I

A formação da família

A preparação para o matrimónio

57. O matrimónio cristão não pode reduzir-se a uma tradição cultural, nem a uma simples convenção jurídica: é um chamamento de Deus que requer discernimento atento, oração constante e amadurecimento adequado. Por isso, são necessários percursos formativos que acompanhem a pessoa e o casal, de modo que à comunicação dos conteúdos da fé se una a experiência de vida oferecida por toda a comunidade eclesial. A eficácia desta ajuda exige também que seja aperfeiçoada a catequese pré-matrimonial – às vezes pobre de conteúdos – que constitui uma parte integrante da pastoral ordinária. Inclusive a pastoral dos nubentes deve inserir-se no compromisso geral da comunidade cristã, de transmitir de maneira adequada e convincente a mensagem evangélica a propósito da dignidade da pessoa, da sua liberdade e do respeito pelos seus direitos. É preciso ter bem presentes as três etapas indicadas pela Familiaris Consortio (cf. 66): a preparação remota, que passa através da transmissão da fé e dos valores cristãos no seio da própria família; a preparação próxima, que coincide com os itinerários de catequeses e com as experiências formativas vividas no âmbito da comunidade eclesial; e a preparação imediata para o matrimónio, parte de um caminho mais vasto, qualificado pela dimensão vocacional.

58. Na mudança cultural em ato, muitas vezes são apresentados modelos em contraste com a visão cristã da família. A sexualidade está frequentemente desvinculada de um projeto de amor autêntico. Em certos países chegam mesmo a ser impostos pela autoridade pública projetos formativos que apresentam conteúdos contrários à visão humana e cristã: em relação a eles, há que afirmar com determinação a liberdade da Igreja de ensinar a sua doutrina e o direito à objeção de consciência por parte dos educadores. Além disso a família, não obstante permaneça um espaço pedagógico primordial (cf. Gravissimum Educationis, 3), não pode ser o único lugar de educação para a sexualidade. Por isso, é necessário estruturar verdadeiros percursos pastorais de apoio, destinados tanto aos indivíduos como aos casais, prestando uma atenção particular à idade da puberdade e da adolescência, nos quais ajudar a descobrir a beleza da sexualidade no amor. O cristianismo proclama que Deus criou o homem como varão e mulher, abençoando-os a fim de que formassem uma só carne e transmitissem a vida (cf. Gn 1, 27-28; 2, 24). A sua diferença, na igual dignidade pessoal, é o selo da boa criação de Deus. Em conformidade com o princípio cristão, alma e corpo, assim como sexo biológico (sex) e função sociocultural do sexo (gender), podem-se distinguir, mas não separar.

Por conseguinte, sobressai a exigência de uma ampliação dos temas formativos nos itinerários pré-matrimoniais, a fim de que eles se tornem percursos de educação para a fé e para o amor, integrados no caminho da iniciação cristã. Nesta luz, é necessário recordar a importância das virtudes, entre as quais a castidade, condição preciosa para o crescimento genuíno do amor interpessoal. O itinerário formativo deveria assumir a fisionomia de um caminho orientado para o discernimento vocacional e do casal, preocupando-se com uma melhor sinergia entre os vários âmbitos pastorais. Os percursos de preparação para o matrimónio sejam propostos também por cônjuges capazes de acompanhar os nubentes antes do casamento e nos primeiros anos de vida matrimonial, valorizando desta forma a ministerialidade conjugal. A valorização pastoral dos relacionamentos pessoais favorecerá a abertura gradual das mentes e dos corações à plenitude do plano de Deus.

A celebração nupcial

59. A liturgia nupcial é um acontecimento singular, que se vive no contexto familiar e social de uma festa. O primeiro dos sinais de Jesus teve lugar no banquete das bodas de Caná: o vinho bom do milagre do Senhor, que alegra o nascimento de uma nova família, é o vinho da Aliança de Cristo com os homens e as mulheres de todos os tempos. A preparação das bodas ocupa a atenção dos nubentes durante muito tempo. E representa um período precioso para eles, para as suas famílias e para os seus amigos, mas deve enriquecer-se com a sua dimensão propriamente espiritual e eclesial. A celebração nupcial é uma ocasião propícia para convidar muitos para a celebração dos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia. Através de uma participação cordial e jubilosa, a comunidade cristã acolherá no seu seio a nova família a fim de que, como igreja doméstica, se sinta parte da maior família eclesial. A liturgia nupcial deveria ser preparada mediante uma catequese mistagógica que leve o casal a sentir que a celebração da sua aliança se realiza «no Senhor». Frequentemente, o celebrante tem a oportunidade de se dirigir a uma assembleia composta por pessoas que participam pouco na vida eclesial, ou pertencem a outras confissões cristãs ou comunidades religiosas. Trata-se de uma inestimável ocasião de anúncio do Evangelho de Cristo, que pode suscitar nas famílias presentes a redescoberta da fé e do amor que provêm de Deus.

Os primeiros anos da vida familiar

60. Os primeiros anos de casamento são um período vital e delicado, durante o qual os casais crescem na consciência da sua vocação e missão. Por isso, exige-se um acompanhamento pastoral que continue inclusive depois da celebração do sacramento. A paróquia é o lugar onde casais experientes podem ser postos à disposição dos mais jovens, com o eventual concurso de associações, movimentos eclesiais e novas comunidades. É necessário encorajar os esposos a ter uma atitude fundamental de acolhimento da grande dádiva dos filhos. É preciso ressaltar a importância da espiritualidade familiar, da oração e da participação na Eucaristia dominical, convidando os casais a reunir-se regularmente para fomentar o crescimento da vida espiritual e a solidariedade nas exigências concretas da vida. O encontro pessoal com Cristo através da leitura da Palavra de Deus, na comunidade e nas casas, de maneira especial na forma da «lectio divina», constitui um manancial de inspiração para o agir de todos os dias. Liturgias, práticas devocionais e Eucaristias celebradas para as famílias, principalmente no aniversário do matrimónio, alimentam a vida espiritual e o testemunho missionário da família. Não raro, nos primeiros anos de vida conjugal verifica-se uma certa introversão do casal, com o consequente isolamento do contexto comunitário. A consolidação da rede relacional entre os casais e a criação de laços significativos são necessárias para o amadurecimento da vida cristã da família. Os movimentos e os grupos eclesiais muitas vezes garantem tais momentos de crescimento e de formação. Integrando estas contribuições, a Igreja local tome a iniciativa de coordenar o cuidado pastoral das famílias jovens. Na fase inicial da vida conjugal a frustração do desejo de ter filhos suscita um desânimo particular. Não raro, é nela que se anunciam motivos de crise que rapidamente acabam na separação. Também por estes motivos é particularmente importante a proximidade da comunidade aos esposos jovens, através do apoio afetuoso e discreto de famílias fidedignas.

A formação dos presbíteros e de outros agentes pastorais

61. É necessária uma renovação da pastoral à luz do Evangelho da família e do ensinamento do Magistério. Por isso, é preciso pensar numa formação mais adequada dos presbíteros, dos diáconos, dos religiosos, das religiosas, dos catequistas e dos demais agentes no campo da pastoral, que devem promover a integração das famílias na comunidade paroquial, sobretudo por ocasião dos caminhos de formação para a vida cristã em ordem aos sacramentos. De modo particular nos seus itinerários de formação humana, espiritual, intelectual e pastoral, os seminários devem preparar os futuros presbíteros para que se tornem apóstolos da família. Na formação para o ministério ordenado, não se pode descuidar o desenvolvimento afetivo e psicológico, também participando de modo direto em percursos adequados. Itinerários e cursos de formação destinados especificamente aos agentes pastorais poderão torná-los aptos para inserir o mesmo caminho de preparação para o matrimónio na mais ampla dinâmica da vida eclesial. No tempo de formação, os candidatos ao presbiterado vivam períodos convenientes com a própria família e sejam orientados a fazer experiências de pastoral familiar para adquirir um conhecimento adequado da situação atual das famílias. A presença dos leigos e das famílias, em particular a presença feminina, na formação sacerdotal, favorece o apreço pela variedade e complementaridade das diversas vocações na Igreja. A dedicação deste ministério precioso poderá receber vitalidade e consistência de uma renovada aliança entre as duas principais formas de vocação para o amor: a do matrimónio, que floresce na família cristã, fundada sobre o amor de eleição, e a da vida consagrada, imagem da comunhão do Reino, que começa na aceitação incondicionada do outro como dom de Deus. Na comunhão das vocações realiza-se um fecundo intercâmbio de dons, que anima e enriquece a comunidade eclesial (cf. At 18, 2). A direção espiritual da família pode ser considerada um dos ministérios paroquiais. Sugere-se que o Departamento diocesano para a família e os outros Setores pastorais possam intensificar a sua colaboração neste campo. Na formação permanente do clero e dos agentes pastorais, é desejável que se continue a cuidar com instrumentos apropriados do amadurecimento das dimensões afetiva e psicológica, que lhes será indispensável para o acompanhamento pastoral das famílias, também em vista das particulares situações de emergência, determinadas pelos casos de violência doméstica e de abuso sexual.

 

Capítulo II

Família, generatividade e educação

A transmissão da vida

62. A presença de famílias numerosas na Igreja constitui uma bênção para a comunidade cristã e para a sociedade, porque a abertura à vida é exigência intrínseca do amor conjugal. Nesta luz, a Igreja exprime profunda gratidão às famílias que acolhem, educam, circundam de carinho e transmitem a fé aos seus filhos, de forma particular os mais frágeis e marcados pela deficiência. Estas crianças, nascidas com necessidades especiais, atraem o amor de Cristo e pedem à Igreja que cuide delas como uma bênção. Infelizmente, há uma mentalidade difundida que reduz a geração da vida unicamente à gratificação individual ou do casal. Os fatores de ordem económica, cultural e educativa exercem um peso às vezes determinante, contribuindo para a forte diminuição da natalidade que debilita o tecido social, compromete os relacionamentos entre as gerações e torna mais incerto o olhar sobre o futuro. Também neste âmbito, é necessário começar a partir da escuta das pessoas e explicar a beleza e a verdade de uma abertura incondicional à vida, como aquilo de que o amor humano precisa para ser vivido plenamente. Sente-se aqui a necessidade de divulgar cada vez mais os documentos do Magistério da Igreja que promovem a cultura da vida. A pastoral familiar deveria incluir em maior medida os especialistas católicos em matéria biomédica, tanto nos percursos de preparação para o matrimónio como no acompanhamento dos cônjuges.

A responsabilidade generativa

63. Segundo a ordem da criação, o amor conjugal entre um homem e uma mulher e a transmissão da vida estão ordenados um para o outro (cf. Gn 1, 27-28). Deste modo, o Criador tornou o homem e a mulher partícipes da obra da sua criação e transformou-os contemporaneamente em instrumentos do seu amor, confiando à sua responsabilidade o futuro da humanidade através da transmissão da vida humana. Os cônjuges abrir-se-ão à vida, formando «retamente a própria consciência, tendo em conta o seu próprio bem e o dos filhos já nascidos ou que preveem virão a nascer, sabendo ver as condições do tempo e da própria situação e tendo, finalmente, em consideração o bem da comunidade familiar, da sociedade temporal e da própria Igreja» (GS, 50; cf. VS, 54-64). Em conformidade com o caráter pessoal e humanamente completo do amor conjugal, o caminho reto para a planificação familiar é o de um diálogo consensual entre os esposos, do respeito pelos tempos e da consideração da dignidade do parceiro. Neste sentido, a Encíclica Humanae Vitae (cf. 10-14) e a Exortação Apostólica Familiaris Consortio (cf. 14; 28-35) devem ser redescobertas, com a finalidade de despertar a disponibilidade a procriar, em contraste com uma mentalidade muitas vezes hostil à vida. É preciso exortar reiteradamente os casais jovens a doar a vida. Deste modo pode crescer a abertura à vida na família, na Igreja e na sociedade. Através das suas numerosas instituições destinadas às crianças, a Igreja pode contribuir para criar uma sociedade, mas também uma comunidade de fé, que sejam à medida da criança. A coragem de transmitir a vida é notavelmente fortalecida quando se cria uma atmosfera adequada às crianças, na qual se oferecem ajuda e acompanhamento na obra de educação da prole (cooperação entre paróquias, pais e famílias).

A escolha responsável da genitorialidade pressupõe a formação da consciência, que é «o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser» (GS, 16). Quanto mais os esposos procuram ouvir na sua consciência Deus e os seus mandamentos (cf. Rm 2, 15), deixando-se acompanhar espiritualmente, tanto mais a sua decisão será intimamente livre de um arbítrio subjetivo e da adequação aos modos de se comportar do seu ambiente. Por amor a esta dignidade da consciência, a Igreja rejeita com todas as suas forças as intervenções coercitivas do Estado a favor da contraceção, da esterilização ou até do aborto. O recurso aos métodos fundados nos «ritmos naturais de fecundidade» (HV, 11) deverá ser encorajado. Esclarecer-se-á que «estes métodos respeitam o corpo dos esposos, estimulam a ternura entre eles e favorecem a educação de uma liberdade autêntica» (CIC, 2370). É necessário salientar sempre que os filhos constituem um dom maravilhoso de Deus, uma alegria para os pais e para a Igreja. É através deles que o Senhor renova o mundo.

O valor da vida em todas as suas fases

64. A vida é dom de Deus e mistério que nos transcende. Por isso, não devem ser de modo algum descartados os seus inícios nem a sua fase terminal. Pelo contrário, é necessário assegurar a estas fases uma atenção especial. Hoje, demasiado facilmente, «o ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do “descartável”, que aliás chega a ser promovida» (EG, 53). A tal propósito, é tarefa da família, sustentada pela sociedade inteira, acolher a vida nascente e cuidar da sua última fase. No que diz respeito ao drama do aborto, a Igreja afirma antes de tudo o caráter sagrado e inviolável da vida humana, comprometendo-se concretamente a favor dela (cf. EV, 58). Graças às suas instituições, ela oferece conselhos às mulheres grávidas, sustém as mães solteiras, assiste as crianças abandonadas e está próxima daquelas que sofreram o aborto. A quantos trabalham nas estruturas de assistência à saúde, recorda-se a obrigação moral da objeção de consciência. Do mesmo modo, a Igreja não somente sente a urgência de afirmar o direito à morte natural, evitando o excesso terapêutico e a eutanásia, mas também cuida dos idosos, protege as pessoas portadoras de deficiência, assiste os doentes terminais, consola os moribundos e rejeita com firmeza a pena de morte (cf. CIC, 2258).

Adoção e acolhimento

65. A adoção de crianças órfãs e abandonadas, acolhidas juntamente com os filhos naturais no espírito da fé, adquire a forma de um autêntico apostolado familiar (cf. AA, 11), muitas vezes evocado e encorajado pelo Magistério (cf. FC, 41; EV, 93). A escolha da adoção e do acolhimento exprime uma fecundidade particular da experiência conjugal, para além dos casos em que é dolorosamente marcada pela esterilidade. Esta escolha é um sinal eloquente do acolhimento generativo, testemunho da fé e cumprimento do amor. Ela restitui a dignidade recíproca a um vínculo interrompido: aos esposos que não têm filhos e aos filhos que não têm pais. Por isso, devem ser incentivadas todas as iniciativas destinadas a tornar mais viáveis os procedimentos de adoção. O tráfico de crianças entre países e continentes deve ser impedido com oportunas intervenções legislativas e controles por parte dos Estados. A continuidade entre a relação generativa e educativa tem como fundamento necessário a diferença sexual entre homem e mulher, assim como a procriação. Diante daquelas situações em que o filho é pretendido custe o que custar, como direito da própria realização, a adoção e o acolhimento retamente entendidos indicam um aspeto importante da genitorialidade e da filiação, enquanto ajudam a reconhecer que os filhos, tanto naturais como adotivos ou acolhidos, são diferentes de nós e é preciso acolhê-los, amá-los, cuidá-los, e não apenas pô-los no mundo. O interesse predominante pela criança deveria inspirar sempre as decisões sobre a adoção e o acolhimento. Como recordou o Papa Francisco, «as crianças têm o direito de crescer numa família, com um pai e uma mãe» (Audiência aos Participantes no Colóquio internacional sobre a complementaridade entre homem e mulher, promovido pela Congregação para a Doutrina da Fé, 17 de novembro de 2014). No entanto, a Igreja deve proclamar que, na medida do possível, as crianças têm o direito de crescer na sua família natal com a maior ajuda disponível.

A educação dos filhos

66. Um dos desafios fundamentais, entre aqueles que se apresentam às famílias hoje em dia, é seguramente o da educação, que se tornou mais exigente e complexo devido à realidade cultural atual e à grande influência dos meios de comunicação. Devem ser devidamente consideradas as exigências e as expectativas de famílias capazes de ser lugares de crescimento na vida de todos os dias, de concreta e essencial transmissão da fé, da espiritualidade e das virtudes que conferem forma à existência. A família de origem é muitas vezes o seio da vocação ao sacerdócio e à vida consagrada: portanto, exortam-se os pais a pedir ao Senhor o dom inestimável da vocação para alguns dos seus filhos. No campo educativo deve ser tutelado o direito dos pais a escolherem livremente o tipo de educação que querem oferecer aos filhos, segundo as suas convicções, e sob condições acessíveis e de qualidade. É necessário ajudá-los a viver a afetividade, inclusive nos relacionamentos conjugais, como um caminho de amadurecimento, no acolhimento cada vez mais profundo do outro e numa doação sempre mais completa. Neste sentido, é preciso reiterar a necessidade de propor caminhos formativos que alimentem a vida conjugal e a importância de um laicado que ofereça um acompanhamento feito de testemunho vivo. É de grande ajuda o exemplo de um amor fiel e profundo, assente na ternura e no respeito, capaz de crescer ao longo do tempo e que, no seu abrir-se concreto à geração da vida, faz a experiência de um mistério que nos transcende.

67. Nas diferentes culturas, os adultos da família conservam uma função educativa insubstituível. Contudo, em muitos contextos continuamos a assistir a um progressivo debilitamento do papel educativo dos pais, por causa de uma presença invasiva dos meios de comunicação no seio da esfera familiar, mas também devido à tendência a delegar ou a reservar esta tarefa a terceiros. Por outro lado, os meios de comunicação (especialmente os social media) unem os membros da família também à distância. O uso do e-mail e de outros social media pode manter unidos no tempo os membros da família. Além disso, os meios de comunicação podem constituir uma ocasião para a evangelização dos jovens. Pede-se que a Igreja encoraje e apoie as famílias na sua obra de participação vigilante e responsável em relação aos programas escolares e educacionais que dizem respeito aos seus filhos. Há unanimidade quando se afirma que a primeira escola de educação é a família, e que a comunidade cristã se apresenta como ajuda e integração deste papel formativo insubstituível. Considera-se necessário identificar espaços e momentos de encontro para encorajar a formação dos pais e a partilha de experiências entre famílias. É importante que os pais participem ativamente nos caminhos de preparação para os sacramentos da iniciação cristã, como primeiros educadores e testemunhas de fé para os seus filhos.

68. As escolas católicas desempenham uma função vital na assistência aos pais, no seu dever de educar os filhos. A educação católica favorece o papel da família: assegura uma boa preparação, educa para as virtudes e os valores, orienta nos ensinamentos da Igreja. As escolas católicas deveriam ser encorajadas na sua missão de ajudar os alunos a crescer como adultos maduros que podem ver o mundo através do olhar de amor de Jesus e que compreendem a vida como um chamamento ao serviço de Deus. Por isso, as escolas católicas são relevantes para a missão evangelizadora da Igreja. Em muitas regiões as escolas católicas são as únicas que garantem oportunidades autênticas às crianças de famílias pobres, de maneira especial às jovens, oferecendo-lhes uma alternativa à pobreza e um caminho para dar uma verdadeira contribuição para a vida da sociedade. As escolas católicas deveriam ser animadas a levar em frente a sua obra nas comunidades mais pobres, servindo os membros menos afortunados e mais vulneráveis da nossa sociedade.

 

Capítulo III

Família e acompanhamento pastoral

Situações complexas

69. O sacramento do matrimónio, como união fiel e indissolúvel entre um homem e uma mulher, chamados a acolher-se reciprocamente e a acolher a vida, é uma grande graça para a família humana. A Igreja tem a alegria e o dever de anunciar esta graça a todas as pessoas e em todos os contextos. Hoje ela sente, de modo ainda mais urgente, a responsabilidade de levar os batizados a descobrir de novo como a graça de Deus age na sua vida – até nas situações mais difíceis – a fim de os conduzir à plenitude do sacramento. Enquanto aprecia e encoraja as famílias que honram a beleza do matrimónio cristão, o Sínodo tenciona promover o discernimento pastoral das situações em que o acolhimento deste dom tem dificuldade de ser estimado, ou então está de algum modo comprometido. Manter vivo o diálogo pastoral com estes fiéis, para permitir o amadurecimento de uma abertura ao Evangelho do matrimónio e da família na sua plenitude, é uma grave responsabilidade. Os pastores devem identificar os elementos que podem favorecer a evangelização e o crescimento humano e espiritual daqueles que o Senhor confia aos seus cuidados.

70. A pastoral proponha com clareza a mensagem evangélica e reconheça os elementos positivos presentes naquelas situações que ainda não, ou já não, lhe correspondem. Em muitos países, um número crescente de casais convivem sem matrimónio algum, nem canónico, nem civil. Nalguns países existe o matrimónio tradicional, arranjado entre famílias e frequentemente celebrado em diversas etapas. Noutros países, ao contrário, aumenta o número de quantos, depois de ter vivido juntos durante muito tempo, pedem a celebração do seu matrimónio na igreja. A simples convivência é, não raro, escolhida por causa da mentalidade geral contrária às instituições e aos compromissos definitivos, mas também motivada pela espera de uma segurança existencial (trabalho e salário fixo). Finalmente, em determinados países as uniões de facto tornam-se cada vez mais numerosas, não somente devido à rejeição dos valores da família e do matrimónio, mas inclusive porque o casamento é sentido como um luxo, devido às condições sociais, de tal forma que a miséria material impele a viver uniões de facto. Todas estas situações devem ser enfrentadas de maneira construtiva, procurando transformá-las em oportunidades de caminho de conversão rumo à plenitude do matrimónio e da família à luz do Evangelho.

71. A escolha do matrimónio civil ou, em diversos casos, da simples convivência, muitas vezes é motivada não por preconceitos nem por resistências no que se refere à união sacramental, mas por situações culturais ou contingentes. Em muitas circunstâncias, a decisão de viver juntos é sinal de um relacionamento que quer realmente orientar-se para uma perspetiva de estabilidade. Esta vontade, que se traduz num vínculo duradouro, confiável e aberto à vida pode considerar-se um compromisso no qual inserir um caminho rumo ao sacramento nupcial, descoberto como o desígnio de Deus para a própria vida. O caminho de crescimento, que pode levar ao matrimónio sacramental, será incentivado pelo reconhecimento dos traços próprios do amor generoso e duradouro: o desejo de procurar o bem do outro, antes do que o próprio; a experiência do perdão pedido e oferecido; a aspiração a constituir uma família não fechada em si mesma, mas aberta ao bem da comunidade eclesial e da sociedade inteira. Ao longo deste percurso poderão ser valorizados os sinais de amor que propriamente correspondem ao reflexo do amor de Deus num autêntico projeto conjugal.

72. As problemáticas relativas aos matrimónios mistos exigem uma atenção específica. Os matrimónios entre católicos e outros batizados «na sua fisionomia particular, apresentam numerosos elementos que convêm valorizar e desenvolver, quer pelo seu valor intrínseco, quer pela ajuda que podem dar ao movimento ecuménico». Com esta finalidade, «procure-se [...] uma colaboração cordial entre o ministro católico e o não católico, desde o momento da preparação para o matrimónio e para as núpcias» (FC, 78). A respeito da partilha eucarística, recorda-se que «a decisão de admitir ou não a parte não católica do matrimónio à comunhão eucarística deve ser tomada em conformidade com as normas gerais existentes em matéria, tanto para os cristãos orientais como para os outros cristãos, e tendo em consideração esta situação particular, ou seja, que recebem o sacramento do matrimónio cristão dois cristãos batizados. Embora os esposos de um matrimónio misto tenham em comum os sacramentos do batismo e do matrimónio, a partilha da Eucaristia não pode deixar de ser extraordinária e, contudo, devem ser observadas as disposições indicadas [...]» (Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, Diretório para a Aplicação dos Princípios e das Normas para o Ecumenismo, 25 de março de 1993, 159-160).

73. Os matrimónios com disparidade de culto representam um lugar privilegiado de diálogo inter-religioso na vida quotidiana, e podem constituir um sinal de esperança para as comunidades religiosas, especialmente onde existem situações de tensão. Os componentes do casal compartilham as respetivas experiências espirituais, ou então um caminho de busca religiosa, se um dos dois não for crente (cf. 1 Cor 7, 14). Os matrimónios com disparidade de culto comportam algumas dificuldades específicas, tanto no que se refere à identidade cristã da família, como no que diz respeito à educação religiosa dos filhos. Os esposos são chamados a transformar cada vez mais o sentimento inicial de atração, com o desejo sincero do bem do outro. Esta abertura transforma também a diferente pertença religiosa numa oportunidade de enriquecimento da qualidade espiritual do relacionamento. O número de famílias compostas por uniões conjugais com disparidade de culto, em aumento nos territórios de missão e inclusive nos países de antiga tradição cristã, solicita a urgência de prover a um cuidado pastoral em conformidade com os diferentes contextos sociais e culturais. Em determinados países, onde a liberdade de religião não existe, o cônjuge cristão é obrigado a passar para outra religião para poder casar, e não lhe é permitido celebrar o matrimónio canónico em disparidade de culto, nem batizar os seus filhos. Por conseguinte, devemos reiterar a necessidade de que a liberdade religiosa seja respeitada em relação a todos.

74. Os matrimónios mistos e os matrimónios com disparidade de culto apresentam aspetos de fecundas potencialidades e de múltiplas criticidades, de não fácil solução, mais a nível pastoral do que normativo, como a educação religiosa dos filhos, a participação na vida litúrgica do cônjuge, a partilha da experiência espiritual. Para enfrentar de modo constitutivo as diversidades em ordem à fé, é necessário prestar uma atenção particular às pessoas que se unem em tais matrimónios, e não somente no período precedente às bodas. Desafios peculiares são enfrentados pelos casais e pelas famílias nas quais um dos parceiros é católico e o outro é não-crente. Nestes casos, é necessário dar testemunho da capacidade que o Evangelho tem de se inserir em tais situações, de modo a tornar possível a educação para a fé cristã dos filhos.

75. Particular dificuldade apresentam as situações que se referem ao acesso ao batismo por parte de pessoas que se encontram numa condição matrimonial complexa. Trata-se de pessoas que contraíram uma união matrimonial estável numa época em que ainda pelo menos uma delas não conhecia a fé cristã. Nestes casos, os Bispos são chamados a exercer um discernimento pastoral consentâneo ao seu bem espiritual.

76. A Igreja conforma a sua atitude ao Senhor Jesus que, num amor sem confins, se ofereceu por cada pessoa, sem exceções (cf. MV, 12). Em relação às famílias que vivem a experiência de ter no seu âmbito pessoas com tendência homossexual, a Igreja confirma que cada pessoa, independentemente da sua tendência sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, com o cuidado de evitar «qualquer atitude de injusta discriminação» (Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 4). Reserve-se uma atenção específica também ao acompanhamento das famílias em que vivem pessoas com tendência homossexual. No que se refere aos projetos de equiparação ao matrimónio das uniões entre pessoas homossexuais, «não existe fundamento algum para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uniões homossexuais e o plano de Deus sobre o matrimónio e a família» (Ibidem). Contudo, o Sínodo considera totalmente inaceitável que as Igrejas locais padeçam pressões nesta matéria, e que os organismos internacionais condicionem as ajudas financeiras aos países pobres, à introdução de leis que instituam o «matrimónio» entre pessoas do mesmo sexo.

Acompanhamento em diferentes situações

77. Numa partilha afetuosa, a Igreja faz suas as alegrias e as esperanças, as dores e as angústias de cada família. Para a Igreja, permanecer próxima da família como companheira de caminho significa assumir uma atitude sabiamente diferenciada: algumas vezes, é necessário permanecer ao lado e ouvir em silêncio; outras vezes, deve-se preceder para indicar o caminho a percorrer; e outras vezes ainda, é oportuno seguir, apoiar e encorajar. «A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos e leigos – nesta “arte do acompanhamento”, para que todos aprendam a tirar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Êx 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã» (EG, 169). A principal contribuição pastoral familiar é oferecida pela paróquia, que é família de famílias, onde se harmonizam os contributos de pequenas comunidades, movimentos e associações eclesiais. O acompanhamento exige sacerdotes especificamente preparados e a instituição de centros especializados em que sacerdotes, religiosos e leigos aprendam a cuidar de cada família, com uma atenção particular àquelas que vivem em dificuldade.

78. Um ministério dedicado àqueles, cuja relação matrimonial se interrompeu, parece particularmente urgente. O drama da separação muitas vezes chega no final de longos períodos de conflito, que fazer recair sobre os filhos os maiores sofrimentos. A solidão do cônjuge abandonado, ou que foi obrigado a interromper uma convivência caracterizada por maus-tratos contínuos e graves, exige uma atenção especial da parte da comunidade cristã. Prevenção e cuidado nos casos de violência familiar requerem uma colaboração estreita com a justiça, para agir contra os responsáveis e proteger adequadamente as vítimas. Além disso, é importante promover a salvaguarda dos menores contra o abuso sexual. Que na Igreja se tenha tolerância zero em tais casos, juntamente com o acompanhamento das famílias. Além disso, pareceria oportuno ter em consideração as famílias nas quais alguns membros desempenham atividades que comportam exigências particulares, como os militares que se encontram numa situação de separação material e de uma prolongada distância física da família, com todas as consequências que isto implica. Voltando dos ambientes de guerra, não raro eles sofrem de uma síndrome pós-traumática e sentem-se perturbados na consciência, que lhes dirige graves interrogações morais. Aqui é necessária uma peculiar atenção pastoral.

79. A experiência do fracasso matrimonial é sempre dolorosa para todos. Por outro lado, a própria falência pode tornar-se ocasião de reflexão, de conversão e de confiança em Deus: adquirindo a consciência das próprias responsabilidades, cada um pode voltar a encontrar confiança e esperança nele. «Do coração da Trindade, do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da misericórdia. Esta fonte nunca poderá esgotar-se, por maior que seja o número daqueles que dela se abeirem. Sempre que alguém tiver necessidade poderá aceder a ela, porque a misericórdia de Deus não tem fim» (MV, 25). O perdão pela injustiça padecida não é fácil, mas constitui um caminho que a graça torna possível. Por isso é necessária uma pastoral da conversão e da reconciliação, também através de centros de escuta e de mediação especializados, que se devem criar nas Dioceses. Contudo, é preciso promover a justiça em relação a todas as partes atingidas pela falência matrimonial (cônjuges e filhos). A comunidade cristã e os seus Pastores têm o dever de pedir aos cônjuges separados e divorciados que se tratem com respeito e misericórdia, sobretudo para o bem dos filhos, aos quais não se deve provocar ulterior sofrimento. Os filhos não podem ser um objeto de competição, e devem ser procuradas as melhores formas para que consigam superar o trauma da separação familiar e crescer da maneira mais tranquila possível. De qualquer forma, a Igreja deverá pôr sempre em evidência a injustiça, que muitas vezes deriva da situação de divórcio.

80. As famílias monoparentais têm origens diferentes: mães ou pais biológicos que nunca quiseram integrar-se na vida familiar, situações de violência das quais um dos pais teve que fugir com os filhos, morte de um dos pais, além de outras situações. Qualquer que seja a causa, quem mora com o próprio filho deve encontrar apoio e consolação junto das outras famílias que formam a comunidade cristã, assim como junto dos organismos pastorais paroquiais. Estas famílias são muitas vezes ulteriormente afligidas pela gravidade dos problemas económicos, pela incerteza de um trabalho precário, pela dificuldade enfrentada para a manutenção dos filhos e pela falta de uma casa. A mesma solicitude pastoral deverá ser manifestada também em relação às pessoas viúvas, às mães solteiras e aos seus filhos.

81. Quando os esposos experimentam problemas nos seus relacionamentos, devem poder contar com a ajuda e o acompanhamento da Igreja. A experiência demonstra que, com uma ajuda adequada e com a ação de reconciliação da graça do Espírito Santo, uma elevada percentagem de crises matrimoniais são superadas de maneira satisfatória. Saber perdoar e sentir-se perdoado constitui uma experiência fundamental na vida familiar. O perdão entre os esposos permite descobrir de novo a verdade de um amor que é para sempre, que nunca passa (cf. 1 Cor 13, 8). No âmbito dos relacionamentos familiares, a necessidade de reconciliação é praticamente quotidiana. As incompreensões devidas às relações com as famílias de origem, o conflito entre diferentes hábitos culturais e religiosos, a divergência a respeito da educação dos filhos, a ansiedade pelas dificuldades económicas, a tensão que surge por causa de dependências ou da perda do trabalho. São alguns dos recorrentes motivos de tensões e de conflitos. A cansativa arte da reconciliação, que tem necessidade da ajuda da graça, precisa da colaboração generosa de parentes e amigos, e às vezes inclusive de um apoio externo e profissional. Nos casos mais dolorosos, como o da infidelidade conjugal, é necessária uma verdadeira obra de reparação, à qual é preciso tornar-se disponível. Um pacto ferido pode ser curado: para esta esperança é necessário educar-se desde a preparação para o matrimónio. No cuidado das pessoas e das famílias feridas são fundamentais a ação do Espírito Santo, a frequência do sacramento da Reconciliação e a necessidade de caminhos espirituais acompanhados por ministros especialistas.

82. Para muitos fiéis que viveram uma experiência matrimonial infeliz, a averiguação da nulidade do seu matrimónio representa um caminho a percorrer. Os recentes Motu Proprio Mitis Iudex Dominus Iesus e Mitis et Misericors Iesus levaram a uma simplificação dos procedimentos para a eventual declaração de nulidade matrimonial. Com estes textos, o Santo Padre quis também «evidenciar que o próprio Bispo na sua Igreja, da qual está constituído pastor e chefe, é por isso mesmo juiz no meio dos fiéis a ele confiados» (MI, preâmbulo, III). Por conseguinte, a prática destes documentos constitui uma grande responsabilidade para os Ordinários diocesanos, chamados a julgar eles mesmos algumas causas e, de qualquer modo, a assegurar um acesso mais fácil dos fiéis à justiça. Isto comporta a preparação de pessoal suficiente, composto por clérigos e leigos, que se consagre de forma prioritária a este serviço eclesial. Portanto, será necessário pôr à disposição das pessoas separadas ou dos casais em crise, um serviço de informação, de aconselhamento e de mediação, ligado à pastoral familiar, que também poderá receber as pessoas em vista da investigação preliminar ao processo matrimonial (cf. MI, arts. 2-3).

83. O testemunho daqueles que inclusive em condições difíceis não contraem uma nova união, permanecendo fiéis ao vínculo matrimonial, merece o apreço e o apoio por parte da Igreja. Ela quer mostrar-lhes o rosto de um Deus fiel ao seu amor e sempre capaz de dar força e esperança renovadas. As pessoas separadas ou divorciadas mas não recasadas, que são frequentemente testemunhas da fidelidade matrimonial, devem ser encorajadas a encontrar na Eucaristia o alimento que as sustenha na sua situação.

Discernimento e integração

84. Os batizados que são divorciados e recasados devem ser integrados em maior medida nas comunidades cristãs, de várias maneiras possíveis, evitando todas as ocasiões de escândalo. A lógica da integração constitui a chave do seu acompanhamento pastoral, para que não somente saibam que pertencem ao Corpo de Cristo, que é a Igreja, mas também possam fazer uma experiência jubilosa e fecunda da mesma. São batizados, são irmãos e irmãs, e o Espírito Santo derrama sobre eles dons e carismas para o bem de todos. A sua participação pode manifestar-se em diferentes serviços eclesiais: por isso, é necessário discernir quais das diversas formas de exclusão atualmente praticadas nos âmbitos litúrgico, pastoral, educativo e institucional, podem ser superadas. Eles não apenas não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e amadurecer como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que os recebe sempre, que cuida deles com carinho e que os anima no caminho da vida e do Evangelho. Esta integração é necessária também em ordem ao cuidado e à educação dos seus filhos, que devem ser considerados os mais importantes. Para a comunidade cristã, cuidar destas pessoas não é um debilitamento da própria fé e do testemunho acerca da indissolubilidade matrimonial: aliás, é precisamente neste cuidado que a Igreja manifesta a sua caridade.

85. São João Paulo II ofereceu um critério global, que permanece a base para a avaliação destas situações: «Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações. Há, na realidade, diferença entre aqueles que sinceramente se esforçaram por salvar o primeiro matrimónio e foram injustamente abandonados, e aqueles que por sua grave culpa destruíram um matrimónio canonicamente válido. Há ainda aqueles que contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimónio, irreparavelmente destruído, nunca tinha sido válido» (FC, 84). Portanto, é tarefa dos presbíteros acompanhar as pessoas interessadas no caminho do discernimento, em conformidade com o ensinamento da Igreja e com as orientações do Bispo. Neste processo, será útil fazer um exame de consciência, através de momentos de reflexão e de arrependimento. Os divorciados recasados deveriam interrogar-se como se comportaram em relação aos seus filhos, quando a união conjugal entrou em crise; se houve tentativas de reconciliação; qual é a situação do parceiro abandonado; quais são consequências da nova relação sobre o restante da família e sobre a comunidade dos fiéis; e que exemplo ela oferece aos jovens que se devem preparar para o matrimónio. Uma reflexão sincera pode fortalecer a confiança na misericórdia de Deus, que a ninguém deve ser rejeitada.

Além disso, não se pode negar que, nalgumas circunstâncias, «a imputabilidade e responsabilidade de um ato podem ser diminuídas e até anuladas» (CIC, 1735) por causa de diversos condicionamentos. Por conseguinte, o juízo sobre uma situação objetiva não deve levar a um julgamento sobre a «imputabilidade subjetiva» (Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração, 24 de junho de 2000, 2a). Em determinadas circunstâncias, as pessoas encontram grandes dificuldades de agir de maneira diversa. Por isso, não obstante seja necessário promover uma norma geral, é preciso reconhecer que a responsabilidade em relação a certas ações ou decisões não é a mesma em todos os casos. Embora tenha em consideração a consciência retamente formada pelas pessoas, o discernimento pastoral deve assumir a responsabilidade por tais situações. Também as consequências dos gestos realizados não são necessariamente as mesmas em todos os casos.

86. O percurso de acompanhamento e de discernimento orienta estes fiéis para a tomada de consciência da sua situação perante Deus. O diálogo com o sacerdote, no foro interno, concorre para a formação de um juízo reto sobre aquilo que impede a possibilidade de uma participação mais plena na vida da Igreja e sobre os passos que podem favorecê-la e levá-la a crescer. Visto que na própria lei não existe graduação (cf. FC, 34), este discernimento nunca poderá prescindir da verdade e da caridade do Evangelho, propostas pela Igreja. Para que isto se verifique, devem ser garantidas as necessárias condições de humildade, discrição, amor à Igreja e ao seu ensinamento, na busca sincera da vontade de Deus e no desejo de chegar a uma resposta mais perfeita sincera à mesma.

 

Capítulo IV

Família e evangelização

A espiritualidade familiar

87. Na sua vocação e missão, a família é verdadeiramente um tesouro da Igreja. Todavia, como afirma São Paulo em relação ao Evangelho, «temos este tesouro em vasos de barro» (2 Cor 4, 7). Na porta de entrada da vida da família, afirma o Papa Francisco, «estão escritas três palavras [...]: “com licença”, “obrigado”, “desculpa”. Estas palavras realmente abrem o caminho para viver bem na família, para viver em paz. Trata-se de palavras simples, mas não são tão fáceis de pôr em prática! Elas encerram em si uma grande força: o vigor de proteger o lar, até no meio de inúmeras dificuldades e provações; ao contrário, a sua falta gradualmente abre fendas que até o podem fazer ruir» (Francisco, Audiência geral, 13 de maio de 2015). O ensinamento dos Pontífices convida a aprofundar a dimensão espiritual da vida familiar a partir da nova descoberta da oração em família e da escuta em comum da Palavra de Deus, da qual nasce o compromisso de caridade. O alimento principal da vida espiritual da família é a Eucaristia, especialmente no dia do Senhor, como sinal do seu profundo arraigar-se na comunidade eclesial (cf. João Paulo II, Dies Domini, 52.66). A oração doméstica, a participação na liturgia e a prática das devoções populares e marianas são eficazes meios de encontro com Jesus Cristo e de evangelização da família. Isto porá em evidência a especial vocação dos esposos a alcançar, com a graça do Espírito Santo, a sua santidade através da vida matrimonial, também participante no mistério da cruz de Cristo, que transforma as dificuldades e os sofrimentos em oferenda de amor.

88. Na família, a ternura constitui o vínculo que une os pais entre si, e eles aos filhos. Ternura quer dizer dar com alegria e suscitar no outro a alegria de se sentir amado. Ela exprime-se de modo particular prestando atenção delicada aos limites do outro, especialmente quando eles sobressaem de maneira evidente. Tratar com esmero e respeito significa curar as feridas e restituir esperança, de modo a reavivar no outro a confiança. A ternura nos relacionamentos familiares é a virtude de todos os dias, que ajuda a ultrapassar os conflitos interiores e relacionais. A tal propósito, o Papa Francisco convida-nos a refletir: «Temos a coragem de acolher, com ternura, as situações difíceis e os problemas de quem vive ao nosso lado, ou preferimos as soluções impessoais, talvez eficientes mas desprovidas do calor do Evangelho? Quão grande é a necessidade que o mundo tem hoje de ternura! Paciência de Deus, proximidade de Deus, ternura de Deus» (Homilia por ocasião da Santa Missa na Noite da Solenidade do Natal do Senhor, 24 de dezembro de 2014).

A família protagonista da pastoral

89. Se a família cristã quiser ser fiel à sua missão, deverá compreender bem de onde ela nasce: não pode evangelizar, sem ser evangelizada. A missão da família abrange a união fecunda dos esposos, a educação dos filhos, o testemunho do sacramento, a preparação de outros casais para o matrimónio e o acompanhamento amistoso daqueles casais ou famílias que encontram dificuldades. Por isso, é importante um esforço evangelizador e catequético orientado para o núcleo da família. A este respeito, tenha-se o cuidado de valorizar os casais, as mães e os pais, como protagonistas ativos da catequese, especialmente em relação aos filhos, em colaboração com sacerdotes, diáconos, pessoas consagradas e catequistas. Este esforço tem início a partir dos primeiros encontros sérios do casal. A catequese familiar serve de grande ajuda, como método eficaz para formar os jovens pais e para os tornar conscientes da sua missão de evangelizadores da própria família. Além disso, é muito importante sublinhar o nexo entre experiência familiar e iniciação cristã. No seu conjunto, a comunidade cristã deve tornar-se o lugar onde as famílias nascem, se encontram e se confrontam em conjunto, caminhando na fé e compartilhando percursos de crescimento e de intercâmbio recíproco.

90. A Igreja deve infundir nas famílias um sentido de pertença eclesial, um sentido do «nós», no qual nenhum membro é esquecido. Todos sejam animados a desenvolver as respetivas capacidades e a realizar o projeto da sua vida, ao serviço do Reino de Deus. Cada família, inserida no contexto eclesial, volte a descobrir a alegria da comunhão com outras famílias, para servir o bem comum da sociedade, promovendo uma política, uma economia e uma cultura ao serviço da família, também através da utilização dos social networks e dos meios de comunicação. Formulam-se votos a fim de que haja a possibilidade de criar pequenas comunidades de famílias, como testemunhas vivas dos valores evangélicos. Sente-se a necessidade de preparar, formar e responsabilizar algumas famílias, que possam acompanhar outras a viver de maneira cristã. É preciso recordar e encorajar também as famílias que se tornam disponíveis a viver a missão «ad gentes». Finalmente, evoca-se a importância de unir a pastoral juvenil à pastoral familiar.

A relação com as culturas e com as instituições

91. A Igreja, «vivendo no decurso dos tempos em diversos condicionalismos, empregou os recursos das diversas culturas para fazer chegar a todas as gentes a mensagem de Cristo, para a explicar, investigar e penetrar mais profundamente e para lhe dar melhor expressão na celebração da Liturgia e na vida da multiforme comunidade dos fiéis» (GS, 58). Por conseguinte, é importante ter em consideração estas culturas e respeitar cada uma delas nas suas particularidades. É oportuno também recordar aquilo que já o Beato Paulo VI escrevia: «A ruptura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época, como o foi também de outras épocas. Assim, importa envidar todos os esforços no sentido de uma generosa evangelização da cultura, ou mais exatamente das culturas» (EN, 20). A pastoral matrimonial e familiar tem necessidade de valorizar aqueles elementos positivos que se encontram nas diferentes experiências religiosas e culturais, e que representam uma «praeparatio evangelica». Contudo, no encontro com as culturas, uma evangelização atenta às exigências da promoção humana da família não poderá subtrair-se à denúncia franca dos condicionamentos culturais, sociais, políticos e económicos. A hegemonia crescente da lógica do mercado, que mortifica os espaços e os tempos de uma autêntica vida familiar, concorre também para agravar discriminações, pobrezas, exclusões e violências. Entre as diversas famílias que vivem em condições de indigência económica, por causa do desemprego, ou da precariedade do trabalho, ou ainda da falta de assistência social e médica, não raro acontece que alguns, incapazes de aceder ao crédito, caem vítimas da usura e às vezes são obrigados a abandonar as suas casas e até os próprios filhos. A este propósito, sugere-se que sejam criadas estruturas económicas de apoio adequado para ajudar estas famílias, ou então capazes de promover a solidariedade familiar e social.

92. A família é «a primeira célula vital da sociedade» (AA, 11). Ela deve voltar a descobrir a sua vocação, em benefício do viver social em todos os seus aspetos. É indispensável que as famílias, através do seu agregar-se, encontrem as modalidades para interagir com as instituições políticas, económicas e culturais, com a finalidade de edificar uma sociedade mais justa. Por isso, é necessário desenvolver o diálogo e a cooperação com as estruturas sociais, e há que encorajar e ajudar os leigos que, como cristãos, se comprometem nos âmbitos cultural e sociopolítico. A política tem o dever de respeitar de modo particular o princípio da subsidiariedade, sem limitar os direitos das famílias. A tal propósito, é importante ter em consideração a «Carta dos Direitos da Família» (cf. Pontifício Conselho para a Família, 22 de outubro de 1983) e a «Declaração Universal dos Direitos do Homem» (10 de dezembro de 1948). Para os cristãos que trabalham na política, o compromisso em prol da vida e da família deve ter a prioridade, dado que uma sociedade que descuida a família já perdeu a sua abertura ao futuro. As associações familiares, comprometidas no trabalho comum juntamente com grupos de outras tradições cristãs, têm como suas principais finalidades, entre outras, a promoção e a defesa da vida e da família, da liberdade de educação e da liberdade religiosa, da harmonização entre o tempo para o trabalho e o tempo para a família, a defesa das mulheres no trabalho e a tutela da objeção de consciência.

A abertura à missão

93. A família dos batizados é missionária por sua natureza e aumenta a sua fé no ato de a proporcionar aos outros, antes de tudo aos filhos. O seu próprio viver a comunhão familiar é já a sua primeira forma de anúncio. Com efeito, a evangelização começa a partir da família, na qual não se transmite unicamente a vida física, mas inclusive a vida espiritual. Não se deve esquecer o papel dos avós na transmissão da fé e das práticas religiosas: eles são as testemunhas do vínculo entre as gerações, guardiões de tradições de sabedoria, oração e bom exemplo. Assim, a família constitui-se como protagonista da ação pastoral através do anúncio explícito do Evangelho e da herança de múltiplas formas de testemunho: a solidariedade para com os pobres, a abertura à diversidade das pessoas, a preservação da criação, a solidariedade moral e material para com as demais famílias, principalmente para com as mais necessitadas, o esforço pela promoção do bem comum, também mediante a transformação das estruturas sociais injustas, a partir do território no qual ela vive, pondo em prática as obras de misericórdia corporal e espiritual.

 

CONCLUSÃO

94. Durante esta Assembleia nós, Padres sinodais, congregados ao redor do Papa Francisco, pudemos experimentar a ternura e a oração da Igreja inteira, caminhar como os discípulos de Emaús e reconhecer a presença de Cristo na fração do pão na mesa eucarística, na comunhão fraternal e na partilha das experiências pastorais. Fazemos votos a fim de que o fruto deste trabalho, agora entregue nas mãos do Sucessor de Pedro, proporcione esperança e alegria a numerosas famílias no mundo, orientação aos pastores e aos agentes no campo da pastoral, bem como estímulo à obra de evangelização. Concluindo este Relatório, pedimos humildemente ao Santo Padre que avalie a oportunidade de oferecer um documento sobre a família para que nela, igreja doméstica, resplandeça cada vez mais Cristo, luz do mundo.

 

Oração à Sagrada Família

Jesus, Maria e José
em vós nós contemplamos
o esplendor do verdadeiro amor,
a vós dirigimo-nos com confiança.

Sagrada Família de Nazaré,
faz também das nossas famílias
lugares de comunhão e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas.

Sagrada Família de Nazaré,
nunca mais nas famílias se vivam experiências
de violência, fechamento e divisão:
quem quer que tenha sido ferido ou escandalizado
receba depressa consolação e cura.

Sagrada Família de Nazaré,
desperta de novo em todos a consciência
da índole sagrada e inviolável da família,
a sua beleza no desígnio de Deus.

Jesus, Maria e José
escutai, atendei a nossa súplica.
Amém.

 

 


 

 

 

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