Queridos irmãos e irmãs:
Dou-vos as boas-vindas com
alegria, por ocasião do encontro mundial do movimento Retrouvaille. Saúdo
todos vós, esposos e presbíteros, tal como aos responsáveis
internacionais desta associação que há mais de 30 anos
trabalha com grande entrega ao serviço dos casais em
dificuldade. Saúdo em particular o cardeal Ennio Antonelli,
presidente de Conselho Pontifício para a Família, agradeço
as suas amáveis palavras e por ter-me dado a conhecer as
finalidades deste movimento.
Impressionou-me a vossa
experiência, queridos amigos, que vos põe em contacto com
famílias marcadas pela crise do matrimónio. Reflectindo
sobre a vossa actividade, uma vez mais pude ver a mão de
Deus, ou seja, a acção do Espírito Santo, que suscita na
Igreja respostas adequadas às necessidades e às emergências
de todas as épocas. Certamente, em nossos dias a separação e
os divórcios se converteram numa emergência muito forte.
Portanto, foi providencial a intuição dos cônjuges Guy e
Jeannine Beland, em 1977, de ajudar os casais em grave crise
a enfrentá-la por meio de um programa específico, cujo fim é
reconstruir as suas relações, não como uma alternativa às
terapias psicológicas, mas como um caminho diferente e
complementar. De facto, vós não sois profissionais; sois
esposos que com frequência viveram na primeira pessoa as
mesmas dificuldades, superaram-nas com a graça de Deus e com
o apoio de Retrouvaille
e experimentaram o desejo e a alegria de colocar, por
sua vez, a própria experiência ao serviço dos demais. Entre
vós há vários sacerdotes que acompanham os esposos no seu
caminho, oferecendo-lhes a Palavra e o Pão da vida. «O que
haveis recebido de graça, dai de graça» (Mateus 10,8):
constantemente fazeis referência a estas palavras de Jesus
dirigidas aos seus discípulos.
Como demonstra a vossa
experiência, a crise conjugal – estamos a referir-nos a
crises sérias e graves – constitui uma realidade com duas
faces. Por um lado apresenta-se, especialmente na sua fase
aguda mais dolorosa, como um fracasso, como a prova de que o
sonho acabou ou se transformou num pesadelo e de que,
infelizmente, «não há nada a fazer». Esta é a face negativa.
Mas há outra face, que nós desconhecemos com frequência, mas
que Deus vê. Toda a crise, de facto – a natureza nos ensina
–, constitui um passo para uma nova fase da vida. Enquanto
que nas criaturas inferiores isso acontece de maneira
automática, no ser humano esse passo implica a liberdade, a
vontade e, portanto, uma «esperança maior» que o desespero.
Nos momentos mais escuros, os cônjuges perderam a esperança;
então se dá a necessidade de outras pessoas que a custodiem,
de um «nós», de uma companhia de autênticos amigos que, com
o máximo respeito, mas também com sincera vontade de
bem-fazer, estejam dispostos a compartilhar algo da sua
própria esperança com quem a perdeu. Mas não de maneira
sentimental ou superficial, mas de forma organizada e
realista. Deste modo, no momento da ruptura, oferecereis ao
casal uma referência positiva na qual confiar frente ao
desespero. De facto, quando a relação degenera, os cônjuges
caem na solidão, tanto individual como de casal. Perdem o
horizonte da comunhão com Deus, com os demais e com a
Igreja. Então, os vossos encontros oferecem o «amparo» para
este horizonte não se perder totalmente, e para voltar a
subir pouco a pouco a montanha. Vejo-vos como custódios de
uma esperança maior para os esposos que a perderam.
A crise, portanto, é
concebida como momento de crescimento. Desde esta
perspectiva pode ler-se a narração das bodas de Caná (João 2,1-11).
A Virgem Maria percebe que os esposos «já não têm vinho» e
diz isso a Jesus. Esta falta de vinho faz pensar no momento
no qual, na vida de casal, acaba o amor, se esgota a alegria
e se derruba o entusiasmo do matrimónio. Depois de Jesus
transformar a água em vinho, vieram felicitar o esposo pois,
segundo diziam, havia guardado até esse momento «o vinho
bom». Isso significa que o vinho de Jesus era melhor que o
anterior. Sabemos que este «vinho bom» é símbolo da
salvação, da nova aliança nupcial, que Jesus veio realizar
com a humanidade. E precisamente desta é sacramento todo o
matrimónio cristão, inclusive o mais frágil e vacilante, e
pode encontrar, portanto, na humildade a valentia para pedir
ajuda ao Senhor. Quando um casal em dificuldade ou – como
demonstra a vossa experiência – inclusive já separado, se
encomenda a Maria e se dirige Àquele que fez dos dois «uma
só carne», pode estar seguro de que a crise se converterá,
com a ajuda do Senhor, num momento de crescimento e que o
amor será purificado, amadurecido, reforçado. Isso só Deus
pode fazer, Ele que quer servir-se dos seus discípulos como
de válidos colaboradores para aproximar-se dos casais,
escutá-los, ajudá-los a redescobrir o tesouro escondido do
matrimónio, o fogo que foi sepultado sob as cinzas. Reaviva
e faz que volte a arder a chama; certamente, não como no
enamoramento, mas de uma maneira diferente, mais intensa e
profunda: porém, é sempre a mesma chama.
Estimados amigos que
haveis querido colocar-vos ao serviço dos demais num campo
tão delicado: asseguro-vos a minha oração para que o vosso
compromisso não se converta em mera actividade, mas seja
sempre, no fundo, testemunho do amor de Deus. O vosso
serviço vai «contra a corrente». Hoje, de facto, quando um
casal entra em crise, encontra muitas pessoas que aconselham
a separação. Mesmo aos esposos casados no nome do Senhor é
proposto com facilidade o divórcio; esquece-se que o homem
não pode separar o que Deus uniu (cf. Mateus 19, 6; Marcos 10,
9). Para desempenhar a vossa missão, também vós tendes
necessidade de alimentar continuamente a vossa vida
espiritual, pôr amor no que fazeis para que, ao entrar em
contacto com realidades difíceis, a vossa esperança não se
esgote e não seja reduzida a uma fórmula. Que nesta delicada
obra apostólica vos ajude a Sagrada Família de Nazaré, a
quem confio o vosso serviço, e especialmente os casos mais
difíceis. Que esteja a vosso lado Maria, Rainha da família,
enquanto envio de coração a bênção apostólica a vós e a
todos os que aderem ao movimento Retrouvaille.