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O que se está passando entre nós, em relação à instituição
familiar, no plano legal, com graves e inevitáveis
repercussões na vida pessoal e no plano social, é, a meu ver,
a mancha mais negra e vergonhosa da nossa história recente.
Não serão precisos muitos anos para que os fautores desta
vergonhosa façanha o verifiquem, porventura sentindo então as
dores, na sua carne e na dos seus, do que fizeram, de modo
inconsciente ou condenavelmente premeditado.
Trata-se de uma verdadeira politica de hipocrisia. Advoga-se
por leis, despachos e portarias que as crianças
institucionalizadas e os doentes mentais retidos em hospitais
devem ser entregues à família, sem se verificar se ela existe
e tem consistência e capacidade para assumir essa
responsabilidade e consequentes tarefas; retira-se a criança à
família que a criou, desde os primeiros dias, para a entregar
àquela que a rejeitou ainda antes de ela nascer; fala-se do
valor da adopção e paralisa-se o desejo e a vontade de adoptar
num emaranhado de burocracias e papéis que mais levam a
desistir que a confiar num êxito, ainda que remoto; aceita-se
e até se diz, teoricamente, que a família é o melhor espaço e
ambiente para educar uma criança, mas criam-se condições
legais que a destroem ou a isso dão pretexto e ocasião,
privilegiando-se os caprichos pessoais, a falta de esforço
normal para ultrapassar dificuldades, menosprezando assim o
direito de quem acredita na família e se sente vítima
ultrajada dos que a vilipendiam; o divórcio, cada vez mais
fácil, é prova de modernidade e de progresso social, sem que
se tenha em conta a repercussão desta facilidade em muitas
vidas atingidas pelo favor de leis que mutilam a dignidade das
pessoas e as libertam de responsabilidades pessoais e sociais;
para se apoiarem formas estranhas de casamento, os casos
pessoais ganham um direito de cidadania que os sobrepõem a
tudo e todos, não se procurando o respeito que a todos é
devido, segundo a sua situação e o interesse comum e, a
pretexto de igualdade, faz-se um nivelamento que não conta com
as naturais desigualdades; sem se olhar à sanidade e ao futuro
da sociedade, ridiculariza-se a família normal e o seu direito
e dever de procriar, importando-se acriticamente e
implementando-se, por força de uma maioria parlamentar, o
pensar de estranhos que nunca acreditaram na família, porque
nunca saborearam o seu verdadeiro valor e beleza; durante o
dia, o Estado considera-se dono das crianças, confia-as a quem
não aceita tal principio, satisfaz-lhes os gostos e
aguenta-lhes os caprichos, para, ao fim da tarde, as despejar,
caprichosas e frenéticas, nos braços de pais cansados e
preocupados e, ai deles, se lhes puxarem uma orelha ou lhes
derem uma merecida palmada, pois terão de se haver com a
justiça; sem ouvir os pais, mas entalando-os com decisões
posteriores a tomar e envolvem encargos, dão-se computadores
às crianças que, muitas vezes, em suas casas, não têm resposta
possível para as suas maiores necessidades; no direito à
educação escolar e à escolha dos projectos educativos os pais
não contam e, se ousam contar, são escandalosamente
penalizados…A ladainha pode continuar, que não parará logo
ali.
Na mente de quem legisla e de quem governa o país parece que a
família é mesmo para acabar. Só traz incómodas a quem quer ser
livre e encargos ao erário público. E se ela ousa ter quatro
ou mais filhos, paga por esta ousadia, porque para muitas
destas mentes brilhantes que detêm o poder, mais de dois
filhos é prova de insanidade mental.
Não escondo nem calo que há medidas a favor da família, mas
muitas destas mais preocupadas com o pensar dos estranhos que
com a resposta as necessidades. As estatísticas e os
relatórios dão números não mostram rostos nem transmitem
dores. E, quem está bem, não entenderá facilmente as carências
de muitas famílias que também pagam impostos e já lhes falta
voz para clamarem pela justiça a que têm direito.
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