A crise da família não é
só uma crise moral, é uma crise mais profunda, de natureza
antropológica – pois afecta a própria concepção da
mulher e do homem. É essa crise antropológica que explica o
aparecimento de legislações contra a família, sublinhou o
cardeal Marc Ouellet.
O arcebispo de Quebec
ilustrou, na jornada inaugural do Congresso Teológico
Pastoral com o qual começou esta quarta-feira o VI Encontro
Mundial da Família, o actual «transtorno de valores» que
gera o aparecimento, em alguns países, de leis que pretendem
anular a distinção entre casamento e relações entre pares de
homossexuais.
Em jogo está, segundo o
primaz do Canadá, uma «batalha cultural», na qual «uma
visão do mundo sem Deus tenta suplantar a herança
judaico-cristã», com danos graves «no campo humano, social e
religioso».
Esta crise antropológica,
particularmente difundida no Ocidente, foi promovida em boa
medida pela ideologia do gênero (gender theory), que
desnaturaliza «a realidade do matrimónio e da família
reconstruindo a noção do casal humano a partir dos desejos
subjectivos do indivíduo e esquecendo a diferença sexual,
até o ponto de tratar de forma equivalente a união
heterosexual e as relações homossexuais».
«Segundo essa teoria –
esclareceu –, a diferença sexual inscrita na realidade
biológica do homem e da mulher não influiria de modo
significativo na identidade sexual dos indivíduos porque
esta seria o resultado de uma orientação subjectiva e de uma
construção social.»
«Sob a pressão destas
ideologias, às vezes abertamente anticristãs, certos Estados
elaboram legislações que subvertem, porque não têm em conta
as realidades antropológicas fundamentais que estruturam as
relações humanas, o sentido do matrimónio, da procriação, da
filiação e da família, .»
«Várias organizações
internacionais participam neste movimento de destruição do
matrimónio e da família em proveito de certos grupos de
pressão bem organizados que perseguem seus próprios
interesses em detrimento do bem comum», denunciou.
«A Igreja Católica critica
fortemente estas correntes culturais que obtêm facilmente o
apoio dos meios modernos de comunicação».
Diante deste panorama, o
purpurado propôs, quase três décadas depois, redescobrir as
propostas feitas por João Paulo II na exortação apostólica
pós sinodal
Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981).
Nela, o magistério
pontifício «define o matrimónio como uma união pessoal na
qual os esposos se dão e se recebem reciprocamente»,
explicou o cardeal canadense.
«Ao definir a essência da
família e sua missão pelo amor e não em primeiro lugar pela
procriação, o Papa não faz uma concessão duvidosa à
mentalidade contemporânea», declarou Ouellet. Antes pretende
alcançar «as próprias raízes da realidade», afirmando a
continuidade íntima «entre o amor pessoal dos esposos e a
transmissão da vida».
Deste modo facilmente se
percebe como o «amor conjugal fecundo» está na base e na
origem dos três valores do matrimónio: a fidelidade, a
indissolubilidade e a procriação.