Queridos irmãos e irmãs,
Queridas famílias
1. A todos vós congregados
para celebrar o VI Encontro Mundial das Famílias sob o
maternal olhar de Nossa Senhora de Guadalupe, «desejo a
graça e a paz de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo» (2 Ts 1,
2).
Acabam de rezar o Santo
Rosário, contemplando os mistérios gozosos do Filho de Deus
feito homem, que nasceu na família de Maria e José e cresceu
em Nazaré dentro da intimidade doméstica, entre as ocupações
diárias, a oração e as relações com os vizinhos. Sua família
o acolheu e o protegeu com amor, o iniciou na observância
das tradições religiosas e das leis de seu povo, o
acompanhou para a maturidade humana e para a missão à qual
estava destinado. «E Jesus – disse o Evangelho de São Lucas
– crescia em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos
homens» (Lc 2, 52).
Os mistérios gozosos
foram-se alternando com o testemunho de algumas famílias
cristãs provenientes dos cinco continentes, que são como um
eco e um reflexo em nosso tempo da história de Jesus e de
sua família. Estes testemunhos nos mostraram como a semente
do Evangelho continua germinando e dando fruto nas diversas
situações do mundo de hoje.
2. O tema deste VI
Encontro Mundial das Famílias – A família, formadora nos
valores humanos e cristãos – vem recordar que o ambiente
doméstico é uma escola de humanidade e de vida cristã para
todos os seus membros, com consequências benéficas para as
pessoas, a Igreja e a sociedade. Com efeito, o casal é
chamado a viver e cultivar o amor recíproco e a verdade, o
respeito e a justiça, a lealdade e a colaboração, o serviço
e a disponibilidade para com os demais, especialmente para
com os mais frágeis. O lar cristão, que deve «manifestar a
todos a presença viva do Salvador no mundo e na natureza
autêntica da Igreja» (Gaudium et spes, 48), há-de
estar impregnado da presença de Deus, pondo em suas mãos o
acontecer quotidiano e pedindo sua ajuda para cumprir
adequadamente sua imprescindível missão.
3. Para isso é de suma
importância a oração em família nos momentos mais adequados
e significativos, pois, como o Senhor mesmo assegurou: «onde
dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estarei no
meio deles» (Mt 18, 20). E o Mestre está certamente com a
família que escuta e medita a Palavra de Deus, que aprende
d'Ele o mais importante na vida (cfr. Lc 10, 41-42) e põe em
prática Seus ensinamentos (cf. Lc 11, 28). Deste modo, se
transforma e se melhora gradualmente a vida pessoal e
familiar, se enriquece o diálogo, se transmite a fé aos
filhos, se acrescenta o gosto de estar juntos e o lar se une
e consolida mais, como uma casa construída sobre a rocha
(cf. Mt 24-25). Não deixem os pastores de ajudar as famílias
a que aproveitem frutuosamente a Palavra de Deus na Sagrada
Escritura.
4. Com a força que brota
da oração, a família se transforma em uma comunidade de
discípulos e missionários de Cristo. Nela se acolhe, se
transmite e se irradia o Evangelho. Como dizia meu venerado
predecessor o Papa Paulo VI: «os pais não só comunicam aos
filhos o Evangelho, mas podem por sua vez receber deles este
mesmo Evangelho profundamente vivido» (Evangelii
nuntiandi, 71).
A família cristã, vivendo
a confiança e a obediência filial a Deus, a fidelidade e o
acolhimento generoso dos filhos, o cuidado dos mais fracos e
a prontidão para perdoar, se converte num Evangelho vivo,
que todos podem ler (cf. 2 Co 3, 2), num sinal de
credibilidade talvez mais persuasivo e capaz de interpelar o
mundo de hoje. Há de levar também seu testemunho de vida e
sua explícita profissão de fé aos diversos âmbitos de seu
meio, como a escola e as diversas associações, assim como
comprometer-se na formação catequética dos seus filhos e as
actividades pastorais da sua comunidade paroquial,
especialmente aquelas relacionadas com a preparação para o
matrimónio ou dirigidas especificamente à vida familiar.
5. A convivência no lar,
ao mostrar que liberdade e solidariedade se complementam,
que o bem de cada um há de contar com o bem dos outros, que
as exigências da estrita justiça hão de estar abertas à
compreensão e ao perdão como caminho do bem comum, é um dom
para as pessoas e uma fonte de inspiração para a convivência
social. Com efeito, as relações sociais podem tomar como
referência os valores constitutivos da autêntica vida
familiar para humanizar-se cada dia mais e encaminhar-se
para a construção da «civilização do amor».
A família é, também, a
célula vital da sociedade, o primeiro e decisivo recurso
para seu desenvolvimento, e tantas vezes o último amparo das
pessoas às quais as estruturas estabelecidas não chegam para
prover satisfatoriamente em suas necessidades.
Por sua função social
essencial, a família tem o direito a ser reconhecida na sua
própria identidade e a não ser confundida com outras formas
de convivência, assim como a poder contar com a devida
protecção cultural, jurídica, económica, social, de saúde e,
muito particularmente, com um apoio que, tendo em conta o
número dos filhos e dos recursos económicos disponíveis,
seja suficiente para permitir a liberdade de educação e de
eleição da escola.
É necessário, portanto,
desenvolver uma cultura e uma política da família, que sejam
impulsionadas também de maneira organizada pelas próprias
famílias. Por isso as alento a unir-se às associações que
promovem a identidade e os direitos da família, segundo uma
visão antropológica coerente com o Evangelho, assim como
convido tais associações a coordenar-se e a colaborar entre
elas para que sua actividade seja mais incisiva.
6. Ao terminar, exorto
todos vós a ter uma grande confiança, pois a família está no
coração de Deus, Criador e Salvador. Trabalhar pela família
é trabalhar pelo futuro digno e luminoso da humanidade e
pela edificação do Reino de Deus. Invoquemos unidos
humildemente a graça divina, para que nos ajude a colaborar
com afinco e alegria na nobre causa da família, chamada a
ser evangelizada e evangelizadora, humana e humanizadora.
Nesta bela tarefa, nos
acompanha com sua maternal intercessão e com sua protecção
celestial a Santíssima Virgem Maria, a quem hoje invoco com
o glorioso título de Nossa Senhora de Guadalupe, e em cujas
mãos de Mãe coloco as famílias de todo o mundo.
Muito obrigado.
Bento XVI