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Ideologia do género e questões sociais, o papel da Igreja

Entrevista a Monsenhor Tony Anatrella
In Zenit - 10 de Outubro de 2010


A ideologia do género, dominante em muitas instâncias culturais e sociais no Ocidente, que procura impor a ideia de que a identidade sexual do indivíduo é uma mera construção social e nada tem a ver com a sua natureza biológica, foi um dos temas centrais da 15ª Assembleia Geral do SCEAM (Simpósio das Conferências Episcopais da África e Madagascar) em Accra, Gana.    

Sobre esta questão e sobre os ensinamentos a respeito da verdade do ser humano contidos na encíclica Caritas in Veritate, falou aos bispos do continente africano monsenhor Tony Anatrella.

Monsenhor Anatrella é psicanalista e especialista em psiquiatria social. Consultor do Conselho Pontifício para a Família e do Conselho Pontifício para a Pastoral no Campo da Saúde, é também membro da Congregação para a Doutrina da Fé e lecciona em Paris, no IPC e no Collège des Bernardins.

Foi convidado para dar uma palestra sobre o tema: "A Caritas in Veritate e a ideologia do género" aos bispos africanos reunidos em Accra para a sessão plenária do SCEAM, celebrada de 26 de Julho a 2 de Agosto de 2010.

Sobre o tema concedeu esta entrevista à agência ZENIT.

A encíclica Caritas in Veritate  aborda realmente os problemas levantados pela ideologia do género?

Monsenhor Tony Anatrella: A questão antropológica é o fio condutor da reflexão da última encíclica do Papa. De fato, além do lado económico da crise actual, esta é também uma crise moral e espiritual sobre o sentido do homem. A Caritas in veritate tem a intenção de abordar a concepção do ser humano que se construiu a partir das ciências humanas nos últimos cinquenta anos. O enfoque dessa concepção, sob o disfarce de ciência, apresenta-se como uma ideologia que sugere que o ser humano é o resultado da cultura e que se constrói com independência da natureza humana e das leis universais inerentes à sua condição. A ideologia do género é o sinal mais problemático das ideias actuais sobre o homem.

Nos países ocidentais, encontramo-nos precisamente nesta instabilidade antropológica e, por conseguinte, moral que desequilibra os vínculos sociais, já que ataca a estrutura na qual a sociedade se baseia. Isso ocorre por meio da desregulação financeira em nome do liberalismo e da economia de mercado, e da desregulação antropológica e moral, fazendo crer que as normas são criadas unicamente por consenso. Porém, não é o debate democrático que dá valor a uma lei, mas aquilo em que ela se fundamenta. Assim acontece com as leis que são questionáveis desde uma perspectiva antropológica. A sua aprovação não lhes dá necessariamente um valor moral. É dever da Igreja dizer isso.

Assim, instalaram-se um relativismo e um negacionismo dos pontos de referência da antropologia. Como não ver que isso está criando uma nova forma de violência? Esta se expressa começando pelos mais jovens que têm dificuldades de acesso às dimensões objectivas e simbólicas da relação com os demais e com a sociedade. Cada um se instala no desejo de inventar os seus próprios códigos, com a vontade de se impor aos demais. Este é o drama e o sintoma de algumas das nossas cidades. Já que não estamos em busca de normas transcendentes, de princípios de humanidade que não dependem do sujeito, mas da livre vontade da interpretação aleatória. Uma antropologia com um sentido de desenvolvimento humano, diz Bento XVI, inscreve-se na perspectiva do bem comum que dá conta da dimensão política e da dimensão religiosa da existência. 

Não se critica a Igreja por intervir no campo político? A Igreja está verdadeiramente cumprindo a sua função?

Monsenhor Tony Anatrela: A Igreja está a fazer o seu papel e deve intervir quando a dignidade humana está em jogo. Ao longo da história, os governos às vezes têm dificuldades em aceitar os ensinamentos da Igreja e em levá-los em conta. Muitos bispos e sacerdotes pagaram com o preço das suas vidas. Há uma incompreensão por parte da opinião pública e, muitas vezes, por parte dos responsáveis políticos, sobre o papel da Igreja, que não deve ser excluída do debate político quando recorda questões para despertar as consciências.

Cristo não fez outra coisa no Evangelho, mas manifestou a verdade de Deus e revelou a do homem. Para alguns a separação entre Igreja e Estado faria com que a Igreja não tivesse direito de intervir nas questões sociais e políticas. Trata-se de um erro de perspectiva sobre o significado da laicidade. É o Estado que é laico e não a sociedade.

A Igreja não tem de se esconder na sacristia. Tampouco há que opor as normas da Igreja às do Estado. Ainda que a Igreja não tenha por objectivo regular a sociedade política, a Igreja pode falar, em nome de seu ensinamento social, que tem influenciado enormemente a cultura ocidental, sobre todos os temas sociais que afectam a existência humana.

A separação da Igreja e do Estado é a separação do poder religioso e do poder político (no sentido de governo), e não fazer crer que haveria dois sistemas de pensamento opostos e contraditórios para pensar no bem comum. As normas políticas seriam assim estranhas não só às exigências antropológicas objectivas, mas também às regras morais. A criação da lei civil, bem como a prática política, sempre revelam uma concepção do homem que é compatível ou incompatível com os princípios da razão. A lei civil não está acima das referências morais. 

O discurso da Igreja não vai contra a razão humana?

Monsenhor Tony Anatrella: Com certeza que não. Muitos discursos ideológicos e políticos tentam escapar da evidência da razão humana. Ainda que o cristianismo produza seu próprio raciocínio a partir do Evangelho, não está em contradição com a razão das coisas quando pensa nelas. A relação com Deus, como ensina Cristo, é uma questão de amor, amor à verdade. Amam a verdade? O Sumo Pontífice enfatizou isso em sua encíclica. A Igreja intervém precisamente em nome destes princípios da razão, confrontados pela realidade e iluminados pela revelação cristã.

O Papa Bento XVI destacou maravilhosamente isso mesmo no seu discurso no Collège des Bernardins durante sua viagem apostólica a Paris e Lourdes (12 de Setembro de 2008). A fé cristã se apoia na razão para discernir o significado da Palavra de Deus e tirar todas as suas consequências. Não é unicamente uma questão religiosa, mas de saber a partir de quais realidades o ser humano se desenvolve na verdade e justiça. A Igreja pode ser entendida igualmente bem pelos crentes e pelos não crentes. Caritas in veritate lembra isso quando apela ao sentido de um desenvolvimento integral que não reduza o homem a um objecto económico, quando apela ao respeito da dignidade humana, à igualdade das pessoas, que não se confunde com o igualitarismo das situações e comportamentos, ao sentido do matrimónio e da família baseados unicamente na relação estável entre um homem e uma mulher, a uma prevenção contra a SIDA que não se limita às medidas sanitárias, ou também que a contraconcepção e o aborto são pseudo-avanços sociais que afectam a vida humana e causam sérios e graves problemas psicológicos, sociais, ecológicos, demográficos e morais, e, finalmente, que a eutanásia nunca é um acto de amor. O amor nunca inspira a morte.

Poderíamos indicar também outras situações nas quais a Igreja se tenta fazer entender e onde há uma tendência a minimizar ou ignorar o seu discurso quando não é conveniente ao conformismo dos clichês sociais e dos meios de comunicação. Pelo contrário, o discurso da Igreja já é considerado credível se justificar as posturas particulares e se for na direcção de certos movimentos de opinião. Caso contrário, é declarado ilegítimo pelo primeiro escritor ou crítico profissional que se posiciona contra a Igreja e quer dar aulas ao Papa e aos bispos. Na realidade, tanto uns como outros aproveitam para instrumentalizar o discurso da Igreja em vez de compreendê-lo de forma autêntica.

Em última instância, o que o Papa disse em sua encíclica e que os políticos deveriam ler: as decisões políticas são tomadas frequentemente condicionadas pela sociedade de consumo que impõe as suas normas económicas (com o símbolo moral dos franceses baseado unicamente no poder das aquisições que se realizaram durante um determinado período). A sociedade chamada liberal, de facto, a mais alienante das subjectividades, leva os políticos a se deixarem guiar por uma visão pragmática, a governar a partir dos pontos cegos da sociedade com leis de circunstâncias e sem ter princípios antropológicos precisos. As leis democráticas provêm de leis prescritas pelos meios de comunicação, às quais se submetem por vezes aos governantes.

Os meios de comunicação e as pesquisas, com a força das imagens e dos discursos, se impõem a todos com o imediatismo dos tempos da internet, em detrimento do sentido da história e do tempo de amadurecimento das opções políticas. O cada vez menor ensino da história, na escola, dá aos jovens o sentimento de que o tempo não conta, somente interessa o instante e o exotismo do que está ocorrendo nos outros lugares. Como reflectir e governar seriamente numa atmosfera de provocação e de "excitação mediática", com os olhos fixos no acontecimento presente e sem nenhum tipo de distância? A Igreja apela para a razão, para a dignidade das pessoas e das situações, e se inscreve numa história.

Para alguns, a Igreja será generosa com os estrangeiros e rígida em assuntos morais (sobretudo quando se fala de preservativos, de homossexualidade, de divórcio, de aborto, de eutanásia). A Igreja não é rígida, mas é livre, lúcida e aberta à vida, como exige Cristo, já que é sempre no nome do mesmo princípio que ela intervém e estrutura a sua relação com o mundo: o respeito pela dignidade humana, o respeito pela expressão sexual como uma forma de relação amorosa comprometida entre um homem e uma mulher, e o respeito da vida desde o seu início até ao seu fim. Todas estas coisas estão sendo questionadas, também pela teoria do género, já que cada um é o seu próprio criador e destruidor, e por que não, o destruidor e exterminador de vidas que não são úteis! Uma ideologia tecnocrática e idealista e ao mesmo tempo tão danificadora como as suas precedentes!

Se na ideologia da teoria do género é dito que cada um constrói e inventa suas normas, o que a Caritas in Veritate diz sobre isso?

Monsenhor Tony Anatrella: Estamos em plena ilusão narcisista de acreditar que o homem se cria a si mesmo e é a sua própria referência. É o pecado do espírito por excelência, o pecado original ainda em acção.

Na Caritas in Veritate, o Santo Padre questiona, com as suas palavras, a ideologia tecnocrática que cria sistemas de compreensão do homem e de organização da sociedade pouco realistas e contrários tanto às necessidades humanas como ao bem comum.

É por isso que o Papa, na sua encíclica, averte contra "a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza", que é uma forma de "separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade" (n. 14). Por trás desta noção de "uma humanidade reconduzida ao estado originário" se revela o desejo de desconstruir as relações económicas em nome da sociedade de mercado, mas também os conceitos de homem e mulher, casais, matrimónio, família e criação dos filhos. A verdade do ser humano se encontraria então na indiferenciação para serem iguais, na libertação de todos os modelos e de todas as representações, elaborados pelo processo da civilização, concebidos como super-estruturas que frustram os desejos primários e as exigências circunstanciais.

Neste sentido, o Papa alerta, o ser humano já não se concebe como um dom oferecido a si mesmo com uma ontologia que lhe é própria, mas como um ser que se cria e se forma sozinho. O desenvolvimento humano, longe de ser uma vocação que vem de um chamamento transcendente, e que portanto tem um significado, frequentemente se apresenta por meio da ideia de que o ser humano deve dar sentido a si mesmo. Contudo, destaca Bento XVI, "é incapaz por si mesmo de atribuir-se o próprio significado último" (n. 16). Voltando à Populorum Progressio, diz: "não há, portanto, verdadeiro humanismo senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a ideia exacta do que é a vida humana". De contrário, o ser humano raciocinará somente olhando para si próprio, sem outro tipo de relação para além do seu próprio narcisismo e vaidade, uma visão que caracteriza o espírito pagão das sociedades ocidentais, impregnadas de noções egoístas. Os construtores de ilusões, nas palavras de João Paulo II (n. 17), "fundam sempre as próprias propostas na negação da dimensão transcendente do desenvolvimento, seguros de o terem inteiramente à sua disposição. Esta falsa segurança converte-se em fraqueza, porque implica a sujeição do homem, reduzido à categoria de meio para o desenvolvimento, enquanto a humildade de quem acolhe uma vocação se transforma em verdadeira autonomia, porque torna a pessoa livre" (n. 17). Por outras palavras, se o sujeito humano desenvolve uma personalidade particular, no sentido psicológico do termo, já não é o seu ser que serve de base para o seu desenvolvimento pessoal e social. O homem se torna livre, independente e vigoroso quando reconhece a origem do seu ser. Nesta perspectiva, a fé cristã é uma libertação porque Cristo revela a sua verdade no alfa e omega. Uma "verdade que liberta" (Jo 8, 36-38), e esta verdade permite crescer num desenvolvimento constante, que é outra coisa diferente de nos construirmos a nós mesmos, ensina Bento XVI.

Mas esta verdade está longe de ser aceite como um dom recebido. A verdade é considerada como um produto humano, quando é, no melhor dos casos, o resultado de uma descoberta ou de uma recepção (n. 34). É assim que "o amor na verdade põe o homem na surpreendente experiência do dom" (n. 34). O homem cultiva uma má fé para não reconhecer este fato, e se retira até à auto-suficiência, até uma verdade conveniente. Ele quer lutar contra o mal com as suas próprias forças e em nome das leis democráticas que fabrica. Tenta ignorar o sentido do pecado e do mal que ferem o homem, acreditando erradicá-lo com leis civis que tantas vezes não fazem mais que fortalecê-lo. O homem moderno, diz o Papa, quer que coincida o bem-estar material e social com a saúde ou ainda a felicidade. Na tentativa de se salvar a si próprio, não só se perde, mas ainda fica cada vez mais na depressão, por ser incapaz de encontrar a fonte de seu ser. 

ZENIT: A ideologia do género teria tomado lugar de outras ideologias mortas?

Monsenhor Tony Anatrella: Temos de levar em conta que as organizações internacionais, as Nações Unidas, a Comissão Europeia e o Parlamento de Estrasburgo impõem esta nova ideologia com a ignorância dos cidadãos. Temos dado muitas palestras sobre este tema na França e no exterior, e o público fica surpreendido ao constatar que estas ideias são filtradas insidiosamente nas leis civis, nos meios de comunicação, nas séries de televisão, no ensino médio e na Universidade. Os meios de comunicação franceses louvaram, de forma demagógica e sem sentido crítico, a criação de uma Cátedra sobre Género, em Ciências Políticas, em Paris, na primavera de 2010, quando esta ideologia contamina a educação e as representações sociais já há anos. Como sempre, a ideologia de "moda" de uma época não pode suportar a crítica, como nos anos 1950-1960 estava na moda nos círculos chamados intelectuais não criticar o marxismo, mas honrá-lo em todas as disciplinas. A maioria dos estudos universitários foi impregnada dele.

A ideologia do género agora passa por meio de leis que têm por objetivo criar a realidade social. Este é o cavalo de Troia e é demasiadamente tarde quando se descobre. Os africanos querem ser vigilantes sobre o tema, e sua visão me impressionou durante minha estadia na África. Eles podem nos dar lições de realismo e de pensamento.

O ocidente deveria ser mais humilde e modesto em relação aos africanos, de contrário, corremos o risco de minar nossa credibilidade de vê-los estabelecer colaboração com outros países e outros horizontes culturais. As democracias, dado que estão nesta lógica da era dos grupos de pressão e dos comunicados compostos ideologicamente de antemão, em muitos organismos internacionais e europeus, criam leis (tecnocráticas) em nome de simples ajustes técnicos, como o ministro da Justiça disse na França em 1999, de modo que abraçam inicialmente uma concepção da vida e alteram o sentido da realidade. Este é o sentido do que passou com a instituição do matrimónio. O marxismo queria inventar um novo homem, o nazismo, um homem puro, e a teoria de género, um homem libertado da diferença sexual: os homens e as mulheres são intercambiáveis em nome do falso valor da paridade sexual e as orientações sexuais poderiam ser origem do casal e da família. Como não ver que o niilismo e o revisionismo das realidades mais importantes estão trabalhando?

ZENIT: Como está se expandindo a ideologia de género na África?

Monsenhor Tony Anatrella: O Ocidente produz ideias que são novas patologias sociais e tenta exportá-las para a África, ainda que os africanos não queiram, apesar do financiamento oferecido em saúde, educação, casais e família, em troca da difusão dos conceitos de "género" neste continente. Alguns grupos cristãos estão presos no jogo das subvenções na medida em que propagam esta ideologia em sessões de formação organizadas pelas Cáritas dirigidas aos sacerdotes, religiosos e religiosas. Alguns bispos me disseram que rejeitaram e se negaram a usar fundos para as suas escolas e centros de saúde porque não queriam ser instrumentalizados pelas agências da ONU e as ONGs. Do mesmo modo, os responsáveis políticos de vários países africanos suportam cada vez menos a ação comum das diversas chancelarias europeias, através de suas embaixadas, que intervêm de forma vigorosa para favorecer o reconhecimento quase matrimonial das relações entre pessoas do mesmo sexo. Para os africanos, os ocidentais cometem um disparate ao querer impor-lhes um estilo de vida que é contrário à realidade de que só um homem e uma mulher formam um casal, concebem, adotam e educam filhos. Não há discriminação em afirmar que o interesse superior da criança é poder crescer entre um homem e uma mulher. Inclusive seria discriminatório privá-la da união de um homem e uma mulher no coração da vida conjugal, que gera de verdade uma família. O interesse superior da criança não reside em rodeá-la afetivamente de pessoas que se ocupam dela, mas viver nas mesmas condições da filiação que só podem partilhar um homem e uma mulher. O resto é uma falsificação da conjugalidade e da filiação, com efeitos danosos sobre os indivíduos e a sociedade.

Na ideologia de género, o que se quer é submeter-nos a uma natureza indeterminada e maleável segundo as fantasias de cada um. A psicanálise nos ensinou que os antigos já sabiam que a fantasia não está destinada a se tornar realidade. O clima social e a política educativa da época atual não facilitam esta operação, porque valorizam a infantilidade, a impulsividade e o permanente passo à ação.

ZENIT: A teoria de género rejeita portanto a diferenciação sexual, que é um dos fundamentos da sociedade?

Monsenhor Tony Anatrella: Sim. Nega a diferenciação sexual e esta transgressão do real é insuportável para os africanos, que, no melhor dos casos, têm o sentido do homem e da mulher e da família, quando não estão submetidos a concepções de desigualdade e dominação do homem sobre a mulher. Esta negação se deve a que, ao se ter criado esta ideologia a partir de personalidades transexuais que já não aceitam seu corpo sexuado, mas um corpo fantasiado pertencente ao outro sexo, os primeiros teóricos concluíram que a identidade sexual não estaria de verdade inscrita no corpo, mas na psique. Ou dito de outra forma, o verdadeiro sexo é a fantasia. Estamos em plena hemorragia psíquica. Um caso particular se converteu em generalidade. Assim nasceu uma ideologia psicologizadora em cujo nome a política está chamada a fazer leis a partir dos interesses subjetivos de cada um, que dividem a sociedade.

O movimento feminista e as lésbicas e os gays aproveitaram para dar legitimidade "científica" ao seu estilo de vida e às suas reivindicações. A orientação sexual substitui a identidade sexual. Desenvolveu-se toda uma trajetória de compaixão em torno destas questões por causa da pandemia da SIDA-AIDS, e a teoria, unindo os sentimentos e a negação da humanidade, impôs-se até o ponto de se converter na norma a partir da qual se redefinem o homem, a mulher, o casal, o matrimónio, a família e a filiação. Esta dinâmica precisou de mais de 40 anos para criar novos paradigmas e suceder ao marxismo.

Assim, em lugar de tentar unir na complementaridade, estabelecendo relações entre as diferenças sexuais do homem e da mulher, esta teoria (e as leis feitas em seu nome) separa e opõe cada vez mais, tentando se manter na indiferença e, de fato, na confusão dos pensamentos.

A teoria de género não deixa de opor o homem contra a mulher até à reivindicação de um poder feminino baseado numa autonomia das mulheres que exclui o homem da procriação humana e da vida familiar. Manifesta uma profunda falta de maturidade intelectual, no sentido de que a finalidade da maturidade humana não é a autonomia, ainda que este passo seja necessário no momento da adolescência, para que o sujeito tome posse de si mesmo, mas a interdependência entre o homem e a mulher. Isso facilita a sua relação de cooperação, a complementaridade e os papéis de acordo com as qualidades, as habilidades e as simbologias de cada sexo. Não é certo que todas as funções possam ser realizadas indistintamente por homens e mulheres e que isso não tenha consequências nas pessoas e nos vínculos sociais. Basta observar as crianças e os adolescentes no âmbito escolar.

A igual cooperação entre homem e mulher não se deve confundir com a similaridade e, nesse sentido, a escola mista fracassou. Em vez de fomentar uma melhor relação entre um e outro, implica uma identificação feminina com a psicologia masculina e a necessidade, entre os pós-adolescente trintões, de se reunir em grupos de pessoas do mesmo sexo: masculino ou feminino. Fica por descobrir que a relação, a atração pelo outro e a relação do homem e da mulher se baseia no reconhecimento íntimo de sua distinção. Pelo contrário, a teoria do género sugere que não há distinção. Há no entanto uma psicologia masculina distinta da psicologia feminina, com interesses e necessidades que são diferentes entre si. Ao perder o sentido desta grande diferença entre os sexos, também se perde o sentido de outras diferenças quando queremos fazê-las valer. O que é uma farsa, porque o que se busca é a similaridade.

ZENIT: Um dos aspectos que o senhor analisa amplamente em seus livros é opor o homem à mulher. Como Cáritas in Veritate aborda essa questão? 

Monsenhor Tony Anatrella: O risco e o perigo da teoria do género consiste precisamente em que, em nome de artifícios intelectuais, divide e separa realidades humanas que estão destinadas a se unir. Adotar medidas legislativas, por exemplo, para alterar o uso da língua [portuguesa] para facilitar a oposição entre o homem e a mulher e fomentar o casamento e a adoção de crianças por pessoas do mesmo sexo, ainda que seja contraditório, é este tipo de situação paradoxal.

O Santo Padre sublinha, com razão, que o homem não se pode reduzir a um mero dado cultural, como sustenta a teoria de género. Em concreto, destaca o risco de separar a cultura da natureza humana. "Ecletismo e nivelamento cultural convergem no fato de separar a cultura da natureza humana. Assim, as culturas deixam de saber encontrar a sua medida numa natureza que as transcende, acabando por reduzir o homem a simples dado cultural. Quando isto acontece, a humanidade corre novos perigos de servidão e manipulação" (n. 26). Em resumo, a raça humana se destruirá a menos que se reencontre e se veja através da alteridade em que se baseia a "abertura à vida que é fundamental para o desenvolvimento integral" (n. 28). Uma alteridade que tem sua origem na alteridade de Deus uno e trino, como o Papa diz: "só o encontro com Deus permite deixar de «ver no outro sempre e apenas o outro», para reconhecer nele a imagem divina, chegando assim a descobrir verdadeiramente o outro e a maturar um amor que «se torna cuidado do outro e pelo outro» (n. 11).

Na teoria de género, estamos nas antípodas do sentido da alteridade, para nos instalarmos na similaridade, vista a partir de uma visão matemática da paridade em todos os pontos entre o homem e a mulher. Esta já não atua para voltar a questionar uma necessária igualdade entre homens e mulheres contra todos os modelos sociais concretos que iam contra essa dignidade. Lutou-se durante quase dois séculos contra os casamentos forçados e arranjados pelas famílias para que se aceitasse o casamento de livre eleição dos esposos, a responsabilidade conjugal e parental compartilhada entre um e outra e a centralidade da expressão sexual na vida do casal. Eu ainda lhe daria muitos exemplos que foram esquecidos na história das ideias para fazer justiça à Igreja quanto à promoção da mulher.

No entanto, o que se está produzindo não tem nada a ver com a igualdade entre homens e mulheres. A igualdade tem sido um pretexto para introduzir um poder feminino que tende a excluir o homem, em particular na esfera do casamento e da procriação. Uma atitude que consiste em desvalorizar o casamento em benefício da convivência, da união civil, da célula monoparental, colocando todos no mesmo plano. Uma confusão adicional prejudicial para o vínculo e a coesão social que resulta fragmentada. Então, você se surpreenderá com o crescente número de solteiros e a dificuldade para muitos de saber estar em casal e de elaborar uma relação conjugal segundo as etapas da própria vida em casal.

Por este motivo, o Santo Padre recorda que o casamento é a aliança comprometida entre um homem e uma mulher, e seria pouco razoável e injusto atribuir as suas características a situações relacionais que são de outra natureza. O Papa sublinha com razão que "os Estados são chamados a instaurar políticas que promovam a centralidade e a integridade da família, fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, célula primeira e vital da sociedade, preocupando-se também com os seus problemas económicos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional" (n. 44). Por outras palavras, os Estados se equivocam ao estender os direitos inerentes ao casamento a situações como a coabitação, o pacto civil e os pares homossexuais, que não têm as mesmas propriedades nem as mesmas virtudes. Assim, se fratura a antropologia em vez de ter uma visão unitiva.

O matrimónio não é uma realidade à disposição do legislador?

Monsenhor Tony Anatrella: Bento XVI, com razão, insiste que o matrimónio continua a ser uma instituição para o homem e a mulher, as crianças e a sociedade. Não é, portanto, uma realidade à livre disposição do legislador, mas é parte da lei natural que o precede. Não é um contrato. Tem as suas próprias condições, precisamente começando pela diferença sexual. O Papa precisou essa proposição, afirmando: "Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo económica, continuar a propor às novas gerações a beleza da família e do matrimónio, a correspondência de tais instituições às exigências mais profundas do coração e da dignidade da pessoa" (n. 44). A instituição do matrimónio está frequentemente em desvantagem nas sociedades ocidentais em nome dos direitos individuais confundidos com os particularismos aleatórios e em detrimento do bem comum. Obviamente, os direitos individuais têm interesse sempre e quando não se desviam de seu propósito.

No capítulo 4 da encíclica, Bento XVI põe em dúvida a tendência atual que tenta organizar a sociedade a partir dos direitos individuais sem que estes se confrontem com o bem comum. Esta perspectiva dos direitos individuais reivindicada por alguns grupos de pressão e praticamente aceite pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos não anuncia senão o fim da dimensão dos direitos humanos objetivos e universais. Sobretudo porque em nome dos direitos humanos se reclama qualquer coisa. A ONU, a Comissão Europeia em Bruxelas e o Tribunal Europeu de Direitos Humanos estão condicionados por esta filosofia subjetiva e individualista que, a longo prazo, altera os vínculos sociais. Assim, o Papa escreve: "Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretensão de que não devem nada a ninguém, a não ser a si mesmas. Considerando-se titulares só de direitos, frequentemente deparam-se com fortes obstáculos para maturar uma responsabilidade no âmbito do desenvolvimento integral próprio e alheio". Por outro lado, "se os direitos do homem encontram o seu fundamento apenas nas deliberações duma assembleia de cidadãos, podem ser alterados em qualquer momento e, assim, o dever de os respeitar e promover atenua-se na consciência comum. Então os governos e os organismos internacionais podem esquecer a objetividade e a «indisponibilidade» dos direitos. Quando isto acontece, põe-se em perigo o verdadeiro desenvolvimento dos povos" (n. 43). A proliferação de leis ad hoc para atender as solicitudes específicas só podem desvalorizar o sentido do direito civil e esta desvalorização leva a que não sejam respeitadas, já que não estão honrando o interesse geral. 

As ciências sociais desempenharam um papel importante na aparição de novas ideologias fundadas nos direitos individuais e nas divisões artificiais da humanidade em lugar de respeitar as diferenças fundamentais. Os sociólogos que observam as atitudes e os comportamentos decretam que, dado que um fenómeno existe, não só deve ser admitido mas também legalizado e convertido em padrão. Daí a proliferação de leis que buscam legitimar os comportamentos em lugar do legislador criar leis em nome do bem comum.

Estamos assistindo a uma perversão gradual da lei em nome dos direitos das pessoas (de fato, interpostas em nome de normas individuais baseadas em manipulações subjetivas) que devem se impor à sociedade neutralizando os deveres. Por outras palavras, repetimos, não são os direitos individuais que estão em questão, mas o modo como são disfarçados. O Papa tem razão ao escrever que "a exasperação dos direitos desemboca no esquecimento dos deveres. Estes delimitam os direitos porque remetem para o quadro antropológico e ético cuja verdade é o âmbito onde os mesmos se inserem e, deste modo, não descambam no arbítrio" (n. 43). Na maioria dos países desenvolvidos, a lei está atualmente organizada para satisfazer as expectativas psicológicas.

Em sua recente conferência aos bispos da África, o senhor sustentou que estamos numa guerra ideológica. Que quer dizer?

Monsenhor Tony Anatrella: O Papa sublinhou com força: "assiste-se hoje a uma grave contradição: enquanto, por um lado, se reivindicam pseudo direitos, de carácter arbitrário e libertino, querendo vê-los reconhecidos e promovidos pelas estruturas públicas, por outro existem direitos elementares e fundamentais violados e negados a boa parte da humanidade" (n. 43). As famílias deslocadas não são sempre respeitadas em sua dignidade. As deslocalizações industriais empobrecem uns e exploram a mão de obra dos países emergentes. E, noutro nível, uma criança tem direito a ser educada só por um homem e uma mulher, seu pai e sua mãe, para suprir as suas necessidades e respeitar os seus interesses psicológicos, sociais, morais e espirituais.

Hoje, sublinha o Papa, numa mentalidade técnica, quer-se fazer coincidir o verdadeiro com o exequível (n. 70). "Mas, quando o único critério da verdade é a eficiência e a utilidade, o desenvolvimento acaba automaticamente negado" (idem). Tanto o matrimónio como a filiação não podem depender da utilidade para preencher a insatisfação e a frustração de alguém. Sobretudo, quando se prescinde de pensar no "sentido plenamente humano do agir do homem, no horizonte de sentido da pessoa vista na globalidade do seu ser" (idem).

Nesta batalha de ideias a aposta em jogo é sobretudo antropológica. "Paulo VI já tinha colocado em evidência, na Populorum Progressio, que a questão social se converteu radicalmente numa questão antropológica, no sentido de que implica a própria maneira não só de conceber mas também de manipular a vida" (75). Temos dito e repetido frequentemente que as heresias contemporâneas não são já propriamente religiosas, mas heresias antropológicas, em que a teoria de género é parte do panorama intelectual que a considera como uma norma quase internacional. O homem, abandonado desta maneira a si mesmo, não pode se conceber a não ser em termos de omnipotência ou na rivalidade do complexo de Caim. Precisamos harmonizar fé e razão, diz o Papa na sua encíclica. "Deus revela o homem ao homem; a razão e a fé colaboram para lhe mostrar o bem, desde que o queira ver; a lei natural, na qual reluz a Razão criadora, indica a grandeza do homem, mas também a sua miséria quando ele desconhece o apelo da verdade moral" (n. 75).

Não há que ocultar que estamos empenhados num combate de ideias em que os cidadãos ignoram frequentemente o que está em jogo e no que se faz todo o possível para marginalizar a Igreja, que cumpre a sua missão sublinhando as consequências deste tipo de ideologia sobre o futuro da humanidade. O questionamento do matrimónio é um dos primeiros aspectos de uma estratégia ideológica que tenta redefinir a sexualidade humana sobre uma base idealista e que se opõe à realidade da encarnação do homem em um corpo específico. Quem defende a ideologia de género sustenta a ideia de que todos somos seres humanos antes de sermos homens ou mulheres. Este sofisma generoso é uma ilusão, pois o ser humano em si não existe. Não somos assexuados. Só encontramos pessoas que são homens ou mulheres. Ademais, não há outras identidades fora destas. Apresentam-se numerosos paradoxos irreais nesta ideologia que fica marcada pela negação do corpo sexuado e responde a uma angústia que sempre atravessou a humanidade, a do reconhecimento, da aceitação e interiorização da diferença sexual. Este é o verdadeiro sentido da alteridade humana que se cumpre na revelação cristã. O significado do matrimónio não pode ser entendido a não ser a partir do corpo sexuado que permite a união e a comunhão entre um homem e uma mulher. 

Sobre que questões a Igreja e os cristãos devem atuar?

Monsenhor Tony Anatrella: Devem atuar para que os diferentes Parlamentos nacionais adotem leis civis que não estejam em contradição com os princípios de humanidade. A ideologia do género, produzida pelas ciências humanas, é um novo idealismo, à imagem do marxismo, que é contrário aos interesses humanos. Mas uma sociedade que já não compreende o sentido da diferença sexual perde progressivamente o sentido da verdade das coisas e favorece um profundo sentimento de insegurança. A instabilidade, já favorecida por outros fatores, progride, já que esta ideologia ataca o marco portador e simbólico da sociedade. Isso é porque - Montesquieu tinha razão ao escrever em O espírito das leis - não há que tocar nas leis mais que com uma mão trémula.

Para além da questão da diferença sexual, dado que se dá a entender que a identidade sexual é independente dos dados biológicos, acresce que a teoria de género dissocia a sexualidade biológica e psicológica da social para fazer uma construção social de um jogo de poder entre o homem e a mulher. A guerra de sexos substituiu a luta de classes. A primazia está no desaparecimento das distinções entre o homem e a mulher. Dito de outra forma, nada deve impedir a mulher de se fazer igual ao homem, denunciando a dominação e o poder masculinos.

A maternidade é assim considerada uma limitação e uma injustiça, já que só as mulheres trazem crianças. Há que libertar, portanto, as mulheres da maternidade e este fato explica a multiplicação das campanhas a favor da anticoncepção e do aborto. Uma verdadeira campanha de mutilação internacional dirigida pelas mais altas instituições que alcança a verdadeira riqueza de um povo, que são seus filhos.

Bento XVI escreve: "Também algumas organizações não governamentais trabalham activamente pela difusão do aborto, promovendo nos países pobres a adopção da prática da esterilização, mesmo sem as mulheres o saberem. Além disso, há a fundada suspeita de que às vezes as próprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas políticas de saúde que realmente implicam a imposição de um forte controle dos nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislações que prevêem a eutanásia e as pressões de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jurídico. A abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento. Quando uma sociedade começa a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motivações e energias necessárias para trabalhar ao serviço do verdadeiro bem do homem" (n. 28).

O homem se considera senhor do universo. Não é, nem preside à sua origem, não é o seu próprio criador e muito menos quem se constrói a partir do nada. Procede da natureza e se desenvolve pela cultura. Não há oposição entre uma e outra, mas uma subtil interação. Em lugar de se construir, o homem se desenvolve segundo os fenómenos que lhe são próximos. Recebe-se como um dom, diz o Papa, realiza-se a partir de numerosas interdependências. Por isso é necessário que se desprenda da visão narcisista e autossuficiente do pensamento atual e se liberte do fantasma de todo-poderoso que o faria arquiteto de sua história pessoal, onde teria o controle de tudo.

Os relatos de vida que estão muito na moda atualmente nas ondas do rádio e da televisão ocidentais testemunham uma necessidade de se justificar, de se apresentar como herói de sua vida, ou vítimas da sua educação e dos demais. Este movimento é o sintoma de uma dificuldade para tomar posse da sua existência, dar-lhe significado e assumi-la. O pensamento individualista de um Pico della Mirandola influenciou, no norte da Europa e entre anglo-saxões, e o pensamento subjetivista desembocou num isolamento narcisista que está na origem de diferentes formas de violência no movimento da civilização.

O Santo Padre destaca que a pessoa humana não é dada só a si mesma, mas que também foi criada para a doação. "A caridade na verdade coloca o homem perante a admirável experiência do dom. A gratuidade está presente na sua vida sob múltiplas formas, que frequentemente lhe passam despercebidas por causa duma visão meramente produtiva e utilitarista da existência. O ser humano está feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência" (n. 34).

O dom não se pode realizar senão no reconhecimento, na aceitação e na interiorização da alteridade, e da alteridade sexual. O dom de si se expressa através do corpo à imagem de Cristo, que encarnou e se ofereceu de uma maneira carnal para que o homem se una à humanidade de Deus no amor à verdade. 

Como formar os sacerdotes e sensibilizar intelectualmente os cristãos perante esta ideologia?

Monsenhor Tony Anatrella: Os bispos africanos estão decididos a atuar através da formação dispensada por parte dos Seminários aos seminaristas, através das Universidades católicas e da formação paroquial e dos movimentos de ação familiar para, ao mesmo tempo que se sensibiliza perante a teoria de género, se ofereça um mecanismo intelectual crítico e se apresente uma visão realista da complementaridade entre o homem e a mulher. A Igreja, João Paulo II insistiu com firmeza nisso, faz um chamamento a uma civilização baseada no amor, quer dizer, no casal baseado num homem e numa mulher, os únicos que simbolizam o significado do amor através da conjugalidade e da filiação familiar. Necessitam ao menos de interiorizar intimamente esta diferença importante, para aceder ao amor.

No Ocidente, ainda que esta teoria esteja em marcha há muitos anos, a reflexão nos Seminários e nas Universidades católicas é quase inexistente. Este não é o caso das Universidades romanas, como no Instituto João Paulo II e na Academia Pontifícia Eclesiástica. Pelo contrário, constata-se que professores, estudantes e os membros do clero em seu conjunto adotam e utilizam frequentemente uma linguagem inerente a esta ideologia, sem o saber. É o aspecto mais pernicioso desta teoria: difundir os termos na linguagem quotidiana como melhor forma de fazer aceitar as ideias. 

Quem teria pensado que o conceito de "governabilidade", que é um termo sonoro e bonito, não tem o mesmo sentido que o de "governo". O mesmo com o conceito de "parentalidade", que substitui "parentesco" e introduz um significado completamente diferente. Ou o conceito de "saúde reprodutiva", que não tem nada a ver com o acompanhamento de mães e famílias, mas significa a difusão dos anticonceptivos e abortivos. É preferível substituir o conceito de "saúde da família", que inclui pai, mãe e filhos: em resumo, a unidade familiar. Portanto, devemos entender a origem e o alcance, e nos negarmos a aceitar essa não-linguagem.

O Conselho Pontifício para a Família publicou o Léxico de termos ambíguos e controversos para responder a todas essas questões ideológicas. Este livro foi publicado em português, francês, alemão, inglês, árabe, espanhol, italiano e russo. Por último, também temos de reconhecer todo o trabalho realizado pelas associações católicas familiares no âmbito europeu e internacional. Falta educar amplamente os formadores e professores, e todos os cristãos, para responder a este novo desafio que assola as políticas familiares. O cristão deve se mobilizar quando a dignidade da vida humana e o equilíbrio se vejam perturbados pela busca de lucros económicos e ideológicos limitados a interesses particulares, onde Bento XVI nos chama a uma maior abertura à vida.

 

 

 

 

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