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A Igreja inteira está
compreendendo que a família cristã não deve ser somente
destinatária, mas protagonista da evangelização, para que a
acção missionária possa chegar onde só as famílias chegam,
segundo constatou um seminário convocado pela Santa Sé.
Com o tema "Família,
protagonista da evangelização", o Conselho Pontifício para
a Família reuniu em Roma, entre os dias 10 e 11 de Setembro,
dezenas de casais do mundo, assim como sacerdotes
comprometidos com a pastoral familiar.
Dom Carlos Simón Vázquez,
subsecretário do Conselho, explicou que a reflexão se
concentrou particularmente no magistério do Concílio Vaticano
II, na constituição Gaudium et Spes e na exortação
apostólica Familiaris Consortio, assinada por João
Paulo II após o sínodo sobre a família, de 1980.
Este documento, afirmou, "apresenta
uma teologia, uma pastoral sobre a família, que tem suas
raízes no mistério de Deus e é chamada a ser presença desse
Deus amor, desse Deus que quer comunicar a Sua boa notícia ao
mundo inteiro".
A família, esclarece, "é
chamada a fazer Deus presente na história", como explica a
Gaudium et Spes, ao apresentá-la como "sujeito que
deve tornar realidade os pressupostos apresentados na primeira
parte do documento: por exemplo, deve estar presente no
serviço internacional, no serviço à sociedade, à cultura, nos
demais serviços em que a Igreja tem uma palavra a dizer".
Dom Vázquez esclarece que a
família fica reduzida a um destinatário e não a um sujeito
evangelizador "quando vemos nela um objecto que faz coisas,
que resolve problemas".
"A família faz tudo isso,
mas antes de mais nada, é um ser querido por Deus; portanto,
sua acção é o seu ser - acrescenta. Não é uma espécie de
solução de problemas, mas cumpre esta missão porque ela viveu
uma vocação que Deus lhe deu no amor."
A família, indica o
sacerdote, "é o lugar da gratuidade, da generosidade, onde
todos encontram um motivo para esperar e para estar seguros,
não pelo que têm, mas pelo que são, e isso é a tradução da
dinâmica do amor".
A visão da Caritas in
veritate
O Pe. Leopoldo Vives,
ex-secretário de Família e Vida da Comissão de Apostolado dos
Leigos da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), participou
neste simpósio para mostrar esse papel protagonista da família
à luz da nova encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate.
"O progresso da sociedade
passa pelo progresso da família", esclarece. Neste
sentido, destaca dois aspectos.
"O primeiro é a relação
da verdade com o amor: o progresso humano deve ser integral e
isso não se pode dar fora da relação interpessoal. É,
portanto, uma relação de amor."
"Se essa relação de amor
não for vivida conforme a verdadeira pessoa, o desenvolvimento
é fictício e pode haver um grande desenvolvimento económico,
nos meios de que dispomos, mas não na pessoa", esclarece.
Outro ponto, continua
explicando, "é a abertura à transcendência do homem, que
vai muito além de um horizonte terreno. Sem esta, estamos fora
da verdade integral do homem e, portanto, fora do seu
verdadeiro bem; e estaríamos novamente em um desenvolvimento
fictício".
O Pe. Vives sublinha, em
particular, a passagem da encíclica do Papa que mostra "a
relação entre a família e a Trindade: como vive de sua
comunhão de amor e da comunhão de Deus trinitário. Certamente,
aí está a verdadeira plenitude do homem, não somente na terra,
mas na plena comunhão com Deus no céu".
Um dos exemplos que mostram
como a família se converte em objecto e não em sujeito é a "ideologia
de género".
"A instituição familiar
se baseia na própria natureza da pessoa. No caso da ideologia
de género, temos uma negação da verdade do homem, porque o
fragmentamos, considerando nosso corpo como algo material,
independentemente da pessoa, que eu poderia, a partir da minha
liberdade, modelar segundo o meu gosto e separado
completamente do que é a pessoa, que se expressa desde sua
liberdade, entendida também mal, isto é, ‘eu sou pessoa porque
sou livre e, como sou livre, posso escolher'. Isso não é
assim."
"A pessoa é uma em sua
unidade de corpo e alma e, portanto, minha própria identidade
não pode ser verdadeira se não levar em consideração os actos
originais e fundamentais de quem sou eu. Em primeiro lugar,
sou também homem ou mulher."
"A família baseada no
casamento, a união entre um homem e uma mulher, é a verdade do
homem. Sem ela, estamos destruindo a relação mais fundamental
da pessoa, que é a relação conjugal, e dessa forma se destrói
a relação de pais e filhos."
"Aqui se fere a própria
identidade, o saber quem sou numa relação pessoal: ‘Eu sou eu
porque tu és tu; tu és tu e eu sou diferente de ti'. Mas se
anulamos essa diferença, que é o que a ideologia de género
pretende, eliminamos o fundamento da identidade pessoal. Se eu
tento construir minha identidade pessoal à margem do meu ser
masculino, estou numa constante contradição do meu próprio ser."
"Amor líquido"
O Pe. Vives considera que um
dos grandes desafios para os casais jovens que querem se casar
pela Igreja é o "amor líquido", isto é, "algo que
não é consistente, que não tem fundamento, algo sobre o qual
não se pode construir porque se reduz a diversos sentimentos".
"Certamente, há
sentimentos no amor e isso é parte importante e muito
chamativa para os jovens, mas não se pode reduzir a um
sentimento", sublinha.
"O amor é uma comunhão
que brota do dom de si mesmo. E esse dom é uma entrega total.
Isso é o que dá fundamento a uma relação. É o que não acontece
numa relação de ‘amor líquido', de sujeitos que não têm uma
capacidade de sacrifício, entrega e fidelidade, que não são
capazes de prometer porque consideram o futuro como algo
incerto."
Para superar o "amor
líquido", o sacerdote propõe compreender o que significa
ser cristão.
"Quando a pessoa entende
que tem uma vocação, que essa vocação é um dom de Deus e que
vem santificada por um sacramento, então ela está numa
disposição muito mais capaz de sustentar essa promessa de
viver o amor, de construir relações fortes e estáveis."
"Para isso, é
absolutamente fundamental a vinculação com a Igreja. Casar-se
no Senhor é, ao mesmo tempo, uma adesão à Igreja, porque é
corpo de Cristo. Em Deus, podem encontrar esse amor que os
esposos sonham e que os torna capazes de manter-se unidos."
"Tampouco é possível
viver o amor sem perdão e tudo isso vem alimentado pela
cooperação dos esposos com a graça sacramental", conclui o
Pe. Vives.
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