Homilia na Celebração do Santissimo Corpo e Sangue de Cristo 2017

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO 2017

IGREJA DE SANTA CRUZ DE COIMBRA

MISSA E PROCISSÃO DO SANTÍSSIMO - PRAÇA 8 DE MAIO

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

A celebração do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo constitui o louvor que a comunidade quer elevar ao Senhor nosso Deus por nos deixar o memorial da Sua Páscoa de morte e ressurreição.

Semana após semana podemos encontrar-nos com este mistério da presença salvadora de Jesus Cristo em nós e no coração do mundo por meio da Eucaristia, o sinal da Sua entrega ao Pai em sinal de amor.

A igreja nunca deixará de cantar, na alegria, os louvores de Deus, que a chamou, a enviou e a alimenta constantemente com a Palavra da Vida e com o Pão do Céu. Agradeceremos sempre o dom de Deus e pedimos que nos conceda a graça de o acolher com um coração disponível, bom e justo.

Dentro da arquitetura plural das nossas aldeias e cidades, entrecruzam-se os lugares de habitação e de trabalho, num conjunto mais ou menos ordenado de relações. Distinguem-se normalmente pelas suas formas e peculiares caraterísticas os templos, os lugares de culto, as igrejas, num apelo constante a que não nos fixemos nas coisas da terra, mas ergamos os olhos ao céu.

Os batizados, constituídos em Povo de Filhos ou Povo de Deus, precisam de estar na Casa do Pai, de entrar e celebrar, de escutar e rezar, de reconciliação e conversão, de acolher a fé e crescer nela, de ouvir a Palavra e de a meditar silenciosamente no coração.

A Missa, memorial da Páscoa de Jesus Cristo, que por nós morre e ressuscita, constitui o centro da ação de graças dos cristãos ao seu Deus e Senhor. De tal modo que uma igreja, seja ela rica nas suas formas, na sua história e no seu património ou completamente despojada, sem arte, nem história, traz sempre ao pensamento o dom do amor de Deus e um Povo de homens e mulheres que se dispõem a acolhê-lo com fé.

“Recorda-te de todo o caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer”; “não te esqueças do Senhor teu Deus”. Duas frases fortes que Moisés dirige ao Povo de Deus que caminha, por entre alegrias e dores, através do deserto da vida. A sua fé e a sua religião nasce deste reconhecimento dos dons de Deus e deste sentido de gratidão, próprio de quem se recorda da bondade de Deus e não pode esquecer que Ele esteve sempre presente nos momentos bons e maus.

“Foi Ele quem, da rocha dura, fez nascer água para ti e, no deserto, te deu a comer o maná” (o pão). A certeza da providência de Deus e a esperança que nasce da confiança que n’Ele se deposita fazem acorrer a Ele com o coração suplicante, mas sempre eternamente agradecido.

Ao olharmos para a nossa vida com um sentido de fé no Deus que cuida de nós, ao recordarmos a nossa história pessoal e familiar com todos os seus pormenores e detalhes, não podemos esquecer os inúmeros sinais da sua solicitude amorosa: Deus esteve connosco, nunca nos abandonou, sempre nos abriu caminhos de esperança, apontou-nos sempre para o alto, aqueceu-nos o coração... e isso nos bastou.

A nossa passagem pelas ruas da cidade tem, hoje, um significado muito especial. Tantas vezes passamos por estes mesmos lugares, apressados ou tranquilos, com a mente e o coração ocupados e preocupados, desejosos de chegar a qualquer parte ou intensamente ávidos de fugir de qualquer coisa.

Hoje é o dia de percorrermos as ruas da cidade, na tranquilidade e na paz, proclamando para dentro de nós que vimos de Deus, estamos em Deus e vamos para Deus. É o dia de sentirmos de forma mais forte que em todos os caminhos da vida o Senhor vai connosco, como foi com os seus apóstolos e como caminhou com os discípulos de Emaús. Podemos nem sempre O reconhecer, mas, pela fé, acreditamos na sua companhia e procuramos vê-lo no nosso coração, nas pessoas e nos acontecimentos.

A nossa saída do templo, do lugar do culto litúrgico, de junto do altar onde partimos o Pão do Céu e onde escutamos a Palavra da Vida, revela-nos o que nós somos em Cristo e a missão que d’Ele recebemos. Quem come o pão vivo descido do Céu permanece em Cristo; a sua missão consiste em ser no mundo sinal da vida eterna.

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo convida-nos a esta peregrinação ritual pelas ruas da cidade, levando Jesus no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. É um momento de louvor a gratidão pelo Seu amor e pela Sua presença no meio de nós.

Convoca-nos para todos os outros momentos da vida, quando, envolvidos com o trabalho, a vida familiar, as dificuldades, as esperanças e derrotas, é mais difícil ler, na fé, a mesma presença e força amiga de Deus.

Convoca-nos ainda para a missão de sermos protagonistas do anúncio do Evangelho de Jesus, portador de renovação humana, de justiça e de paz, de desenvolvimento e liberdade, de esperança divina e de vida eterna.

Esta solenidade e a procissão que faremos convocam-nos no sentido de unirmos a fé com a vida. Tal como as igrejas estão entrosadas com a malhas das cidades, vilas e aldeia, não se confundindo com elas e não se separando delas, assim o cristão há de estar completamente envolvido nas realidades da sociedade e do mundo, não se confundindo, no entanto com elas e, ao mesmo tempo, sem se separar delas.

O gesto religioso que hoje vivemos na praça pública de pouco valeria se fosse um gesto desligado da vida quotidiana de todos os filhos de Deus e membros de Cristo que, diariamente percorrem as ruas das cidades, ocupam os lugares de trabalho, agem na sociedade e nas famílias.

O gesto religioso de hoje, supõe e sugere toda a atitude de fé dos cristãos e da Igreja, portadores de Cristo, da Sua Palavra e do seu estilo de vida. Quem hoje peregrina pelas ruas da cidade em nome de Cristo e da Sua Igreja, não pode amanhã ficar em casa ou fechado no templo, como se a sua fé fosse questão de alguns momentos ou intervalos da sua vida.

Quem hoje peregrina pelas ruas da cidades há de peregrinar todos os dias pelas avenidas ou vielas da vida, com a mesma fé no coração, o eterno cântico de louvor nos seus lábios e o estilo de Cristo em todos os seus gestos.

E último lugar, caríssimos irmãos e irmãs, não posso deixar de vos recordar que a Eucaristia, lugar mais alto do culto cristão que celebramos, é sempre mistério de caridade: sinal do amor de Deus por nós e sinal do nosso amor pelos irmãos.

De acordo com o Evangelho e com o ensino da Igreja, a nossa fé e o  nosso culto, sem a caridade, soam a vazio. Por sua vez, o maior sinal da autenticidade da nossa celebração da Eucaristia e o seu fruto mais precioso, é a caridade, marca decisiva da vida do cristão na relação com o seu próximo.

Agradecemos ao papa Francisco por nos recordar constantemente esta realidade, que faz parte do âmago da fé cristã. Não se pode adorar a Deus em espírito e em verdade, se não na comunhão com Ele e na caridade com os irmãos. A humanidade inteira nas suas fragilidades, mas particularmente os pobres, os idosos e doentes, as crianças sem amor nem pão, as famílias divididas, os abandonados e sós, têm de fazer parte da família dos que celebram a Eucaristia, como fazem parte da família mais querida de Deus.

Por intercessão da Virgem Maria, peçamos ao Senhor que nos conceda a graça da fé na sua presença real no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, a graça de celebrarmos em espírito e verdade os mistérios do seu amor por nós, e a graça de sermos portadores da esperança às multidões que se cruzam nos caminhos das cidades e das vidas.

Ámen.

 Coimbra, 2017-06-15

Virgílio do Nascimento Antunes

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