Homilia Celebração da Paixão do Senhor 2017

SEXTA FEIRA DA PAIXÃO DO SENHOR 2017

SÉ NOVA DE COIMBRA

 

Caríssimos irmãos e irmãs!

Hoje é o dia da contemplação do mistério de Cristo na cruz, uma contemplação que é oração de louvor e gratidão, frutos da fé no Filho de Deus que se entregou e morreu por nós. Diante do sofrimento e da morte de Jesus, todas as palavras são poucas para exprimir o mistério ou são, porventura, demasiadas porque o podem ocultar aos olhos do coração.

Na cruz, Cristo assume todas as dores humanas, diante das quais todas as nossas palavras são igualmente desejo inatingível de explicação ou ruído que procura esconder o significado.

Diante do sofrimento e da morte, o silêncio contemplativo conduz ao mistério. Tanto diante de Jesus que morre como diante dos irmãos que sofrem, importa mais a presença em comunhão consoladora do que as tentativas vãs de explicação ou a busca de resposta aos muitos “porquês” que nos assaltam. Estar com Cristo, ao pé da cruz, e estar com os outros, ao lado das suas cruzes, no silêncio contemplativo e orante, numa comunhão cheia de confiança e de esperança é a atitude mais humana e mais cristã.

 

Junto à cruz de Jesus estavam a sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas e Maria Madalena, num silêncio constrangedor, por um lado, e eloquente, por outro. Maria não precisa de falar, pois basta o cruzar dos olhares de ternura e a sua presença forte para ser o consolo necessário no momento da solidão. Estava também João, o Discípulo que Ele amava, igualmente envolto no silêncio de quem, por ser amigo e irmão, sofre por dentro, mas não renuncia a estar presente.

A outra presença, aquela que excede todas as outras, é a do Pai em quem Jesus confia de modo inabalável. Não O impede de gritar a dor da sua humanidade: “Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?”, mas a confiança no Pai é bem maior essa dor, a ponto de entregar o Seu espírito nas Suas mãos.

A presença do Espírito Santo é uma constante em toda a vida de Jesus. Também no momento derradeiro da paixão e da morte Jesus sente a sua força, pois sabe que sem Ele poderia vacilar. “Tenho sede”, diz Jesus com as poucas forças que ainda lhe restam. A água viva, símbolo do Espírito que repousou sobre Ele e que lhe deu ânimo em todas as tentações e tribulações, será, também agora, a sua fortaleza diante da maior provação. Depois de tomar o vinagre, em paz com Pai, fortalecido pelo Espírito Santo e sentindo a presença consoladora da Mãe e do Discípulo, Jesus expirou.

 

 A Sexta Feira Santa é para nós a grande escola de vida. Nela aprendemos como homens e como discípulos a manter viva a confiança e a esperança em todas as situações, sobretudo nas de sofrimento, luto e morte. Unidos a Jesus estamos também nós na sua cruz e nas nossas cruzes dia após dia.

Como Jesus, não deixamos de sofrer, pois faz parte da nossa condição humana. Como Jesus, temos a certeza de fé que nos garante o sentido das nossas dores e, acima de tudo a certeza da presença do Pai, que não deixará no poder da morte aqueles que criou e que ama. Como Jesus confiamos na força do Espírito Santo, que acompanha o nosso percurso e que sempre nos dá a água da consolação, a água que se transforma em torrente de Vida. Como Jesus, temos junto a nós a presença silenciosa, mas calorosa e carinhosa de Maria, Aquela que nos foi dada por Mãe de Misericórdia. Como Jesus, temos a presença da Igreja que nos ama, representada junto à cruz pelo Discípulo João, que permanece de pé e em atitude de total solidariedade e comunhão.

A partir da lição da Sexta Feira Santa, havemos também de nos situar do lado de quem está junto à cruz, particularmente do lado de Maria que, como Mãe, acompanha e consola os seus filhos em todas as suas dores. Havemos também de nos situar do lado de João, do lado do discípulo, da Igreja à qual nada do que é humano pode ser indiferente e para quem toda a pessoa é um próximo, sobretudo os mais pobres, os que sentem a amargura e a dureza da solidão.

A oração contemplativa junto à cruz de Cristo leva sempre à ação direta e próxima junto dos nossos irmãos. De outro modo seria estéril a cruz de Cristo e vã a nossa oração. A Igreja que formamos é comunidade orante e de contemplação, mas é igualmente comunidade de ação. Animada pela fé, fortalecida pelo Espírito Santo, povo de Deus em oração, é sinal vivo da presença consoladora e salvadora.

A Igreja, e cada um de nós inserido nela, não pode ficar fechada no templo nem refugiar-se em espiritualismos farisaicos, mas há de tocar todas as realidades humanas e há de sujar as suas mãos, dobrando-se diante de todas as misérias materiais e espirituais, a fim de libertar e resgatar todos os que delas estão prisioneiros.

A fim de ser sinal verdadeiro e ao mesmo tempo evangelizador, a Igreja tem de privilegiar a sua presença junto das famílias em crise, desfeitas ou em situação irregular; junto dos jovens sem horizontes de futuro pela falta de trabalho ou de esperança no futuro; junto dos doentes, dos idosos, dos que sentem as dores físicas e morais; junto dos que estão subjugados pelo pecado que escraviza e de que não conseguem libertar-se; junto dos que não creem em Deus e se sentem diante do vazio, quase à beira do desespero por não encontrar razões para viver.

A Igreja, e cada um de nós seus filhos, há de estar de pé junto a todas as cruzes dos homens, ora fazendo silêncio, ora clamando em alta voz, mas sempre com amor, o grande sinal de Cristo que assumiu todo a nossa humanidade, que esteve sempre junto a nós e que, pela sua santa cruz, nos libertou de todas as angústias.

 

Que Maria junto à cruz de Jesus, onde se tornou Mãe da Igreja e Mãe de todos os homens, nos ajude a estar junto a todas as cruzes da humanidade e a ser aí sinal da consolação de Deus.

 

Coimbra, 14 de abril de 2017

Virgílio do Nascimento Antunes

Bispo de Coimbra

 


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