Celebração da Paixão do Senhor 2023 - Homilia de Dom Virgílio

CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR – 2023

Caríssimos irmãos e irmãs!
Renovamos neste dia o nosso amor à cruz de Cristo, o sinal da salvação erguido sobre nós e sobre o mundo. A cruz é sinal de morte e sinal de vitória, porque nela foi suspenso o amor, única porta de redenção que tem por nome Jesus Cristo morto e ressuscitado.
Se, aos olhos do mundo, Cristo crucificado é anúncio de morte, aos olhos da fé torna-se proclamação de vida que não tem fim, porque nos mostra o amor de Deus, que leva até ao fim e até às últimas consequências a oferta de Jesus e não quer que se perca nenhum daqueles que o Pai lhe deu. Se, aos olhos do mundo, a cruz é loucura, aos olhos dos que nela encontram a salvação, ela é sabedoria de Deus. É por isso que nós continuamos a pregar e a adorar Cristo crucificado como poder de Deus.
Segundo a expressão do Apóstolo, nenhum de nós pode encontrar a glória por si mesmo, porque nenhum de nós pode alcançar por si mesmo a salvação eterna. Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, como cantamos frequentemente, numa frase que exprimindo um aparente paradoxo, manifesta a afirmação bem real de que é no amor de Cristo e Cristo crucificado que somos salvos.
Apesar de ser mistério central na fé cristã, o mistério de Cristo crucificado é dos mais difíceis de entender e de aceitar. O sofrimento e a morte parecem-nos contrários à nossa ânsia incontida de felicidade e de vida, podem até impedir alguns de acreditar na bondade e no amor de Deus, que sempre proclamamos como realidade indubitável da fé cristã. O sofrimento e a morte são sempre um desafio à fé e somente na cruz de Cristo, que morre sendo santo e inocente podem encontrar o seu sentido, uma vez que o próprio Filho de Deus não foi poupado à prova maior, que não é senão a prova e o sinal do amor que tudo vence.
O maior desafio à nossa fé consiste em poder vislumbrar em Jesus Cristo crucificado, ainda que de forma imperfeita, uma resposta para as nossas cruzes de cada dia. A amizade com Jesus, a confiança na sua palavra, a contemplação compadecida da sua cruz e o encontro com o seu amor oferecem-nos a relação com Ele, que nos permite acolher a fé, permanecer na fé e crescer na fé, mesmo que diante dos embates da vida possam persistir as noites escuras da mesma fé.

Convido-vos, hoje, a tomar a figura de Pedro como o homem, o discípulo, o apóstolo, que, apesar de ser designado por Jesus como a rocha sobre a qual haveria de edificar a sua Igreja, se viu a braços com as noites mais escuras da fé.
Nos sucessivos anúncios feitos por Jesus acerca da proximidade da sua paixão, Pedro e alguns outros discípulos não conseguiram entender nem aceitar aquelas palavras e ficaram cheios de um misto de descrença ou quase revolta interior. Na noite do Getsémani não conseguiu estar vigilante na companhia do sofrimento atroz pelo qual passa Jesus ao confrontar-se com a vontade do Pai. Por sua vez, como ouvimos há pouco na narração do Evangelista João, após um ímpeto de violência para defender o Mestre, acaba por sucumbir diante da iminência da condenação de Jesus à morte, no pátio do sumo sacerdote. Ali, Pedro nega por três vezes conhecer Jesus, fazer parte do Seu grupo e andar com Ele na condição de discípulo.
Pedro teve as suas noites escuras da fé diante da evidência da proximidade do sofrimento, da paixão, da cruz e da morte de Jesus e, por três vezes, afirmou não ser discípulo desse homem. E, no entanto, ali estava a rocha sobre a qual Jesus havia de edificar a sua Igreja, aquela Igreja diante da qual as forças do inferno não prevaleceriam, aquele a quem Jesus havia de confiar as chaves do reino dos Céus e o poder de ligar e desligar.
O mesmo Pedro, num claro desafio ao poder das forças humanas, somente ancorado no poder de Deus, confessa por três vezes o seu amor a Cristo e não só está disponível para oferecer a sua vida como acaba por receber morte semelhante à Sua. Pedro não tem outra segurança senão a que lhe vem da amizade com Jesus e da confiança que n’Ele deposita; não tem outro poder e outra glória senão a que lhe vem do crucificado; não tem outra sabedoria senão a da cruz de Cristo.

Irmãos e irmãs, esta é a hora da fé em Cristo Crucificado, a porta aberta para compreendermos e aceitarmos as nossas dores e as dores de toda a humanidade. Com Cristo elas são dores que alcançam um sentido. Não são procuradas, mas são enfrentadas de pé e com esperança.
Cada um de nós e a própria Igreja temos a tentação de fugir à cruz e de a negar. Assim aconteceu com Pedro e com os discípulos, mas nunca assim aconteceu com Jesus Cristo, que tomou resolutamente a decisão de subir a Jerusalém, onde sabia enfrentaria a cruz como sinal da obediência à vontade do Pai.
Carregar a própria cruz e seguir Jesus é vocação de discípulos, como refere o Evangelho. Por sua vez, o discípulo de Jesus está também disponível para ajudar a carregar o peso da cruz dos outros, não forçado, mas de livre vontade. A solidariedade humana e cristã impele-nos a um ato de amor maior, que passa do simples acolhimento da própria cruz ao acolhimento da cruz dos irmãos.
Irmãos e irmãs, convido-vos, hoje, de modo especial, a carregarmos a cruz da Igreja, sobre a qual impende o pecado dos seus membros, que a impede de ser sinal no alto do monte, sal, fermento e luz. A comunhão de todos os membros do Corpo de Cristo, nas alegrias, nas dores e pecados é dura, mas fortalece o mesmo Corpo e esse é sem, dúvida, o desejo de Jesus, quando nos pede para estarmos unidos, para sermos um só.
Reconhecendo a falta de fé que nos leva muitas vezes a negar que conhecemos o Senhor e que somos seus discípulos por palavras, por obras e por omissões, queremos passar à confissão tríplice do amor, que nos levará a confessar ao Senhor que O conhecemos, que somos seus amigos, que O amamos e queremos ser seus discípulos.

Coimbra, 07 de abril de 2023
Virgílio do Nascimento Antunes
Bispo de Coimbra

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